‘ROMA’ conquista um Leão de Ouro para a Netflix

Com virtudes de sobra, o novo e confessional longa-metragem de Alfonso Cuarón recebe a láurea máxima do Festival de Veneza para o serviço de streaming

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08 de setembro de 2018

Uma família de classe média do México dos anos 1970 entra em crise em "ROMA"

Uma família de classe média do México dos anos 1970 entra em crise em “ROMA”

OS PRÊMIOS DE VENEZA
Leão de Ouro: “ROMA”, de Alfonso Cuarón
Grande Prêmio do Júri: “The Favourite”, de Yorgos Lanthimos
Direção: Jacques Audiard, por “The Sisters Brothers”
Atriz: Olivia Colman, por “The favourite”
Ator: Willem Dafoe, por “At Eternity’s gate”
Roteiro: Joel e Ethan Coen, por “The ballad of Buster Scruggs”
Prêmio Especial do Júri: “The nightingale”, de Jennifer Kent
Troféu Marcello Mastroianni Para Atriz ou Ator Revelação: Baykali Ganambarr, por “The Nightingale”

Alfonso Cuarón no set do longa-metragem que rendeu a ele o Leão de Ouro em Veneza

Alfonso Cuarón no set do longa-metragem que rendeu a ele o Leão de Ouro em Veneza

UMA ANÁLISE DOS PRÊMIOS
RODRIGO FONSECA
Diante da merecidíssima vitória de “ROMA” no Festival de Veneza, é mais justo dizer que o Leão de Ouro de 2018 foi para a Netflix do que colocar o prêmio na conta do México, ainda que a terra natal do diretor Alfonso Curarón transborde pelos frames de seu longa-metragem, ambientado nos anos 1970, no lar de uma família de classe média em transformação. O DNA do realizador de “E sua mãe também” (2001) está muito bem impresso em cada cena, assim como sua identidade territorial. Porém o que o prêmio traz de novo para o cinema mundial é o fato de sinalizar um (tardio) reconhecimento dos feitos do mais popular serviço de streaming do mercado audiovisual. Estamos falando o mais antigo dos grandes festivais do mundo, um evento já chamado de “decadente” e hoje visto como um poleiro de Hollywood, servindo de trampolim para o Oscar. É como se a tradição desse boas vindas ao futuro dos meios digitais de recepção de imagem. E isso é referendado por um estrangeiro – o presidente do júri e o também mexicano Guillermo Del Toro, cineasta por trás do sucesso “A forma da água” – que os grandes estúdios acolheram.
E deu Netflix na cabeça ainda na categoria de Melhor Roteiro, com a (injusta) consagração de um trabalho fraco (porém divertido) dos irmãos Coen na seara do bangue-bangue: “The ballad of Buster Scruggs”. O grande western de Veneza veio de um francês, Jacques Audiard, que nos deu o hawksiano “The Sisters Brothers”, arrancando de John C. Reilly uma comovente atuação. Ele é Eli, um temido pistoleiro cansado de matar… e de curar as bebedeiras do irmão, Charlie (Joaquin Phoenix)… que se vê obrigado a caçar um químico procurado pela Justiça. Como Del Toro tem uma educação cinéfila sofisticada, ele não deixou Audiard sem troféus: deu a ele o de Melhor Diretor. Foi justo.

"The Sisters brothers": Melhor Direção para Jacques Audiard

“The Sisters brothers”: Melhor Direção para Jacques Audiard em sua viagem ao Velho Oeste

Foi bonito e justo) ver o sucesso do diretor grego Yorgos Lanthimos, responsável por longas polêmicos como “O Lagosta” (2015) e “O sacrifício do cervo sagrado” (2017). Seu belo “The favourite” recebeu o Grande Prêmio do Júri e viu a inglesa Olivia Colman (de “The Crown”) ser coroada Melhor Atriz. Um dos filmes mais divertidos e debochados de Veneza em 2018, o longa de Lanthimos se passa bem longe da Grécia: na Inglaterra do século XVIII, imersa em guerras com a França, a Rainha Anne (Colman, em magnífica atuação) se rasga em berros de dor por uma gota que incha seu pé. Anne só desfruta de alguma bonança quando abusa do corpinho de sua mais querida nobre: Lady Sarah, vivida por Rachel Weisz. Sarah gosta de poder e, por isso, não vê problemas em deleitar sua monarca com seus beijos e toques – em cenas picantes. Mas a chegada de uma jovem e sabia aia (Emma Stone) vai desafiar a boa vida de Sarah. É um estandarte da afirmação LGBTQ que bate na veia de questões políticas do Velho Mundo. É uma espécie de “Amadeus” com humor.

Olivia Colman em "The favourite"

Olivia Colman em “The favourite”: a rainha da Inglaterra renova seus prazeres

Por fim, ao lado do prêmio de Olivia, o palmarês de atores coroou Willem Dafoe, pela visceral recriação da vida de Van Gogh em “At Eternity’s gate”, de Julian Schnabel. O filme dividiu opiniões, mas o desempenho dele, não. O longa dialoga com as pinturas do artista plástico para traduzir suas tempestades afetivas.

Única mulher cineasta entre os candidatos ao Leão deste festival, a australiana Jennifer Kent deixa Veneza com o Prêmio Especial do Júri por “The nightingale”, uma trama de vingança ambientada na Tasmânia do século XIX. Seu filme recebeu ainda o Troféu Mastroianni de Atriz ou Ator Revelação, dado a Baykali Ganambarr pelo papel de um rastreador aborígene.

Agora vem San Sebastián e o BFI London Film Festival. Que o cinema siga experimentando a partir deles.