Roda Gigante

Woody Tennessee Williams

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15 de outubro de 2017

O Brasil teve a exclusiva chance de ser a segunda plateia a assistir o inédito novo filme de Woody Allen na noite de encerramento do Festival do Rio 2017 (simbólica, pois o Festival vai até o dia 18 de outubro), logo após o filme ter sido exibido poucas horas antes no encerramento do Festival de Cinema de Nova York. Bem, longe do Almanaque Virtual baixar a expectativa de qualquer um em relação ao novo filme de Woody Allen, “Roda Gigante” (“Wonder Wheel”), pois a expectativa de todos sempre é a mais alta. E, de fato, a máxima ainda vale, pois mesmo um Woody que não alcance a perfeição ainda é maior do que muita coisa rolando por aí… E ninguém pode dizer que não haja muito a se dizer sobre o novo filme de Woody.

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Em primeiro lugar, Allen alcançou ao menos um feito gigantesco, que é “Roda Gigante” ser o seu filme com o melhor uso de iluminação de toda a sua filmografia, conjugada a uma belíssima fotografia de Vittorio Storaro (mestre de “Apocalipse Now” e “Último Tango em Paris”), que já havia elevado seu filme anterior, “Café Society”, a um novo patamar das obras de Allen. Mas por que de todos atributos do mundo elogiar logo a iluminação/fotografia? Parece que não há nada mais a se falar… Porém há. É porque a iluminação do filme é inspirada no próprio título, “Roda Gigante”, pois há uma logo ao lado da casa dos protagonistas que moram perto de um parque de diversões à beira da praia e de um lindo píer com um pôr-do-sol maravilhoso. Esse show de luzes tanto naturais quanto artificiais que estas fontes proporcionam vivem a cambiar o reflexo de como os rostos e expressões dos personagens também mutam suas intenções. Não à toa, é uma grande roda da vida mesmo, onde tudo pode girar e mudar por acaso e destino, duas palavras que povoam as obras de Allen.

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A próxima pergunta é se a manipulação tão expressa e aberta da luz não poderia fazer seu filme soar fake ou distanciar as emoções… Porém, não, pelo contrário. Logo de princípio somos apresentados ao narrador onisciente e também um dos protagonistas da história, Mickey (Justin Timberlake), que se introduz como um salva-vidas na praia que se considera um poeta e almeja ser um dramaturgo. Isto já diz muito, em dois tons bastante Woodyallenianos, seja por seu frequente uso de narração em off ou pela metalinguagem de inserir sua própria mentalidade de escritor dentro da história como um personagem que cria e recria a trama a bel prazer. Portanto, o lado “peça de teatro” imputado pelo personagem do ator/cantor Justin Timberlake já nos anuncia o tom farsesco de encenação num palco da vida. As cenas internas são puro teatro cronometrado à excelência, enquanto que as externas ainda fitam de forma brejeira uma naturalidade maior. Daí vem o fato de a iluminação como uma direção teatral assumida se encaixar como uma luva, misturando as diferentes máscaras gregas para passear entre a comédia e o drama num piscar de olhos.

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A trama é simples e talvez seja melhor não falar muito mais do que isso. Um triângulo amoroso que depois se tornará num quadrado envolvendo o salva-vidas, um casal decadente interpretados por Kate Winslet e Jim Belushi, e a filha deste, que retorna após fugir do marido mafioso, na pele da atriz Juno Temple (que já brilhou em “Killer Joe – Matador de Aluguel”). Essa dinâmica vai ser guiada principalmente pelo furacão Kate Winslet, mesmo que sobre momentos para os outros artistas também brilharem. Jim Belushi consegue sair até um pouco de sua couraça canastra e chega a encaixar bem na trama, com a parcela mais tragicômica do roteiro, enquanto que Juno às vezes consegue a proeza de roubar algumas cenas da grande Winslet, na parcela mais romântica e naïf da história. O único porém do elenco ainda seria o próprio narrador, Justin Timberlake, de quem se é exigida a difícil tarefa de não apenas se comunicar com o público como quebrar explicitamente a quarta parede. Sua persona talvez um pouco jovial para o papel (não de idade, mas de aura), bancando o garanhão descolado que se garante um pouco demais, abriu espaço para que Kate Winslet tomasse a personificação de Woody Allen que tipicamente fica a cargo dos personagens masculinos, com raras exceções. Até porque ela domina muito melhor a passagem entre gêneros cinematográficos e tons de humor, enquanto Justin fica perdido nestas transições.

