Sempre achei que a Criança dentro de mim fosse imortal

Feliz dia das crianças

por

13 de outubro de 2020

Eu sempre achei que minha criança fosse imortal…

Sempre disse para mim mesmo que se soubéssemos manter o espírito de uma criança aceso dentro de nós, como outrora já fomos por fora, poderíamos nos manter jovens para sempre por dentro. Sempre pensei que era por isso que meu sorriso jamais cessava mesmo ante as piores adversidades… E posso ainda ser razoavelmente jovem, ou achar que sou…, mas já vi um bom bocado de adversidades. Um bom bocado de coisas. A criança dentro de mim ficaria horrorizada se soubesse… se soubesse do que as pessoas são capazes; do que já tive de presenciar. As decepções… Talvez esta criança não sobrevivesse se não estivesse muito bem guardada e protegida.

Talvez eu estivesse envelhecendo sozinho agora…, se houvesse deixado esta criança morrer. Não é uma questão envelhecer… De forma alguma. Meu velho dentro de mim também é uma boa companhia. Aliás, é engraçado pensar isso, mas se minha criança está sobrevivendo atrasada dentro de mim, contra todas as estimativas e apostas, mesmo quando todas as minhas muralhas colapsam por cima dela… por outro lado, meu velho chegou cedo. Chegou muito cedo, antes do tempo. Nasceu prematuro, diante das agruras e dificuldades pelas quais teve de amadurecer rápido demais. Às vezes sentia até pena por ele…viu quase tanta coisa ruim quanto a minha criança. Talvez tenham visto na mesma medida, juntos, inseparáveis. Como se tivessem nascido no mesmo dia.

O velho que habita em mim saudou a criança que queria me deixar, ansiosa demais por viver o mundo, e acabou ficando para tomar mais algumas canecas de café com leite junto ao velho. Eles trocavam palavras como se sempre tivessem se conhecido. E nem por isso sempre se davam bem. Às vezes queriam se engalfinhar, pular um no pescoço do outro. Mas se aturam. Voltam a se apresentar e a conhecer tudo de novo que a vida teria para lhes presentear. O velho olha a vida como uma criança, como se pudesse conhecer tudo pela primeira vez tudo outra vez. E a criança como se pudesse enxergar além das coisas, como se tivesse a vivência de ver para além da matéria e alcançasse a essência que só os mais sábios poderiam conhecer. A pureza do olhar de ambos não mente, eles na verdade estavam olhando era um para o outro o tempo todo.

Um dia, aquela criança começou a ficar doente. O velho tratou dela o máximo que pôde, ainda que ele mesmo talvez estivesse em suas últimas energias, dando tudo de si… Cuidar daquela criança era tudo o que lhe restava. E a criança sentia que precisava resistir para manter a razão de existir daquele velho. Mal sabiam que ambos estavam condenados. Mal sabiam que ainda não haviam visto o pior ainda… Mal sabiam que ainda podia existir algo tão difícil que talvez nenhum dos dois poderia superar. A dor no peito apertava a existência de ambos. A dor era tão forte que dor era tudo o que ambos podiam pensar… Não havia nada mais a pensar. Só dor. Preferiam acabar com seu sofrimento do que ter de aguentar mais um dia daquela sensação.

Um último brinde. Um último abraço. O velho abraçava aquela criança, com seus frágeis ossos, tão forte quanto a criança abraçava de volta com seus pequeninos membros, quase não conseguindo dar a volta no corpo do velho e encontrar uma mão na outra atrás das costas dele. O abraço era tão forte, e precisava ser, que parecia a única coisa que sentiam agora. Só aquele abraço. E a força era tão grande pra manter aquele abraço que nem sentiam mais a dor. Só se concentravam em manter os braços cruzados um em torno do outro, como se pudessem adentrar um no corpo do outro. Como se os quatro braços pudessem se tornar três, depois dois, e os troncos um só. Como se o coração acelerado começasse a bater apenas num só batuque, como se um não existisse sem o ritmo do outro. O coração se incendiava, soltava faíscas, rojões de fogos coloridos de artifício, e nem era ano novo…talvez não fosse mesmo ano novo… Eles nunca tinham visto um ano tão difícil como este… Tantas perdas, tantas decepções, tantas agruras, tantas, tantas, tantas…

Parecia que aquele ano jamais acabaria. Parecia que aquele abraço, em torno de si só, jamais poderia cessar. Parecia que aquele velho e aquela criança jamais deixariam de estar ali, se abraçando, mantendo o firmamento… Mas tudo passa… Tudo acaba um dia. O ano viraria… O abraço seria solto… O velho deixaria de existir… A criança também… Tudo passa. Até eles passam… Passaram por mim. Eu os vi. Eles existiram. Eu fui testemunha. Jamais deixaram de existir dentro de mim, porque eu me lembrarei deles. Jamais esquecerei. Do meu velho, que é só meu, que sou eu. E da minha criança, que é só minha, que sou eu. E eles para sempre irão me ter… sempre lembrarão de mim, mesmo depois que eu me for. E quando chegar este dia, estaremos lá, junto novamente. Meu velho, minha criança e eu, como nunca deixamos de ser.

Assinado: eu.