Sangre

Espetáculo justifica, e dignifica, com criatividade a abertura e permanência do Teatro Armando Costa na Escola de Teatro Martins Pena

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04 de setembro de 2015

Em primeiro lugar, é com imensa satisfação que eu escrevo esta crítica, para lá de especial. Pela primeira vez em minha vida, eu pisei na minha Escola de Teatro Martins Pena, na função de crítico teatral. Aos 16 anos de idade, a ETMP entrou na minha vida, como um dos maiores feitos que eu jamais poderia imaginar ser possível de alcançar. Comecei a minha carreira aos 14 anos de idade, com uma história que beira aos “contos de fadas”. Vendo uma entrevista de Marília Gabriela na TV, com a atriz Aracy Cardoso – no extinto programa TV Mulher -, onde Cardoso comentou sobre o Curso de Teatro Jayme Barcelos (importante ator da época), o  qual ela ministrava aulas, e por onde havia passado a atriz Glória Pires. Já aflorando em mim a intenção de me expressar pela arte, enviei uma carta à Rede Globo e recebi um convite para fazer o curso. O mais interessante disso tudo é que eu já vislumbrava intuitivamente uma carreira teatral, pois ao invés de eu me espelhar na TV para fazer o teste, eu, que sempre fui um espectador ativo de teatro – sendo apoiado pela minha mãe e meu pai -, busquei, na maior cara de pau, que uma atriz de teatro (Marta Pietro) me ensaiasse no palco do Teatro Mesbla, onde ela realizava a temporada da peça “Mãos ao alto Rio” ao lado de meu querido e saudoso Paulo Goulart. Daí para ganhar uma bolsa, ser premiado como melhor ator da montagem do curso, e descobrir em seguida que para ser um verdadeiro ator de teatro, e trilhar com sucesso nesta carreira, o meu maior objetivo seria entrar na Escola de Teatro mais famosa, e mais exigente do Brasil: a ETMP; foi um salto milimetricamente estudado. Tive a grande felicidade de ser parte de uma bonita história desta querida Escola. Vivendo grandes reformas, grandes momentos, transformações, e acabando por ter a felicidade de ver o progresso dela com a construção do “Teatro Novo”, assim como era chamado por nós o atual Teatro Armando Costa, e a inauguração com a nossa montagem de “Café” de Mário de Andrade.

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Bibiana Ventura tem atuação destacada, em suas duas personagens de “Sangre”

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Chris Igreja tem ótima atuação como a Menina. Delicada e muito verdadeira.

Dito isto, foi com grande emoção e uma carga grande de sentimentos, que eu assisti ao espetáculo Sangre” dirigido por Carmen Frenzel e interpretado por alunos formandos da ETMP. Entrar na sala de espetáculos onde eu também me formei, me deu um estranhamento, e contentamento, muito fortes. Forte pelo fato de conhecer cada cantinho daquele espaço, de relembrar processos, meus primeiros professores de teatro na vida (os saudosos José Wilker,  Alcione Araújo, Luiz Mendonça, Sergio Sanz, Tania Brandão, Renato Icarahy, Luis Fernando Lobo, Rose Gonçalves, Hermes Frederico), exercícios, cenas e a minha peça de formatura realizada lá! Lembrar que era um sonho nosso criar, naquele período, uma Cia de lá, e fazer do “Teatro Novo” uma sala de espetáculos aberta ao público! Sonho realizado pelos atores de “Sangre”, quase 33 anos depois…ufa!!! Que lindo demais tudo isso!!!

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Jefferson Santos tem expressiva máscara facial em “Sangre”

A encenação de Frenzel para “Sangre” no Teatro Armando Costa soube explorar muito bem o espaço intimista, multiconfiguracional e de caixinha preta da adorável sala de espetáculos. Tirando proveito de planos baixos, médios e altos, e optando pela feliz ideia de nos colocar dentro da cena, em uma espécie de observadores privilegiados e cúmplices daquela gama variada de situações bisonhas, de alta voltagem, tensão, e de esfacelamentos da alma humana, escritas por Daniel de Jesus e Fabrício Branco – com supervisão de Fabiano de Freitas. Crueldade, perplexidade, dilaceramento da família, do sacro e do profano, da ciência e do amor. Situações potencializadas pelo tom vermelho sangue dos povos latinos-americanos, com inspiração em Almodóvar, no melodrama das novelas mexicanas, e com uma atmosfera e assuntos pertinentes também a um grande observador da família brasileira: Nelson Rodrigues. Opressão, fé, fanatismo, amores não resolvidos, amores interrompidos, amoralismos de condutas, questões de gêneros, são bons ingredientes de uma trama rocambolesca dirigida com pulso firme, precisão e olhar muito apurado de Frenzel.

