SAG ao som do Queen

Prêmio do Sindicato dos Atores de Hollywood dá o devido reconhecimento à monumental atuação de Rami Malek em 'Bohemian Rhapsody', um fenômeno de bilheteria

por

12 de dezembro de 2018

Rami Malek concorre ao prêmio de melhor ator do SAG Awards 2019

Rami Malek concorre ao prêmio de melhor ator do SAG Awards 2019 como Freddie Mercury

Rodrigo Fonseca
Nada fala mais alto para os critérios estéticos de Hollywood do que um fenômeno comercial de proporções globais: daí a presença de “Bohemian Rhapsody” como um dos favoritos ao prêmio de melhor elenco do Screen Actors Guild, o SAG, o sindicato de atores dos EUA, numa categoria que espelha, em geral, quem ganha o Oscar de melhor filme. A lista, ligadas apenas a títulos de cinema, ficou assim:

INDICADOS AO SAG AWARDS 2019

MELHOR ELENCO
* Pantera Negra
* Podres de Ricos
* Infiltrado na Klan
* Nasce Uma Estrela
* Bohemian Rhapsody

MELHOR ATOR
* Christian Bale (Vice)
* Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
* Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
* Viggo Mortensen (Green Book – O Guia)
* John David Washington (Infiltrado na Klan)

MELHOR ATRIZ
* Glenn Close (A Esposa)
* Olivia Colman (A Favorita)
* Lady Gaga (Nasce Uma Estrela)
* Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)
* Emily Blunt (O Retorno de Mary Poppins)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
* Adam Driver (Infiltrado na Klan)
* Sam Elliott (Nasce Uma Estrela)
* Timothée Chalamet (Querido Menino)
* Mahershala Ali (Green Book – O Guia)
* Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
* Amy Adams (Vice)
* Emma Stone (A Favorita)
* Rachel Weisz (A Favorita)
* Margot Robbie (Duas Rainhas)
* Emily Blunt (Um Lugar Silencioso)

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS
* Pantera Negra
* Homem-Formiga e a Vespa
* Vingadores – Guerra Infinita
* A Balada de Buster Scruggs
* Missão Impossível – Efeito Fallout
É uma seleção respeitável, em especial pela entrada do drama biográfico ambientado na cena musical roqueira dos anos 1970 e 80, onde o Queen reinou. É bonito ver um longa-metragem tão massacrado, mas, ao mesmo tempo, tão amado, receber um tardio, mas bem-vindo reconhecimento, a reboque de suas cifras: 2.665.719 pagantes no Brasil, com uma renda estimada em R$ 47 milhões.

Orçado em US$ 52 milhões, “Bohemian Rhapsody” se pagou e deu lucro, regado a polêmicas: faturou US$ 596 milhões em cerca de um mês e meio. É um triunfo para o cinema musical e uma vitória para a estética de Bryan Singer, mesmo com todo o tumulto que cercou seu nome.  Trabalhando com o guitarrista Ry Cooder em “Paris, Texas” (1984), Wim Wenders, o diretor de joias como “Buena Vista Social Club” (1999), aprendeu uma lição que virou lema: “O rock’n’roll salva vidas, pois ele mostra o limite entre tédio e vazio existencial”. Poucos longas-metragens traduzem melhor esse ideal analgésico do rock do que “Bohemian Rhapsody”, um “filme de autor” com “A”, feito por um realizador sem qualquer laço com o existencialismo de Wenders, mas que, assim como o mestre alemão, enxerga a relação essencial da imagem com outros vertores da arte, como a canção pop. Bryan Singer é seu nome e você o conhece da franquia “X-Men”.

