Sancho Pança – O Fiel Escudeiro

O maior mérito do espetáculo consiste na escolha da história ser contada pelo excluído serviçal de Dom Quixote

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05 de outubro de 2017

O espetáculo Sancho Pança – O Fiel Escudeiro – uma realização da potiguar Tropa Trupe, apresentado no 10o FENATIFS, nesta terça-feira, dia 04.10, às 09h30min. no Centro Cultural Amélio Amorim em Feira de Santana -,  já nos chama a atenção, a começar pelo seu título. Escolhendo retratar a sua dramaturgia a partir do ponto de vista do serviçal de um dos maiores personagens da história mundial, escrita por Miguel de Cervantes: Dom Quixote de la Mancha. Nos deixando assim, bem claras as referências que eles pretendem abordar na encenação. Dar voz aos excluídos, dos excluídos, aos sonhadores e aos lutadores de um país dilacerado como está hoje o nosso Brasil. Através de figuras, imagens e cenas estanques; que são fechadas em si, nos deparamos diante de todos os elementos que compõem as cenas. A realização se faz pela criatividade e pelos jogos propostos na mesma. Onde temos o operador de som/sonoplasta, e ao mesmo tempo encarregado dos efeitos visuais e da interpretação da personagem do enfermeiro, realizando suas funções “descortinadamente”. A concepção aparente, evoca um manicômio, concebido com uma sensível composição de materiais e elementos que nos remete a biombos de alas coletivas hospitalares, com cuidado nas cores claras, nos ferros brancos e nos laços que prendem os tecidos. Uma surpresa muito boa. Neste universo, o palhaço Piruá interpreta um ser fora dos padrões da sociedade, explorando a demência e a esfera lunática deste servo do cavaleiro andante Dom Quixote.

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O palhaço Piruá na pele de Sancho Pancha, dentro do delicado cenário do manicômio.

SANCHO PANÇA O FIEL ESCUDEIRO - TROPA TRUPE - 10º FENATIFS - 2017 (M.N)

O palhaço Piruá na pele de Sancho Pancha, em cena do espetáculo.

Assim, internado em um manicômio por jurar ser o fiel escudeiro de Dom Quixote, o palhaço Piruá se coloca na pele, e alma, de Sancho Pança a procura de um reencontro com o valente cavaleiro de La Mancha. Porque os heróis de hoje estão atrasados com as causas que defendem, voltam os heróis de sempre. Voltam Sancho Pança e Dom Quixote, sim, nessa ordem. Desta maneira, com a liberdade poética que toda a obra permite, a direção opta pela apresentação de diversas situações em que aparecem heróis e vilões de hoje e do passado, como o mosqueteiro Porthos, o megavilão de Star Wars: Darth Vader, nascido Anakin Skywalker; até chegar ao Rei Roberto Carlos, e suas letras e canções. Passando por situações de heroísmos, de descobertas e da busca incessante na valorização da amizade; e nos presenteando com momentos muito propícios e sutis de carga política, com doses muito bem servidas. Apesar da encenação mais tímida – em timming e controle cênico – , em um espaço menos adequado – o teatro fechado -, conseguimos enxergar vários méritos na construção do projeto; que deve encontrar mais ressonância em espaços ao ar livre, nas ruas; e principalmente “cara a cara” com o povo. Destaques especiais para a história das ovelhas, representadas por bolas brancas e pretas; e as palavras de ordem: “Bota creme!”, “Bota creme!”, que nos associa, com imensa propriedade, a palavras de ordem bradadas por todo o Brasil ao contestar veementemente um certo presidente ilegítimo, que chegou ao poder através de um golpe bem engendrado.

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O palhaço Piruá na pele de Sancho Pancha, em cena do espetáculo, onde ele interpreta o mosqueteiro Porthos. Foto Ety & Jô.

Sancho Pança – O Fiel Escudeiro é um grito aventuresco as injustiças do mundo, e principalmente, aos tempos sombrios de caças às bruxas aos nossos artistas: os sonhadores, os lunáticos, os cavaleiros andantes da arte nacional.

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O espetáculo utiliza também a participação do público em cenas da peça. Na foto vemos uma convidada interpretando Dulcinéa. Foto Ety & Jô.


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