Se eu fosse Sylvia P.

Encenação que mistura vida real que vira ficção, com ficção de vida real, com vidas reias que viram ficções em cena

por

08 de fevereiro de 2017

Como é frágil o coração humano –
espelhado poço de pensamentos.
Tão profundo e trêmulo instrumento
de vidro, que canta
ou chora. Sylvia Plath

 

1_Alessandra Gelio_Léo Rosa_Léo Rosa_Crédito Priscila Villas Bôas

Alessandra Gelio e Léo Rosa em cena de “Se eu fosse Sylvia P.”. Foto de Priscila Villas Bôas.

A peça “Se eu fosse Sylvia P.”, encenada no Teatro Cândido Mendes, é um projeto surpreendente em diversos aspectos, a começar pela boa premissa que funde a vida da poetisa americana Sylvia Plath, com depoimentos e vivências pessoais dos atores. Sylvia Plarh foi uma poetisa, romancista e contista norte-americana, nascida em Massachusetts em 1932 e falecida em Primrose Hill, Londres, 11 de fevereiro de 1963. Reconhecida principalmente por sua obra poética, Sylvia Plath escreveu também um romance semi-autobiográfico, “A Redoma de Vidro” (título no Brasil) sob o pseudônimo Victoria Lucas, onde conta com detalhes a sua luta contra a depressão. A morte do pai de Plath, quando ela tinha oito anos deixou-a, nas palavras do poema “The Colossus” (“O Colosso”), casada com a sombra. Ao cometer suicídio aos 30 anos, em 11 de fevereiro de 1963, Plath deixou viúvo Ted Hughes, o marido que a abandonara. Muitos culparam Hughes, futuro poeta laureado da Inglaterra, pela morte da esposa. À época, ele estava tendo um caso com uma amiga em comum que acabou ela própria cometendo suicídio. “Toda mulher adora um Fascista”, escreveu Plath em um de seus mais famosos poemas. “A bota na cara, o bruto / bruto coração de um bruto feito você”. Para seus acusadores, Hughes era um bruto que beijava meninas e as fazia morrer. Mas o sucídio de Plath provavelmente tem raízes bem mais profundas. Em sua conturbada vida consta que que ela já tinha tentado cortar a própria garganta quando tinha dez anos.  A ideia de que Sylvia foi traumatizada muito jovem pela morte do pai não surpreenderá aqueles que leram biografias anteriores ou os próprios poemas. Ela na verdade idolatrava o pai quando era pequena, e a coisa mais brutal que Otto – seu pais – fez aos olhos de Sylvia foi abandoná-la morrendo cedo. “Daddy” apresenta sua primeira famosa tentativa de suicídio — aquela descrita em seu romance “A Redoma de Vidro” — como um esforço de reunir-se com ele. Mas depois que os médicos “me juntaram com cola”, escreve ela, “eu sabia o que fazer”. Fiz um modelo de você, um homem de preto num estilo Meinkampf, e um gosto por potro e anjinhos. Quando ela diz também ao pai: “Fiz de você um modelo”, ela parece querer dizer que Ted era um substituto para ele. Sylvia parece ter considerado a morte prematura de Otto um modelo para seu próprio comportamento suicida, como sugerem os versos de “Daddy”: Eu tinha dez anos – na verdade oito – quando enterraram você. Aos vinte tentei morrer, e voltar, voltar, voltar para você. Por todo este universo conturbado na vida e arte da poesia de Silvia Plath, que tem uma força avassaladora na onipresença de seu pai, o que de fato parece ter determinado as grandes ações de sua breve e sofrida vida, é que se constituiu um precioso material dramatúrgico e de extrema curiosidade com o também universo dos atores da encenação em voga.

2_Alessandra Gelio e Léo Rosa_Crédito Priscila Villas Bôas

A luz, a cenografia e a música, são fundamentais para se criar o ambiente intimista da encenação. Foto de Priscila Villas Bôas.

O texto de Alessandra Gelio é fluido e nos faz ficar muito interessados, e em suspensão, pela incerteza do que nos será apresentado no decorrer de uma obra tão devastadora e com fim trágico. O que nos causa um sentimento instigaste e uma surpresa boa em estar ali dividindo a vida de Plath com duas atrizes e um ator, e com histórias que se ligam verdadeiramente. As da vida real da poetisa, com conexões e coincidências reais dentro do universo de todos eles. A direção também de Gelio e  Cyntiha Reis concebeu um espetáculo aconchegante, delicado e de bom gosto. A cenografia funcional e criativa, é bem utilizada e preenche os espaços criados, com harmonia. Assim como o figurino, que é bem executada em sua confecção e no uso de materiais. Dois ótimos destaques são a luz de Renato Machado, delicada e sensível ao assunto, e com sutilezas na cena da redoma de vidro: e o som tocado durante toda a peça por Fellipe Mesquita. Todo esse conjunto conceitual contribui para a força e a veracidade do projeto, e dá aos atores, principalmente à eles, um grande suporte de sustentação para as suas vivências. Muitos fatos mexem conosco – na obra de Plath e na vida de Gelio -, nos faz refletir e nos colocam em posição de alerta constante. Onde podemos participar também, sendo um dos agentes ou emissários destas histórias reais e de ficção. Tendo eu contribuído também, com fatos íntimos da lele! Neste momento posso lhe chamar assim, em vistas de que eu fui também um emissário desta história e pude reforçar a presença de seu pai na encenação. Repleta de momentos de contato. As atuações, mescla de interpretação e depoimentos reais, ganham uma dimensão particular na voz de Alessandra Gelio, e nas experiências narradas de sua vida pessoal; e é bem acompanhada por Téia Kane e Léo Rosa, que se apresentam com dignidade neste projeto tão pessoal e especial.

Léo Rosa_Téia Kane e Alessandra Gelio_Crédito Sandro Arieta

Léo Rosa, Téia Kane e Alessandra Gelio em cena. Foto de Sandro Arieta.

“Se eu fosse Sylvia Plath”, é uma encenação que mistura vida real que vira ficção, com ficção de vida real, com vidas reias que viram ficções em cena.

 

Ficha técnica

Idealização e Dramaturgia: Alessandra Gelio

Direção: Alessandra Gelio e Cynthia Reis

Elenco: Alessandra Gelio, Léo Rosa e Téia Kane

Assistência de Dramaturgia: Cynthia Reis e Yasmin Garcez

Colaboração Artística: Helena Varvaki

Cenografia: Elsa Romero

Assistência de cenografia: Ines Nessimian

Figurino: Rosa Ebee e Tiago Ribeiro

Costura: Ateliê das Meninas (Maria e Zezé)

Iluminação: Renato Machado

Programação Visual e Direção de Fotografia: Daniel de Jesus

Fotografia: Priscila Villas Bôas

Vídeo: Sandro Arieta

Músico: Fellipe Mesquita

Assessoria de Imprensa: Bianca Senna e Paula Catunda

Produção Executiva: Juliana Fernandes

Direção de Produção: Larissa Benini

Realização: Téia Kane

 

Serviço:

Espetáculo: Se eu fosse Sylvia P.

Temporada:10 de janeiro a 23 de fevereiro

Dias e horários: Terças, quartas e quintas, às 20h

Local: Teatro Cândido Mendes (Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema)

Tel.: 2523- 3663

Ingressos: R$ 30 (inteira) | R$ 15 (meia)

Duração: 1h30m.

Classificação etária: 18 anos.

 

 

 

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 3