Mesmo tendo sido afastado dos sets desta releitura personalíssima dos feitos do grupo Queen, sob acusações, reclamações e gasturas com o astro Rami Malek, Singer deixou sua marca impressa a cada cena, desafiando os cânones da cartilha das cinebiografias para criar seu próprio Freddie Mercury… o Fredde Mercury de sua saudade… portanto, um Freddie vivíssimo e comovente de ver, que arranca o couro do ferramental gestual de Malek. Desde sua ascensão como cineasta, em 1995, com “Os Suspeitos”, Singer – um órfão criado em lar adotivo que cresceu assumindo a causa LGBT como bandeira – lançou-se nas telas como um cronista das artes de enganar, da mentira. “O melhor truque do Diabo foi fazer a Humanidade crer que ele não existe”, dizia Kevin Spacey em seu primeiro sucesso, deixando claro o apreço do cineasta por personagens que fingem ser o que não são, que mascaram a identidade à cata de zonas de conforto. Nada mais coerente do que filmar super-heróis vítimas de preconceito, atormentados pela inadequação, como seu incompreendido “Superman – O Retorno” (2006). Freddie Mercury – um rockstar gay nascido em Zanzibar, de família zoroastrista, apelidado de paquistanês de modo pejorativo – é o Wolverine desta imersão de Singer na cena roqueira dos anos 1970 e 80. Como o mutante da Marvel, Freddie foi um animal selvagem com o fator de cura da autoregenaração midiática que disfarçava sob uma voz de veludo e um bigode grosso a busca por sua própria essência, conciliando sua herança familiar de fé em Zoroastro com o ímpeto voraz do show business. Isso compensa qualquer deslize factual, sobretudo quando somado ao apuro técnico do fotógrafo Newton Thomas Sigel (de “Drive”) e a uma apoteótica sequência de quase dez minutos do show Live Aid: um marco de reconstituição.    Estima-se que “Bohemian Rhapsody” possa se tornar um dos fenômenos de bilheteria do ano – sobretudo se Rami Malek for indicado ao Oscar de Melhor Ator pelo papel de Freddie Mercury -, não apenas pelo apelo midiático do Queen, mas pelo fato de o projeto da Fox se enquadrar em um filão que, quando vitaminado por intrigas e peripécias sexuais (o que é o caso), rende milhões nas bilheterias: as cinebiografias. Quando Bryan Singer ainda estava de bem com sua equipe e elenco, filmando Malek bater o pé a cantar “We will rock you”, a Paramount deu sinal verde para “Rocketman”, narrando os feitos de sir Elton John, vivido por Taron Egerton (da franquia “Kingsman”), sob a direção do ator Dexter Fletcher. As excentricidades do intérprete de “Goodbye Yellow Brick Road”) servem com perfeição ao que o filão biográfico necessita. Há biografias baseadas nas mais variadas celeridades, como comprovam alguns sucessos hoje em cartaz no país – como é o caso de “O primeiro homem”, de Damien Chazelle, sobre a visita à Lua do astronauta Neil Armstrong -, ou produções em gestação, como o esperado “Vice”, no qual Christian Bale vive Dick Cheney, o homem forte de George W. Bush no Poder. Porém há uma linha ainda mais rentável e prolífica nesse campo: as cinebiografias musicais, que lotam salas de exibição seja como documentário, seja como ficção.

Este ano no Festival de Cannes, poucas ficções despertaram mais atenção da imprensa do que “Whitney”, no qual o cineasta escocês Kevin Macdonald documenta os conflitos pessoais e os anos de sucesso da cantora Whitney Houston (1963-2012). A única reconstituição de feitos de músicos polêmicos que sacudiu mais a Croisette este ano foi “Leto” (“Verão”), produção russa em preto & branco sobre o lendário compositor Viktor Tsoi, uma espécie de Renato Russo da URSS, que era adorado em Lenigrado de uma forma quase religiosa, por um nicho roqueiro no fim do império soviético. Com a inclusão de vinhetas animadas, a produção revive, em tom de videoclipe, canções de sucesso de Lou Reed, Iggy Pop e Talking Heads.   Mas nenhum desses filmes, até agora, comove mais do que “Bohemian Rhapsody”.