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Celo Miguez aposta na feminilidade para construir a sua Maripili

O cenário de Aldecir Azevedo, com pegadas de grafitismo, está bem articulado com a trama, cobrindo paredes e todos os objetos com desenhos em cores fortes, com imagens pertinentes ao universo, e desenhadas como se fossem rastros de sangue, enquanto os figurinos de Daniele Gemmal, ainda que bem interessantes em alguns modelos, acaba denunciando em algumas peças o reaproveitamento de roupas previamente prontas, que acabam por prejudicar um pouco o rendimento do elenco, devido ao seu caimento. É muito importante para o ator estar completamente a vontade com o seu material de trabalho diário, entre eles, o seu figurino. A iluminação de Renato Machado tem o mérito de buscar um bom rendimento dos poucos refletores necessários para iluminar o grande espaço em sua totalidade, ainda mais que a plateia também está em pleno alvo das luzes, recheadas de cores, que neste caso se adequam muito bem ao tema caliente da trama. Onde os atores acabam por aproveitar o melhor brilho da luz, em uma construção esperta de Machado para focos individuais, e em outras partes da cena, pegando a luz rebatida da concentração do centro da encenação. As canções de Charles Khan estão bem encorpadas à trama, e a preparação vocal de Mônica Karl e  João Lops também é bastante competente em colocar os atores cantando com boas afinações e boas potências vocais. O elenco feminino se sai melhor do que o elenco masculino, ainda mais quando o mesmo é confrontado a um tom mais naturalista de interpretação. Quando ambos estão em um registro mais exagerado, e melodramático, o equilíbrio se dá através das máscaras mais expressivas que ajudam a construir tipos mais desenhados e de fácil assimilação ao universo de personagens mais esteriotipados da dramaturgia espanhola e latino-americana. No naipe feminino destaque para as ótimas composições, e para os ótimos trabalhos das atrizes: Chris Igreja (Menina) e Bibiana Ventura (Lola e Ana), ambas realizam um bonito trabalho de interpretação, muito coesas no corpo, voz e na atuação. No elenco masculino os destaques são Grassi Santana (Padre Inácio), com uma carga grande de teatralidade e ótimo timbre vocal e Jefferson Santos (Maribel e Padre Victor) com um bom trabalho de corpo, camadas do grotesco e expressividade facial.

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Outro momento de Bibiana Ventura como Ana e Max Oliveira como Vicente

“Sangre” é um espetáculo de bom nível, que dignifica e atesta a capacidade da ETMP de abrir este belo espaço para temporadas regulares. Quanto orgulho e quanta alegria de pisar em minha escola querida, e ver novos profissionais promissores surgirem. Parabéns à toda equipe!

 

FICHA TÉCNICA

Direção: Carmen Frenzel

Elenco:

Bibiana Ventura

Carolina Paluma

Celo Miguez

Chris Igreja

Edu Lopes

Grassi Santana

Jasmim Campello

Jefferson Santos

José Vinicius Sampaio

Max Oliveira

Nathalia Araujo

Paulo Duarte

Tony Felix

Dramaturgia: Daniel de Jesus e Fabrício Branco

Supervisão dramatúrgica: Fabiano de Freitas

Direção musical: Charles Kahn

Preparação em canto: Cyrano Moreno Sales

Preparação corporal: Morena Paiva

Preparação vocal: Mônica Karl e  João Lops

Cenário: Aldecir Azevedo

Figurino: Daniele Geammal

Visagismo: Rogério Garcia

Iluminação: Renato Machado

Treinamento de Linguagens Contemporâneas: Cris Muñoz

Orientação de Produção: Heitor Collet

 

SERVIÇO

ENTRADA FRANCA (senhas com 1 hora de antecedência)

TEMPORADA

Dias 30/07, 31/07, 01/08 às 21h e dia 02/08 às 20:00 horas

06/08, 07/08 e 08/08 às 21:00 horas

15/08 a 27/09; sábados às 21:00 horas e domingos às 20:00 horas.

Classificação indicativa: 16 anos

Teatro Armando Costa – Escola de Teatro Martins Pena

Rua Vinte de Abril, 14, Centro, Rio de Janeiro – RJ


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