Roteiro em modo ‘game over’ emperra uma aventura de visual exuberante

Apesar do carisma de Michael Fassbender e da potência visual de seu fotógrafo, o mesmo de 'True Detective', a adaptação do jogo eletrônico 'Assassin's Creed' tem uma dramaturgia confusa, sem motivações claras nos personagens

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13 de janeiro de 2017

Michael Fassbender vive um condenado à morte cooptado por um projeto secreto centrado nos feitos ancestrais de uma seita de assassinos: uma xerox sem projeto estético (nem ético) de "Matrix"

Michael Fassbender vive um condenado à morte cooptado por um projeto secreto centrado nos feitos ancestrais de uma seita de assassinos: uma xerox sem projeto estético (nem ético) de “Matrix”, sob a direção de Justin Kurzel

RODRIGO FONSECA 

Responsável por banhar Cannes de sangue, em 2015, ao exibir, na briga pela Palma de Ouro, uma versão de Macbeth parecida com um episódio de Game of Thrones, Justin Kurzel, cineasta australiano de 42 anos, tentou emprestar a um projeto de franquia baseado no jogo eletrônico Assassin’s Creed um ethos de potencial existencialista, encapado com uma plasticidade incomum aos espetáculos de ação. Plasticamente, seu empenho deu certo: em termos visuais, a narrativa do filme baseado no videogame da Ubisoft alcança dimensões de transcendência atípicas para o cinema-pipoca. Há cenas de ação que provocam vertigem pela exploração geométrica incomum que o fotógrafo Adam Arkapaw (talento em ascensão, responsável pela série True Detective) promove ao testar todas as soluções possíveis de aproveitamento do plano fílmico. As cenas de parkour (atividade física calcada em saltos) então são as mais vertiginosas. Mas esse bom rendimento aeróbico, esse “viço de pele”, não se repete na peleja de Kurzel para criar uma aventura mais reflexiva, capaz de ir além do que é narrado no enredo e gerar um pensamento sobre a natureza bélica da Humanidade e a relativização do Tempo. A falha está no roteiro, um dos mais pífios e confusos dos últimos anos.

 

Produção de US$ 125 milhões, Assassin’s Creed repete o mesmo pilar que Kurzel usou em seu redivivo (e pop) Macbeth: a atriz mais superestimada do mundo na atualidade, a francesa Marion Cotillard, e um dos atores mais talentosos hoje na fileira dos indies e na de Hollywood: o teuto-irlandês Michael Fassbender. Investiu-se pesadamente na divulgação do projeto, mas sua bilheteria nos EUA foi magra (US$ 51,2 milhões até agora), em parte pela rejeição provocada por sua dramaturgia insipiente. É difícil sair da primeira hora da projeção entendendo, com precisão, qual é a jornada heróica (ou anti-heróica) a ser completada por Callum Lynch, o condenado à morte vivido (bem, como sempre) por Fassbender. Entende-se a trama homeopaticamente, enquanto se é anestesiado pela ginástica estética das lentes Arkapaw, em perseguições e cenas de luta – algumas antológicas. Existe, contudo, uma virtude inquestionável em meio a tanta deficiência dramatúrgica: Kurzel devolve ao cinema o gosto de ver um filme de ação “sério”, soturno, sem a necessidade das muletas cômicas que descaracterizaram o gênero a partir dos anos 1990, com as chanchadas de Jackie Chan e de Will Smith.

 

Se você se pergunta do que trata Assassin’s Creed, o filme… Bom, o pouco que faz algum sentido fala de uma seita milenar de matadores que, ao longo dos séculos, fez oposição à histeria religiosa dos Cavaleiros Templários. É uma espécie de PCC sem fé, opositora dos delírios do fanatismo. Até aí… bela premissa. Aí, tudo cai para o sci-fi: Lynch é um presidiário em vias de execução cujo pai foi do Credo dos Assassinos. Ao receber a injeção letal, ele é resgatado por uma organização comandada pelo empresário Alan Rikkin (Jeremy Irons, um monstro da arte de atuar que fragilizou sua carreira ao aceitar qualquer papel por cifras altas) e sua filha, Sofia (Marion, a frigidez emocional em pessoa). Sofia está em busca de um meio para apaziguar a guerra entre o Credo e os Templários, caçando um artefato capaz de equalizar as contradições entre os Homens: a Maçã do Éden. Mas apenas Lynch pode encontrá-la, pois o antepassado dele, Aguillar, o nº1 da seita, saberia como localizar a tal Maçã. Para isso, por meios virtuais, ele volta, como projeção astral, até o corpo de seu tatatatataravô, na Espanha de 1490, de Colombo, a fim de sintonizar-se espiritualmente com ele e reaver o fruto sagrado. Neste ponto, tudo se torna rocambolesco e inverossímil.
A falta de simplicidade é o pecado mortal do filme, que perde ainda mais quando Marion está em cena, atuando no piloto automático. Ao lado de Passageiros, bomba atualmente em cartaz com a insossa Jennifer Lawrence e Chris PrattAssassin’s Creed pinta um retrato desabonador para o filão mais comercial do cinema neste início de 2017. É importante, contudo, que suas inadimplências não sejam estendidas de modo generalizado aos longas-metragens baseados em games, pois produções como Mortal Kombat (1995), de Paul W. S. Anderson, e Terror em Silent Hill (2006), de Christophe Gans, já comprovaram que os jogos de computador e fliperama podem ser matéria-prima para ousados exercícios de gênero.  


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