Shirley

Livro que recria o filme que recria o livro

por

03 de novembro de 2020

Sobre questões afirmativas, vale ressaltar a representação e representatividade feminina com a biografia não ortodoxa da novelista Shirley Jackson em “Shirley” de Josephine Decker, com a deusa Elisabeth Moss recriando a realidade à beira do delírio criativo à la “Quem Tem Medo de Virgia Woolf” (1966), flertando com uma troca de casais não binária.

Sobre a história: Shirley Jackson (Elisabeth Moss) é uma escritora de contos de suspense casada com Stanley Hyman (Michael Stuhlbarg), um renomado professor da Bennington College. Os dois decidem abrigar em sua casa um casal de jovens estudantes por um período. Shirley encontra nessa rotina peculiar a inspiração que precisava para sua mais nova obra.

A espiral de alucinações que vão se confundindo com a realidade vão criando uma estética ímpar em meio à crescente tensão entre os casais, alimentando de forma inversamente proporcional o potencial criativo da escrita de Shirley. Isso leva com que toda a trama do filme seja inserida aos poucos no próprio livro da autora, que, uma vez mastigada a realidade, cospe a bel prazer sua própria visão do filme, numa boa metalinguagem da criação de ambos.

Noutro diferencial, a relação ambígua e sensualmente não binária entre as duas personagens femininas amplia e desconstroi a influência patriarcal na já masculina cosmologia universitária em que ambas estão imersas. Isto estoura a bolha um pouco repetitiva do modelo de “Quem Tem Medo de Virgia Woolf”, em que estas mulheres ainda ficavam à mercê do universo de seus respectivos companheiros.

Por fim, a usualmente brilhante Elisabeth Moss está um pouco limitada pela maquiagem e perucas um pouco desalinhadas, talvez para tentar encaixar à força a história numa caracterização buigráfica, enquanto a própria Moss está interpretando num filme que se assume na linguagem de gênero muito mais do que a necessidade de reiterar suas raízes verídicas… Porém, a partir de certa altura, nem isto atrapalha mais, e Moss consegue recuperar as rédeas do filme a tempo de um excelente final catártico que de fato faz valer a obra como um todo.