Saudades de Humberto Mauro em Veneza

Documentário de André Di Mauro leva ao festival italiano, que termina neste sábado, imagens raras do pioneiro da brasilidade em nossas telas

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06 de setembro de 2018

Documentário sobre a obra do cineasta Humberto Mauro, que colocou MG nas telas, integra mostra de Veneza sobre clássicos das telas

Documentário sobre a obra do cineasta Humberto Mauro, que colocou MG nas telas do mundo, integra mostra do 75. Festival de Veneza sobre clássicos das telas

Rodrigo Fonseca
Com “ROMA”, de Alfonso Cuarón, ainda firme e forte como seu favorito ao Leão de Ouro, o 75º Festival de Veneza chega ao fim neste sábado, com sua entrega de prêmios, que deve reservar surpresas ainda para outros concorrentes bastante elogiados de sua mostra oficial – e para os filmes brasileiros. Tivemos três representantes do Brasil, dos quais dois entraram em vitrines competitivas, tendo fortes chances de vitória: “Domingo”, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, na seção Venice Days, e “Deslembro”, de Flavia Castro, na seleção Horizontes. O terceiro título entrou num espaço hors-concours – a mostra Classici Documentari -, mas foi muito bem aceito pelos espectadores, conquistando calorosas manifestações de afeto: o .doc “Humberto Mauro”, de André Di Mauro. Seu personagem central: o pai da identidade nacional em nossa filmografia.

A partir de 1925, quando rodou “Valadião, o Cratera”, o mineiro de Volta Grande Humberto Duarte Mauro (1897-1983) iniciou uma discreta (porém, indelével) revolução no cinema feito em solo nacional, que duraria até 1974, quando finalizou sua obra, com “Carro de bois”. Foi com ele, em filmes como “Ganga Bruta” (1931) e “Braza dormida” (1928), que a produção audiovisual feita em nossas terras assumiu a brasilidade como um objeto, como bandeira, como poética. Não por acaso, toda a geração do Cinema Novo (com Glauber Rocha, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade…) via nele um farol. Por isso, a projeção do longa documental “Humberto Mauro”, ontem, na última quarta, em Veneza, teve um simbolismo político singular na afirmação da memória da filmografia do Brasil em solo estrangeiro.

O cineasta André Di Mauro na Itália

O cineasta André Di Mauro na Itália: vitrine de luxo para a estreia do .doc 

Sobrinho-neto do Humberto, André Di Mauro conseguiu imagens raras do cineasta (e de nossa História), que levou para as telas da Itália. Ele se orgulha de levar o filme aos europeus 80 anos depois de um marco histórico: em 1938, ele passou pelo Festival de Veneza, então em sua sexta edição, com “O descobrimento do Brasil” e os curtas “Vitória-Régia” e “Os céus do Brasil”.

“A participação do filme ‘Humberto Mauro’ no Festival de Cinema de Veneza pode ser comparada, digamos de uma forma metafórica, a uma chave que abre portas importantíssimas para o resto do mundo. Já estamos recebendo convites para inscrever o filme em outros festivais e contatos preciosos para exibir o longa em outros países. É um grande privilegio e uma confirmação de que toda a luta para produzir o filme valeu a pena. Preservar a memória de Humberto Mauro significa mostrar para o mundo não só a história desse pioneiro, mas também a própria história do cinema brasileiro. Significa a realização de um sonho e, de certa forma, a sensação de missão cumprida”.

No dia 22 de setembro, “Humberto Mauro” terá sua primeira projeção pública no Brasil, no Festival de Cinema de Brasília. “A partir daí, seguimos para o lançamento do filme em circuito, possivelmente no próximo ano. Também temos em nossos planos fazer a Mostra Humberto Mauro – Cinema é Cachoeira, na qual exibiremos o .doc e outros filmes dirigidos por ele”, diz André. “Esse evento será acompanhado por uma exposição multimídia e por oficinas de realização cinematográfica. A ideia é começar por Minas Gerais e seguir pelo Brasil”.

De volta ao Leão de Ouro e às demais honrarias de Veneza, nem só de “ROMA” viverá a premiação. Também do México, “Nuestro tiempo”, de Carlos Reygadas, é um potencial ímã de vitórias. Foi um dos longas mais bem avaliados pela crítica, em toda a competição. Sua trama narra a crise de um casal, interpretado pelo próprio cineasta e sua mulher na vida real. Estima-se que sobrará um ou outro troféu para o faroeste “The Sisters Brothers”, do francês Jacques Audiard (para o ator John C. Reilly); o terror “Suspiria”, do italiano Luca Guadagnino (para a atriz Tilda Swinton); o drama “Sunset”, do húngaro László Nemes (cotadíssimo para o Leão de Prata Especial do Júri); o (anti)épico “Peterloo”, do inglês Mike Leigh (talvez uma láurea de direção); e o thriller “Never look away”, do alemão Florian Heckel von Donnersmarck (favorito na categoria de Melhor Roteiro).