Rua Augusta, 1029

A terceira vez é a melhor

por

31 de janeiro de 2020

Esta já é a terceira vez que assisto ao filme “Rua Augusta, 1029” de Mirrah Iañez, desde que fui apresentado no 29° Cine Ceará em 2019, e devo dizer que certos estranhamentos ou hesitações em mergulhar noa dispositivos do filme talvez tenham esperado esta terceira ocasião para me bater de jeito. Ainda mais na mesma semana em que debatemos os mesmos tópicos em consonância através de outro filme também aqui na 23° Mostra de Cinema de Tiradentes: o potente “Cadê Edson?” de Dacia Ibiapina. Ambos falam sobre o direito à moradia e revelam como o governo trata como criminosos aqueles que o Estado não consegue ou não se importa em abarcar.

Existe todo um contingente social que sofre com total falta de infraestrutura para o mínimo de condições dignas de sobrevivência…, tudo escamoteado pela máquina pública que só deseja o lucro e o crescimento e para quem a pobreza e a fome, por exemplo, não são problemas a serem solucionados e sim erradicados da face do mapa. Ou no mínimo, escondidos sob o tapete… A questão é que a moradia é um direito constitucional, previsto no art.5º XXIII CRFB, porém recai na negligência da administração pública que persegue e sufoca por asfixia todos os direitos mais básicos de quem não se encaixa no cruel padrão exigido desde as capitanias hereditárias.

Como disse no início, a estética de uma ocupação conforme se defende de uma atividade policial injusta e muitas vezes ilegal, sem mandado judicial, apenas para mostrar o poder coercitivo e punitivo da polícia, pode soar confuso ou disperso para quem vê de fora ou nunca passou por algo similar. Espaços vazios de prédios desocupados, sem função social, de repente ocupados por sem-teto, pessoas que trabalham, que circulam moeda no mercado, pois compram e vendem coisas como todo mundo. Estas pessoas se alimentam, produzem, trocam, agregam valores à sociedade ao redor. Aumentam a segurança de um lugar outrora esquecido e que poderia estar sendo ocupado pelo tráfico de drogas, ou como refúgio para a criminalidade… O senso comum até hoje se confunde e mistura a ocupação por moradia como reduto de crimes, e uma coisa não tem nada a ver com a outra. Isto é uma ignorância absurda perpetuada pela imprensa e pelos políticos…

E olha que existem vários filmes que debatem essa estética hoje em dia justamente para desconstruir o olhar opressor do Big Brother, da TV, dos jornais impressos, onde geralmente as imagens associadas a estas questões são negativas ou punitivas… Existem desde documentários como o curta “Conte Isso Àqueles que Dizem que Fomos Derrotados” de Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cris Araújo, Pedro Maia de Brito, ou mesmo a ficção inspirada em fatos reais “Era o Hotel Cambridge” de Eliane Caffé, e até mesmo o recente “Cadê Edson?”, o qual citei acima como a grande revelação desta 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, e que dialoga bastante com este “Rua Augusta, 1029”. Mesmo que este apresente ainda uma estética da precariedade que reflete a precariedade de direitos que aquelas pessoas passam, certa crueza do cinema direto se faz necessária para a imersão total que gere empatia em quem ainda não foi tocado.

Porém, se o espectador se colocar no meio daqueles corredores movimentados, mesmo diante da perspectiva de um corte de luz forçado pela polícia, sob a pressão de ataques e de violência das autoridades, e de temer pelas suas crianças e seus únicos pertences com que transita de moradia em moradia de forma nômade… aí talvez, talvez, o público possa entender o que é ter seus direitos tão cerceados que para sobreviver só reste firmar seu lugar e resistir — como na belíssima cena final em que todos se colocam na janela para mostrar para a polícia e para a imprensa lá fora que há muitas vidas ali dentro que não podem ser contidas nem negadas… Por isso mesmo, se até assim o espectador não se sensibilizar com os diálogos deste filme, em meio à tentativa de invasão policial contra pessoas inocentes, que só querem exercer função social em espaços outrora vazios, então talvez não baste nem sequer estar assistindo a este filme pela terceira vez… Pois com certeza não será nem a terceira, nem a quarta… nem a enésima tentativa destas pessoas em adquirir definitivamente um teto com dignidade sobre suas cabeças… e continuar tentando até conseguir.

download (4) download