Kate gesticula, dá de ombros, e às vezes até apressa o ritmo de sua fala de forma especialmente a emular as neuroses do próprio diretor-roteirista-ator, que neste filme não atua, mas é quase como se viesse à vida através dela. Isto faz com que o vínculo de afetividade do espectador se comunique de forma mais íntima com a personagem de Kate, e não do narrador. Ainda que sua protagonista recaia muito facilmente no clichê de mulher histérica que se fartou da rotina e não sabe como atraiu suas próprias desgraças ao se atirar no mesmo fogo sem o qual não vive, enquanto que esta faceta se realça e se distorce ainda mais pela construção desnecessariamente pueril com que se dá o contraponto da outra personagem feminina, a de Juno Temple. Talvez seja no contraste entre as duas que a força individual de cada uma, como representantes maiores da alma feminina, geralmente tão rica nos filmes de Allen, se unidimensionalize um pouco aquém da encomenda.

Já em se falando nas referências mais teatrais, a trama parece querer homenagear peças clássicas americanas, com gostinho mais específico de “Um Bonde Chamado Desejo” de Tennessee Williams, até porque os dois principais arquétipos da peça que virou o famoso filme homônimo também coexistem aqui, que é uma personagem de fora invadir e quebrar a rotina de uma família já desordenada e o sutil toque do alcoolismo. Estes personagens trágicos como nas referências gregas que Allen tanto gosta de traçar, personificam em Kate o ápice da caracterização dramática do que está por vir: leonina, ela possui cabelos vermelhos como o fogo e como as paixões que pululam dentro de si, arrebatadoras. Este fogo também combina com a (psico)mania do filho pequeno de um casamento anterior da personagem que gosta de começar pequenos incêndios que nem a cor de suas madeixas igualmente ruivas.

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É curioso denotar o desenvolvimento narrativo, pois ao mesmo tempo em que encontra no protagonista de Timberlake seu Calcanhar de Aquiles, também repete maneirismos de filmes anteriores que se tornam mais como marcas registradas do que meras repetições, numa sessão de psicanálise constante, mas também contrapõem seus filmes uns ao lado dos outros. E o fato é que falando de heroínas trágicas desequilibradas, Cate Blanchett construiu com maior precisão cirúrgica a personagem-título de “Blue Jasmine”, com o qual ganhou o Oscar de melhor atriz em 2014, empalidecendo um pouco a versão mais histriônica de Winslet para a atual versão de Allen. Kate é uma grande atriz com muitos recursos cênicos, ainda que o roteiro e diálogos pesem mais às vezes do que o espaço para deixá-la brilhar per si, talvez presa também de certa forma pela exuberância da fotografia. E como em quase cem por cento do tempo a câmera segue sua protagonista, ficamos à mercê mais das reviravoltas do que de início é apenas mais um triângulo amoroso típico de Allen do que o potencial que a atriz tinha a trazer. Isto independente do tom teatral mencionado no início, pois, independente dele, Kate consegue transcender alguns bons grandes momentos, como o monólogo iluminando apenas a sua face incrivelmente reveladora quando debaixo do píer, numa noite de romance tórrido. Ou no irretocável plano-sequência final com que a atriz enfim eleva o filme às estrelas como esperávamos durante toda a projeção e que, com apenas esta única cena, pode já ter garantido ao menos sua indicação certa ao Oscar de melhor atriz em 2018.

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Ou seja, irregular, menos divertido do que as comédias românticas mais frequentes do diretor nesta última década, e só assumindo seu ar mais dramático apenas ao final, coisa que a montagem deslocada de “Blue Jasmine” foi capaz de executar com mais sutileza, “Roda Gigante” vale principalmente pelo crescendo de expectativa que culmine em um grande momento que define a existência de cinema, em que Kate pode fazer exatamente aquilo pelo qual imaginávamos que Allen a traria para fazer.