SamBRA, o musical- 100 anos de samba

Gustavo Gasparani consegue fazer de um musical sob encomenda um ótimo e delicado trabalho sobre a história do samba no Brasil

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24 de agosto de 2016

“SamBRA” que já teve duas temporadas na cidade do Rio de Janeiro, retornou ao cartaz até o dia 27 de agosto na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, aproveitando o gancho das Olímpiadas Rio 2016, patrocinado também pelo Bradesco. Com texto e direção de Gustavo Gasparani, este espetáculo apresenta algumas peculiaridades, que nos causa alguns ligeiros incômodos, a princípio, pelo o fato de ser um espetáculo feito por encomenda – a partir de uma ideia de Washington Olivetto -, e pegando uma imensa carona no sucesso de “Samba Futebol Clube” – do mesmo Gasparani -,  que imprime na encenação grande parte de sua pesquisa na montagem do sucesso anterior, e também por termos uma referência clara no título da peça – como em um naming marketing – ao nome do patrocinador: o Banco Bradesco. Daí a junção dos dois nomes e da pronúncia, que ganha um acento agudo no último “a” (SamBRÁ). De antemão, confesso que fiquei bastante receoso com estes fatos, em ver, com isso, um espetáculo para gringos e com um tratamento superficial de um dos nossos mais importantes patrimônios musicais e imateriais: o samba.  Felizmente, dito isso, o que vemos em cena é um espetáculo com a grife de Gasparani, que apesar de repetir muitos dos conceitos de “Samba Futebol Clube”, consegue realizar um ótimo espetáculo. De altíssimo bom gosto, refinamento, beleza, riqueza visual, e aproveitando para quebrar todos os paradigmas de que não se é possível fazer um espetáculo “aparentemente por encomenda comercial” com alta qualidade técnica e artística. Mostrando que nem sempre o fato de se ter verbas há um tolhimento na criatividade, e uma falta de fidelidade à arte genuína. Com um roteiro absolutamente consistente, rico em detalhes, curiosidades, e raízes do samba, ficamos hipnotizados com esta história que nos enriquece de orgulho de sermos cariocas, de sermos o berço do samba, de termos em nossa cidade o melhor espetáculo do mundo: o carnaval. A grande ópera do povo, feita pelo povo e que consagra o povo. O texto passeia por Ernesto dos Santos (o Donga) -, e o primeiro samba: “Pelo telefone” feito por ele e por Mauro de Almeida – mas que não recebe o crédito no primeiro momento, o que desencadeia uma série de situações sobre a forma como a autoria dos sambas eram dadas -, pela Tia Ciata, por um mágico encontro entre Martinho da Vila com Noel Rosa, tendo um Ismael Silva em espírito, passando pelas Polacas no reduto judeu, por Sinhô, Mário Reis, por Aracy Cortes, pelos moleques do samba, por Ary Barroso e o samba de exaltação, Linda Batista, Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, Margarida Max, Cartola, Pixinguinha, Silas de Oliveria, Mano Décio da Viola, João da Baiana, Tom, Vinicíus,  João Gilberto, João Nogueira, Clara Nunes, Beth Carvalho com fundo de quintal e Cacique de Ramos, Chico Buarque, Roda Viva, Paulinho da Viola, entre muitos outros. Um verdadeiro e rico passeio pelo samba, morros, a boemia, a malandragem carioca, o teatro de revista, o samba politizado e o subúrbio do Rio.

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Gustavo Gasparani, autor, diretor e ator, está soberano em “SamBRA”. Foto Carolina Moura.

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Diogo Nogueira está de volta ao seu posto em “SamBRA”, nesta nova temporada olímpica na Cidade das Artes.

