Roda Gigante

Confira mais uma visão crítica para esta complexa nova obra de Woody Allen

por

17 de outubro de 2017

Numa cena de Roda Gigante, Ginny (Kate Winslet) afirma a seu amante Mickey (Justin Timberlake) não ser simplesmente uma garçonete, mas uma atriz interpretando esse papel. E a personagem, de fato, se dedicou à atuação no passado, abandonando a carreira por conta de uma escolha errada na vida amorosa e do alcoolismo que se seguiu. Não é à toa, portanto, que Woody Allen oferece a Ginny um palco próprio para a encenação de seu novo drama: todas as cenas ambientadas na casa da protagonista e de seu marido Humpty (Jim Belushi) são visualmente construídas de forma a remeter à mise-en-scène teatral, desde a movimentação dos atores pelo espaço, passando pelos poucos cortes, até as luzes expressivas que tanto definem a ênfase dramática num ou noutro personagem quanto comentam seus sentimentos em cada cena.

Roda Gigante (Foto: Divulgação).

Essa sofisticação visual de Roda Gigante, aliás, marca continuidade com o filme anterior de Allen, Café Society (2016), também fotografado por Vittorio Storaro – parceiro contumaz de Bernardo Bertolucci e responsável pelas belíssimas fotografias de Apocalypse Now (1979) e O Fundo do Coração (1981), de Francis Ford Coppola – e igualmente expressivo no uso da luz. O que destoa aqui nesse departamento é o recurso recorrente ao plano-sequência, algo pouco comum no cinema do diretor, mas que faz bastante sentido na busca por emular a ação contínua dos atores num palco de teatro. É interessante, aliás, observar como Allen absorve em seus filmes características do estilo de alguns diretores de fotografia mais autorais com os quais trabalha: o rigor naturalista de Sven Nykvist (A Outra e Crimes e Pecados), as sombras de Gordon Willis (Interiores e Manhattan, por exemplo) e agora a luminosidade de Storaro.

e1fba23e_edit_img_facebook_post_image_file_42402696_1474044915

Como típico filme teatral de Allen que é, Roda Gigante se alicerça num texto afiado e em personagens complexos, trágicos, em boa medida. Sobretudo Ginny, mulher marcada pelas decisões erradas que tomou e segue tomando, figura desesperada por uma felicidade que lhe parece inalcançável – possivelmente, a matriz, nesse aspecto, é Tennessee Williams, o que aproxima Ginny de outra figura feminina forte criada recentemente por Allen, a Jasmine (Cate Blanchett) de Blue Jasmine (2013). Ao mesmo tempo, a protagonista de Roda Gigante passa a carregar, a partir de certo momento, o peso da culpa por uma escolha feita que a inscreve na longa linhagem de personagens dostoievskianos de Allen: Judah Rosenthal (Martin Landau), de Crimes e Pecados (1989), Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers), de Match Point (2005), os irmãos Ian (Ewan McGregor) e Terry Blaine (Colin Farrell), de O Sonho de Cassandra (2007), e Abe Lucas (Joaquin Phoenix), de O Homem Irracional (2015).

woody-allen-photo

Winslet está impecável no papel, materializando Ginny em cena como uma mulher ao mesmo tempo frustrada com o que veio antes e empolgada com o que pode estar por vir – até que essa empolgação é destroçada pelo medo de uma nova frustração. É daquelas figuras amargas que vagam pelo quadro, atuando para os outros e para si própria, tentando se enganar quanto às possibilidades de fuga de um destino implacável. Mas Belushi também merece ser destacado, pela construção comovente de Humpty como homem bronco, portanto muitas vezes bruto e agressivo, mas verdadeiramente afetuoso com Ginny e Carolina (Juno Temple), sua filha desgarrada que retorna para casa. Ele também carrega considerável dose de tragédia, ao se descobrir incapaz de “salvar” de alguma forma as mulheres que ama.


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52