Sementes: Mulheres Pretas no Poder

Um filme que soa como alerta

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08 de setembro de 2020

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É impossível assistir ao documentário Sementes de Éthel Oliveira e Júlia Mariano e ficar emocionalmente indiferente. A produção mostra a trajetória de mulheres negras que após a execução da vereadora Marielle Franco em março de 2018, decidiram entrar ou persistir na política. Mesmo desenvolvido com baixo orçamento, o longa acompanha de forma perspicaz e satisfatória os acontecimentos durante a campanha de Mônica Francisco, Renata Souza, Talíria Petrone, Rose Cipriano, Tainá de Paula e Jaqueline Gomes. Durante os oito meses que separaram o assassinato de Marielle e as eleições o espectador assiste ao amadurecimento destas mulheres como figuras políticas e como a decisão de assumir este papel afetará muitas vezes suas vidas pessoais.

Apesar de não tratar diretamente do ato e dos motivos que levaram à execução da vereadora, a figura da mesma se faz presente em todos os momentos, na maioria deles como força, incentivo e principalmente exemplo para as muitas mulheres em tela. O título do filme não é em vão: Marielle não deixou apenas um legado, mas provocou o nascimento de um ímpeto político e de justiça em inúmeras outras pessoas. De acordo com dados citados durante a exibição, o número de mulheres negras que concorreram nas eleições de 2018 cresceu 93% perante a anterior.

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Éthel Oliveira e Júlia Mariano usaram toda sua sensibilidade e perspicácia ao abordar as inúmeras desigualdades presentes na sociedade no decorrer da produção. Em primeiro lugar mostrando as campanhas eleitorais feitas com pouquíssimos recursos em uma atmosfera quase familiar – lembrando que estamos em ano eleitoral – onde as próprias candidatas saem para panfletar em suas “horas vagas”, pois não podem deixar seus trabalhos formais e fontes de renda para tal. Outro destaque foi a abordagem policial que aconteceu durante o ato político “ele não – Mulheres contra Bolsonaro”; enquanto eram mulheres que argumentavam o porquê da abordagem com uma produtora a reação do policial era uma, porém ao chegar um homem advogado a cena mudou completamente, com o policial inclusive convidando o rapaz para acompanhar a conferência dos documentos solicitados.

As discrepâncias de tratamento, investimento e confiabilidade entre homens e mulheres, principalmente quando estas são negras é discrepante. Algo que fica muito claro na cena em que assistimos a chegada de Talíria Perone ao Congresso para tomar posse – além é claro do racismo estrutural latente presente na fala da staff que a recebe. Ao mostrar estas questões o filme provoca o seguinte questionamento, muito importante no cenário político atual: como competir com homens brancos, héteros e privilegiados em moldes iguais para ocupar cargos iguais? Para as mulheres em cena, e inúmeras outras, o ato de tentar já é resistir.

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Por fim, mas não menos importante, é possível acompanhar o choque das candidatas diante da apuração dos votos que elegeram candidatos de extrema direita em grande parte do país. Tomando como base o recorte do filme, que é o estado do Rio de Janeiro, o nome do atual governador afastado Wilson Witzel aparece como uma surpresa indigesta, não somente para as protagonistas, mas para uma grande parcela da população. O choque foi sentido por muitos e talvez o documentário pudesse ter se aprofundado mais no crescimento desta extrema direita para contrapor este sentimento.

É difícil não reviver o mal-estar provocado pelos resultados daquele ano, algo que passados dois anos, já vem dando fortes sinais de que pode acontecer novamente. E o que fazer para evitar que este cenário se repita? A resposta também está sugerida no documentário. Educação, investimento, igualdade e principalmente a importância de votos voltados para as mulheres, principalmente as mulheres negras, moradoras da periferia. Em um país fundado pela exclusão, a Casa Grande nunca saiu de cena. Há a necessidade de que mulheres negras ocupem lugares de comando – políticos ou não, algo pelo qual Marielle lutou, trabalhou e “incomodou” durante sua breve, mas marcante vida. O caminho é longo, mas já está sendo trilhado por muitas.

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A pergunta feita pela arquiteta e urbanista Tainá de Paula: “Quantas arquitetas e urbanistas negras vocês conhecem além de mim?” soa tão alto quanto um alarme afinal, esta que vos escreve é formada na mesma faculdade de Tainá e pode responder com tranquilidade que não conhece nenhuma outra. E como sociedade temos o dever de mudar esta realidade, o quanto antes, para que outras indigestas surpresas não se perpetuem. Afinal, se mulher-negra-trabalhadora é uma tríade praticamente bloqueada hoje no Brasil, seja na política ou fora dela, gênero-raça-classe é uma tríade fundamental para se refletir sobre o passado, o presente e o futuro do país.

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