Riscado

Genealogia de artistas no palco da vida

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21 de agosto de 2016

Uma metalinguagem com a forma de realizar cinema e o capital humano e emocional das vidas entrelaçadas a este formato, nas várias máscaras criativas do dia-a-dia atrás e na frente das câmeras. É assim que se pode descrever este misto de ficção com documentário arrebatador de prêmios chamado “Riscado”, um empreendimento familiar intimista entre diretor, Gustavo Pizzi, e uma das melhores revelações na atuação da última década, Karine Teles. O casal também divide a autoria do roteiro, brincando de cruzar a fronteira entre a vida real e o que é romanceado sobre o eterno sonho de estrelato e suas consequências.

Crédito: FCG/Divulgação. Gramado RS. 39* Festival de Cinema de Gramado. Longas Nacionais. Riscado.

Crédito: FCG/Divulgação. Gramado RS. 39* Festival de Cinema de Gramado. Longas Nacionais. Riscado.

A personagem ficcional Bianca (Karine Teles dos laureados cults “O Lobo Atrás Da Porta” e “Que Horas Ela Volta?”) é uma atriz cuja carreira ainda não deslanchou. Para se manter, ela imita grandes divas do cinema como Carmem Miranda e Marilyn Monroe em pequenos eventos. Sua sorte parece mudar quando consegue o papel principal de uma grande produção internacional. Inspirado por sua personalidade e seu trabalho, o diretor do longa-metragem resolve transformar a protagonista em uma versão da própria Bianca.

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Com bastante propriedade na direção de Gustavo Pizzi, a narrativa ficcional se aproxima da realidade através da imagem crua e com bastante iluminação natural, câmera na mão e locações reais da vida dos membros da equipe, aproximando o envolvimento do filme com o mais verídico possível. Suas personagens poderiam ser qualquer pessoa que já esteve no lugar de tentar o reconhecimento em sua respectiva área, ainda mais na artística, cujo sucesso é subjetivo e vinculado temporariamente a cada obra. Este esforço conjunto do processo criativo entre objeto e sujeito, realização e realizador, foi muito bem versada com todas as suas agruras e reviravoltas na pele de Karine, também mérito em ser corroteirista, que está natural sem nunca se afastar das emoções reais que sua personagem ficcional precisa passar, em um incrível controle de cena. Desde cantando parabéns para uma família abastada a chamar público na rua para a abertura de uma farmácia, sempre terminando o dia a fumar pela janela diante do horizonte porvir. No fim, vale a grande catarse de o quanto a arte necessita de seu substrato humano para existir, mas ao mesmo tempo os perigos de sem querer ou não criar com esta arte um monstro muito maior do que a soma de suas partes engolidas no processo.

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O filme conta ainda com o excelente Otávio Müller no elenco, e foi ganhador de inúmeros prêmios como melhor Atriz no Festival do Rio 2010, e melhor direção, roteiro e atriz do Júri Oficial do Festival de Gramado 2011, além de melhor Filme pelo Júri da Crítica.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5