Sakurá

A direção de arte do espetáculo é de impressionante, e rara beleza, no cenário nacional

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13 de outubro de 2017

Sakurá, escrito e dirigido por Gabriel Naegele, foi o espetáculo de encerramento da Mostra Nacional do 10o FENATIFS. Apresentando no dia 10 às 14h30min., no teatro mais importante de Feira de Santana, o Centro Cultural Amélio Amorim. Concebido pelo núcleo de trabalho em ascenção, a Cia Crias da Casa-RJ, que é atualmente uma das mais aclamadas, observadas e atuantes de nosso estado; principalmente após o seu espetáculo de grande sucesso As Três Marias. A trama de Sakurá, se passa em um pequeno vilarejo no Japão. É março e as últimas folhas das cerejeiras já são levadas pelo vento. Todos se preparam para os festejos do Hanami, que nada mais é do que contemplar o florescer das cerejeiras, o desabrochar do Sakurá. In é um jovem que anseia se tornar um grande Samurai, mas para isso terá que cumprir sua grande missão e enfrentar seu maior inimigo. Yo é uma jovem que desde muito pequena foi prometida para ser apresentada durante os festejos do Hanami. No entanto, ela não deseja seguir a tradição imposta. Dois destinos cheios de desafios se cumprirão quando cair a última flor de cerejeira, o último Sakurá. A dramaturgia e o conceito do espetáculo de Naegele se basearam justamente no processo revelador da simbologia do Sakurá, que representa o florescer das cerejeiras no início da estação da primavera japonesa. Um evento mundialmente famoso, que é cercado de diversas lendas e mitos. Como por exemplo o mito da princesa, que conta a memória popular que ela desceu dos céus e aterrissou em uma cerejeira. Acredita-se assim que o nome sakura, seria então derivado do nome da princesa Konohana Sakuya Hime, que significa “a princesa das árvores das flores abertas”. Outros dizem que o nome da planta tem sua origem no cultivo de arroz e sua divindade (Sa). A segunda parte do nome, kura, faria referência à sua morada.

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A direção de arte do espetáculo, atribuída a Leo Thurler (visagismo e figurino) e Gabriel Naegele (cenários), é de impressionante e rara beleza no cenário nacional. Foto Ton Carvalho e Renato Mangolin.

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A atriz que interpreta Yo apresenta um bom desempenho e preparo corporal. Foto Ton Carvalho e Renato Mangolin.

Além de dizerem também que quando a mulher está em busca de um amor ela coloca um galho de sakurá na cabeça ou enfeita o seu quintal com flores; ou quando um galho se quebra pode significar a aproximação da morte. Acredita-se o que sakurá é a ligação entre o mundo dos vivos e dos mortos; e que a alma dos mortos é absorvida pelas árvores das cerejeiras. Com este vasto material, e inteligência cênica, Naegele construiu um narrativa diferenciada, estranha ao universo ocidental, com tempos rítmicos mais lentos, e que dá conta de um rito de passagem, de transformação e transição de vidas e mundos. Pondo em cena o confronto dos contrários, do próprio eu, da busca interna, dos seus tormentos, junto com a quebra das tradições justamente por uma mulher, um livre arbítrio entre o casal principal; que não busca um enredo pueril, ou de lógica fácil, como uma história amorosa; mas sim uma história de um guerreiro e uma guerreira que nos é apresentada em seu processo essencial de desabrochar e de posicionamento perante ao mundo. Para contar esta história Naegele tomou uma opção muito clara e bem definida. Ele sabia que iria lidar com o diferente e que esse seria o seu grande desafio. O desafio de toda a Cia Crias da Casa. Ao invés de trabalhar com todos os facilitadores, ele escolheu todos os dificultares. Uma proposta ousada que exige um plano de vôo muito bem estruturado, para que se possa cumprir todas as partituras físicas e emocionais, com exatidão e precisão. Para isso se cercaram de um engenhoso e criativo cenário móvel e bem articulado do próprio Naegele, e de um minucioso visagismo de Leo Thurler – uma das grandes cabeças da Cia -, que não economizou na busca de um universo bem desenhado, bem executado, e que dialoga muito bem em todas as áreas técnicas. É um presente para os olhos poder ver tanta beleza e cuidado com os figurinos, cenários, maquiagem, adereços; que são iluminados por Ricardo Lyra Jr em uma opção em explorar os contra-luzes nas paletas de cores que nos identifica ao japão: o vermelho e o lilás/violeta/roxo das cerejeiras. Esse banho proporciona momentos de pintura ao espetáculo, mas no decorrer da peça, trabalha com poucos refletores nobres, e de luzes mais filigranadas, e revelando mais os espaços e perdendo um pouco a aura de mistério e solenidade da saga. A direção musical original de Aline Peixoto e Denise Peixoto é muito delicada e bem executada pelos atores. Assim como a preciosa contribuição em bonecos de Marcio Nascimento e Nini Beltrame, que imprime uma boa manipulação; e todos os trabalhos de corpo: a direção de movimento e preparação corporal de Maria Vidal, e a consultoria circense de Cristina Moura, e de artes marciais de Ronaldo Damazio. Desta maneira, o grande desafio do projeto é todas estas engrenagens funcionarem juntas, e os atores conseguirem executar, junto com a equipe, uma interpretação plena, onde a técnica não sobrepuje a emoção. Que haja um equilíbrio entre as duas. É um espetáculo que precisa ser feito sempre com toda a atenção e concentração, onde o prazer de executar, seja o prazer de se divertir, brincar e jogar. O maior mérito da atuação de todo o elenco – Aline Gomes/Aline Peixoto, Denise Peixoto, Gabriel Naegele, Felipe Gouvea/Leo Thurler e Maria Vidal-  está justamente na força do conjunto em toda a sua homogeneidade.

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O espetáculo “Sakurá” foi um dos destaques do 10o FENATIFS, por sua boa apresentação. Foto Ton Carvalho e Renato Mangolin.

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O cenário de Gabriel Naegele é bastante criativo e funcional. Foto Ton Carvalho e Renato Mangolin.

Sakurá é um espetáculo que merece ser visto com todo o apuro e atenção, seja pelos seus méritos, e também pelo bonito trabalho de equipe da ótima Cia Crias da Casa. Um exemplo de amor e profissionalismo ao teatro!

Ficha Técnica

Elenco: Aline Peixoto/Aline Gomes, Denise Peixoto, Gabriel Naegele, Leo Thurler/Felipe Gouvea e Maria Vidal

Texto, cenário e Direção Geral: Gabriel Naegele

Assistente de Direção: Ricardo Lyra Jr e Thais Alves

Iluminação: Ricardo Lyra Jr

Direção Artística: Gabriel Naegele e Maria Vidal

Direção Musical: Aline Peixoto e Denise Peixoto

Direção de movimento e preparação corporal: Maria Vidal

Preparação vocal: Jorge Maya

Diretora de palco: Roberta Thurler

Figurinos e visagismo: Leo Thurler

Adereços: Leo Thurler e Gabriel Naegele

Músicas: Aline Peixoto e Denise Peixoto

Trilha sonora: Aline Peixoto, Denise Peixoto e Yuichi Inumaru

Consultoria de bonecos: Márcio Nascimento e Nini Beltrani

Consultoria circense: Cristina Moura

Consultoria de artes marciais: Ronaldo Damazio

Fotografia: Ton Carvalho e Renato Mangolin

Programação visual: Guilherme Kato

Consultoria de produção: CultConsult

Direção de Produção e realização: Cia Crias da Casa

Assessoria de imprensa: Julie Duarte

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 4