A direção de Gasparani é de extrema delicadeza e muita sensibilidade, e que soube extrair muita teatralidade de cada um dos ótimos cenários de Hélio Eichbauer e das excelentes, e variadíssimas,  coreografias de Renato Vieira. A disposição dos lampiões pendurados, dos atabaques, cordas, do uso arrepiante das grandes, e imponentes cortinas francesas douradas – valorizadíssimas pela linda luz de Paulo César Medeiros -, das projeções com figuras em movimentos e em justaposições de Thiago Stauffer, do uso de câmara lenta em algumas cenas, em algumas transições; como na bela cena da passista da Portela que entra com o seu esplendor na mão e se veste em cena, em movimentos antagônicos de lentidão e giro rápido. Gasparani criou marcas de se tirar o fôlego e nos fazer suspirar, como o encontro de Noel Rosa com Martinho da Vila, de um Ismael fantasma, do reduto judeu, do culto, da invenção do “jaba”, de frases como: “samba é que nem passarinho está no ar para quem pegar…”, das vendas de sambas, de lindas cenas congeladas, da bela transição de luzes – em marcha lenta – dos cantores do rádio. Sem falar na excelente direção musical de Nando Duarte. Absolutamente impecável! Tudo isso nos fez esquecer as premissas inicias que fizeram nascer esta produção da Musickeria e da Aventura Entretenimento. A parceria de Gasparani com os ótimos Renato Vieira, Hélio Eichbauer, Nando Duarte, Maurício Detoni e Paulo Cesar Medeiros é altamente preciosa e frutífera. Além do refinadíssimo figurino de Marília Carneiro e da perfeita videografia de Thiago Stauffer e do apuradíssimo design de som de Carlos Esteves. Todos estão bastante entrosados e descobrindo juntos uma grande harmonia e fluência cênica-musical. Uma jóia.

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Ana Velloso tem a melhor atuação de sua carreira em “SamBRA”. Cantando como nunca e com uma bela figura em cena.

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Bruno Quixotte tem desempenho excelente em “SamBRA”. Cheio de malandragem, picardia, e um ótimo trabalho de corpo.

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Patricia Costa, além de uma presença magnética, tem uma bela atuação como passista da Portela.

No elenco de “SamBRA”, Gasparani conseguiu extrair excelentes interpretações. No naipe masculino Gustavo Gasparani está soberano, em casa literalmente, pois não poderia estar em melhor cia: o teatro e samba. Seus dois berços. Bruno Quixotte como malandro é impagável e tem uma atuação excelente e vigorosa. Um grande trabalho. Édio Nunes tem uma das suas melhores atuações na carreira. Há muito que eu não o via tão inteiro, renovado, com brilho nos olhos e extraindo algo de novo em sua rica trajetória. Wladimir Pinheiro encanta com a sua bonita voz e qualidade de músico. Alan Rocha, Charles Fernandes, Cristiano Gualda, Pablo Dutra e Paulo Mazzoni completam bem o elenco masculino. No naipe feminino Ana Velloso tem a melhor interpretação de sua carreira, com força, precisão e entusiasmo como Carmen Miranda, cantando como nunca e com uma figura belíssima, principalmente na persona de Margarida Max.  Lilian Valeska mantêm a sua excelência de cantora e com ótimos momentos como Tia Ciata. Patricia Costa, além de muito carismática como boneca de piche, é dona de um corpo escultural, canta muito bem e tem uma das cenas mais lindas de toda a peça: o seu depoimento como neta de um grande portelense. Uma cena esplêndida e delicadíssima. Cátia Cabral, Patrícia Ferrer, Shirlene Paixão e Simone Debett completam bem o elenco feminino. Sem deixarmos de destacar também os excelentes músicos: Nando Duarte (Regente/Violonista), Alexandre Caldi  (Sax/Flauta), André Vercelino (Percussão), Zé Luiz Maia (Baixo), Fabiano Segalote (Trombone), Gustavo Salgado (Piano), João Callado (Cavaco), José Arimatea (Trompete), Nailson Simões (Bateria e Percussão) e Rodrigo Jesus (Percussão).

“SamBRA” é uma verdadeira aula sobre o samba, que muito nos orgulha e nos enaltece como cariocas da gema.

Serviço:

Data:
11 de agosto

Local:
Cidade das Artes (Av. das Américas, 5300, Barra da Tijuca)

Horário:
21h

Classificação:
Livre

Datas e horários:

17/agosto (quarta-feira), às 21h
18/agosto (quinta-feira), às 21h
20/agosto (sábado), às 17h e 21h
24/agosto (quarta-feira), às 21h
25/agosto (quinta-feira), às 21h
27/agosto (sábado), às 17h e 21h

Ingressos:

Plateia / Frisas / Camarotes (inteira) – R$ 70,00
Galeria (inteira) – R$ 40,00

* Bilheteria: Cidade das Artes (Av. das Américas, 5300, Barra da Tijuca), de terça a domingo, das 13h às 19h. Em dias de apresentações, das 13h até 30 minutos após o início do espetáculo.

Telefones:

Bilheteria – 21. 3328-5300
Informações e compras – 21. 4003-1212
Atendimento pós-venda – 21. 4003-2051

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 4