Sete filmes imperdíveis deste sábado de Festival do Rio

Tem .doc, tem thriller erótico e tem o aclamado 'Cafarnaum', premiado em Cannes: tudo hoje!

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03 de novembro de 2018

Capharnum Nadine Labaki Cafarnaum

Futebol Infinito, de Corneliu Porumboiu: Mais um momento luminoso do cinema romeno, em estado de graça, desta vez em solo documental, usando o humor nigérrimo daquele país para transformar uma resenha esportiva num debate sobre exclusões políticas. Um funcionário público (Laurentiu Ginghina) que um dia foi um bamba da bola abre o peito para o diretor de “O Tesouro” (2015) ao falar sobre pênaltis, faltas e infrações de governo. Estação NET Rio 4, 13h

Cafarnaum, de Nadine Labaki: Antes conhecida por cults como “Caramelo” (2007) e “E agora, onde vamos?” (2012), a cineasta e atriz libanesa de 44 anos arrebatou o Prêmio do Júri de Cannes por este melodrama exasperante sobre deveres não cumpridos. Trata-se de uma experiência narrativa perturbadora, indo da fofura à tragédia. Aplaudido de pé numa das sessões para a crítica, o filme é amparado numa montagem capaz de administrar traços sentimentais distintos em seus atos: começa como thriller de tribunal, vira folhetim, muda para a aventura, cai no trágico e dá uma guinada para uma reflexão social de tom geopolítico. Na trama, um menino com cerca de 12 anos (ele não sabe), preso por esfaquear alguém (quem é? só saberemos lá pelo fim), leva seus pais (relapsos e violentos) à Justiça. O motivo: ele quer processo o casal por ter dado a vida a ele e não ter se esforçado em zelar por seu bem e amá-lo. O guri, Zein, é vivido por uma força da natureza de cerca de 1 metro de altura  chamado Zain Alrafeea. Abusado, corajoso, enraivecido, ele sai de casa, tenta a sorte em todas formas de trabalho e acaba tendo que cuidar de um bebê etíope. O neném ele juntos arrancavam risos, suspiros e choro do público de Cannes. Em seu olhar para cortiços e conjuntos habitacionais, a fotografia, assinada por Christopher Aoun, evoca Cidade de Deus em uma lógica de favela movie.. Estação NET Ipanema 2, 16h40

Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski: Artesão da imagem em preto & branco, o polonês Pawel Pawlikowski estabeleceu seu nome como uma grife de rigor estético ao conquistar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2015, com “Ida”. A torcida para que ele voltasse a filmar logo foi imensa. O ardor de seus fãs acabou bem recompensado: “Guerra Fria”, o novo longa-metragem do diretor, é bem mais requintado visualmente e mais comovente em sua dramaturgia:  o longa recria a Europa dos tempos da Cortina de Ferro sob a ótica de um casal – um maestro e uma cantora descoberta por ele – que encara a repressão do Estado e o inferno afetivo do ciúme em seu périplo para se manter unido. Pawel conquistou o prêmio de melhor direção em Cannes por esta pérola. Estação NET Botafogo 1, 17h10

"Sem rastros": um ensaio sobre a relação pai e filha da diretora de 'Inverno na alma'

“Sem rastros”: um ensaio sobre a relação pai e filha da diretora de ‘Inverno da alma

Sem rastros, de Debra Granik: “Leave no trace” é o título original deste drama cotado para o Oscar desde sua passagem pela Quinzena dos Realizadores de Cannes. Realizadora do seminal “Inverno da alma” (2010), que revelou a atriz Jennifer Lawrence, Debra Granik volta a direção para narrar a luta de dois eremitas, a adolescente Tom (Thomasin Harcourt Mckenzie) e seu pai (Ben Foster), para se adaptarem a uma realidade perigosa após uma intervenção das autoridades em seu mundo de isolamento. KInoplex São Luiz: 18h45

Museu, de Alonso Ruizpalacios: Gol do México nos minutos finais da Berlinale 2018: “Museo”, thriller com Gael García Bernal sobre um lendário roubo de obras de arte ameríndias, deixou o festival alemão de queixo caído com seu ritmo frenético e sua estrutura de dramaturgia avessa às cartilhas de filmes de assalto. Além de trazer a melhor interpretação do galã desde seu trabalho como Che Guevara em “Diários de Motocicleta” (2004), o longa-metragem surpreende pelo teor de excentricidade com que pinta o vazio existencial da jovem classe média mexicana dos anos 1980, quando se passa a trama. Há até uma divertida menção a “Chaves”, numa cena em que Gael usa uma camiseta com a cara do mais ilustre inquilino do Sr. Barriga para embrulhar um artefato raro. Saiu da Berlinale laureado com o prêmio de Melhor roteiro.  Estação NET Ipanema 2, 21h

Verão, de Kirill Serebrennikov: Batizado em referência a uma canção (traduzida em Português como “Verão”), “Leto” revive a saga do compositor e roqueiro soviético de origem coreana Viktor Tsoi (1962-1990), cujas letras serviram de bandeira para uma geração que cresceu vendo a URSS se esfacelar. Suas cifras flertam com a liberdade, cantada com ecos punk à la Ramones por sua banda, Kino. Ele foi “o” poeta de Leningrado, o Leningrado do R-Rock, o roquenrol russo. Realizador deste apaixonante musical, Krill Serebrennikov, que nasceu em 1969, ouviu Tsoi em sua juventude e levou os ideais do músico para seu cinema e para os palcos, onde militava à frente do Centro Gógol de Teatro Contemporâneo até ser preso, em agosto, no fim das filmagens da saga de Viktor. A acusação – uso indevido de verbas públicas – não foi comprovada, o que deflagrou uma campanha em Cannes (com bótons e camisetas) por sua libertação. O diretor artístico do evento, Thierry Frémaux, pediu um induto ao presidente Vladimir Putin para que ele fosse liberado para participar da sessão de gala de “Leto”, na quarta. A resposta: “Seria um prazer ajudar Cannes, mas, na Rússia, a justiça é independente”.  KInoplex São Luiz 1, 21h

Faca no coração Couteau dans le coeur

Faca no coração
, de Yann Gonzalez: Muitos dos 21 concorrentes à Palma de Ouro de 2018 desapontaram crítica e público, a começar do filme de abertura, Todos Lo Saben, mas poucas sessões, mesmo a dos longas-metragens mais controversos, tiveram rejeição similar a que Un Couteau Dans Le Coeur recebeu, com direito a debandada e vaias. Chamada de Knife + Heart em inglês, a produção francesa, sobre a cena pornô gay da Paris dos anos 1970, caiu na antipatia do povo por soar sensacionalista e pedante, ao embarcar em uma elocubração filosófica sobre o desejo. Apesar disso e das vaias, o longa-metragem dirigido por Yann Gonzalez preserva uma potência narrativa ímpar. Entre os sites e jornais europeus orientados por temáticas homoafetivas, o trabalho de Yann – explícito, mas ainda assim emotivo – foi aclamado por desafiar tabus e celebrar uma ala da cultura cinematográfica sempre tratada de modo caricata: a seara pornográfica. Na trama, Vanessa Paradis (uma cantora famosa, com sazonal experiência como atriz) vive uma produtora de filmes adultos de meninos com meninos. Ela anda em crise pelo alcoolismo e pelo término de seu romance com a montadora de seus longas (Kate Moran). Em meio aos conflitos internos, ela descobre que um aasassino mascarado está matando seus atores e seus amigos. O clima dessa história evoca cults de Brian De Palma (Vestida Para Matar, sobretudo) e de Dario Argento (Suspiria). Estação NET Botafogo, 23h59