Selfie

Espetáculo reafirma o fundamental papel do ator, o verdadeiro dono da cena

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02 de julho de 2015

O teatro é a arte mais fascinante de todas, pois só nela o ator é um “Deus supremo” de todos os seus atos, em cena. Só no teatro conseguimos transformar dois atores, dois celulares, dois macacões azuis (mesmo como peças destoantes do todo) e dois queijos – praticáveis -; em um ótimo espetáculo, que parte de uma premissa simples, mas aborda um tema bastante instigante para os dias de hoje. “Selfie” escrita por Daniela Ocampo e dirigida por Marcos Caruso conta a história de Claudio, um homem super conectado que armazena toda a sua vida em computadores, redes sociais e nuvens. Debruçado sobre um projeto de criar um sistema único para armazenamento de todos os dados de uma pessoa, vê seu sonho ir água abaixo quando deixa cair um café em seu equipamento, que sofre uma pane e apaga tudo. Ele então torna-se um homem sem passado, pois toda sua memória era virtual. A partir daí, Claudio inicia uma saga em busca da memória perdida, recorrendo a vários personagens de sua vida, para reconstituir sua história.

Espetáculo reafirma o fundamental papel do ator, o verdadeiro dono da cena

Espetáculo reafirma o fundamental papel do ator, o verdadeiro dono da cena

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Thiré se desdobra em 11 personagens hilárias. Todas realizadas com muito apuro técnico. Foto Guga Melgar.

“Selfie” não fala só de selfie – ato de tirar foto de si mesmo, se autoretratar -, mas sobre o grande universo que engloba o mundo digital – após a aparição do IPhone -, os grandes vícios e os seus dependentes compulsivos deste mundo tecnológico. Mostra-nos situações curiosas e sullreais sobre pessoas que parecem não saber mais o limite entre viver sem estes “artifícios” nos dias de hoje. Mostra-nos as relações relâmpagos entre as pessoas, entre os casais, mães e filhos, relações de trabalho, de amizade, e chega ao absurdo de se inventar um celular plantado dentro do próprio cérebro. Situação que já não nos parece tão distante assim, pelo avanço de possibilidades e aplicativos, e pelo alto nível de dependência que temos na atualidade destas pequenas grandes “máquinas”. O mais interessante disto tudo é que o espetáculo além de fazer uma crítica exacerbada a tudo isso, consegue também mostrar alguns lados positivos de se estar conectado – principalmente para os mais antigos -, e o bom uso que se pode fazer do mesmo; que vai muito além de milhares de pessoas ficarem o dia inteiro postando dezenas de fotos suas, em situações banalíssimas e super esdrúxulas. Tenho em meu próprio facebook, infelizmente, milhares de amigos, que se autoretratam o tempo todo. Totalmente insuportável esta atitude, que “Selfie” aborda muito bem.

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A direção de Marcos Caruso soube tirar proveito do ótimo trabalho de corpo, voz, mímica e de sonoridade dos atores. Foto Guga Melgar.

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O interessante texto de Daniela Ocampo apresenta um ótimo, e divertido, material para reflexão. Foto Guga Melgar.

A tônica do espetáculo é a simplicidade da produção, aliada a um ótimo, refinado e divertidíssimo trabalho de corpo, mímica e sonoro criado pelos atores. A peça está nas mãos, e nos plenos domínios, de Mateus Solano e de Miguel Thiré – ambos estão impagáveis e absolutos -, e sendo muito bem orquestrada pelo diretor Marcos Caruso. Caruso construiu junto com os atores um espetáculo leve, dinâmico, solto, e  muito contundente ao mesmo tempo. Acredito que o panorama melhorou bastante, de uma maneira geral – longe ainda do ideal -, onde não encontramos hoje tantas pessoas usando o celular em uma sala de espetáculos. Com todo o avanço da tecnologia, muitos ainda precisam entender, de uma vez por todas, que celulares e salas de espetáculos não nasceram um para o outro. Na mesma sessão da peça“Selfie”, ao meu lado, sentou uma mulher na fila dos convidados da produção, que passou a peça inteira no MSN e no Whatsapp. Achando ela equivocadamente, e mal educadamente, que tudo aquilo que o espetáculo criticava, para ela, devia ser um elogio ou um mérito, não ter a menor noção de respeito próprio e cidadania, ao fazer uso do mesmo, e deixar aquela luz insuportável em nossos olhos. Creio que “Selfie”com o seu tom crítico e sua encenação bastante contundente, possa vir a ser um divisor de águas neste assunto tão delicado em pleno século 21.

 

FICHA TÉCNICA

Idealização: Carlos Grun, Mateus Solano e Miguel Thiré

Texto: Daniela Ocampo

Direção: Marcos Caruso

Elenco e personagens:

Mateus Solano: Claudio

Miguel Thiré: Paulista, o amigo técnico / Solange, a mãe / Amanda, a namorada / Álamo, o amigo maconheiro / o Empresário / Suzana Souza, a apresentadora de TV / o Barman / a Mulher do Bar / o Deputado / o Menino / Inocêncio, o velho (personagens por ordem de entrada em cena)

Figurinos: Sol Azulay

Desenho de Luz: Felipe Lourenço

Direção Musical e Trilha Sonora: Lincoln Vargas

Preparação Corporal: Arlindo Teixeira

Fotos: Vitor Zorzal e Guga Melgar

Design Gráfico: Bruno Dante

Produção: Carlos Grun – Bem Legal Produções

Assessoria de imprensa: João Pontes e Stella Stephany – JSPontes Comunicação

 

Serviço:

LOCAL: Teatro do Leblon / Sala Marília Pera- Rua Conde de Bernadote, 26 – Leblon / RJ   Tel: 21 2529.7700

HORÁRIOS: 6ª 21h; sab 19h e 21h; dom 20h

INGRESSOS: 6ª R$80,00 / sab e dom R$90,00

FUNCIONAMENTO BILHETERIA: 3ª a domingo das 15h às 21h

DURAÇÃO: 70 min

GÊNERO: comédia

CAPACIDADE: 346  espectadores

CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 14 anos

TEMPORADA: até 30 de agosto

 

 


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