‘Short cuts’ à moda paulista

Com painel coral sobre o esvaziamento afetivo nas grandes cidades, André Ristum levou um misto de encanto e dor à Première Brasil com seu 'A voz do silêncio', apoiado em um elenco inspirado, com destaque para Arlindo Lopes, Claudio Jaborandy e Marieta Severo

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10 de novembro de 2018

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Rodrigo Fonseca
Desde que Stepan Nercessian apertou a buzina de Abelardo Barbosa à frente de “Chacrinha – O Velho Guerreiro”, há uma semana, no Odeon, ficou claro que este Festival do Rio entraria para a posteridade como um desfiles de grandes atuações em seu segmento nacional, a boa e velha Première Brasil. Interpretações inspiradíssimas como as de Camila Morgado e Augusto Madeira em “Domingo”; de Fabíula Nascimento em “Morto não fala”; e de Sara Antunes em “Deslembro” apenas ampliam essa sensação de excelência, que engloba também os títulos fora de concurso, a se destacar o desempenho à la Gene Hackman de Rubens Caribé em “Cano Serrado”, um achado lá do DF. Nos 45 minutos do segundo tempo regulamentar da maratona cinéfila carioca de 2018, pintou uma atuação brilhante, cuja beleza, na síntese da dor, é capaz de sintetizar todas a grandeza das atuações antológicas deste ano. A cena remonta a uma balada improvisada na qual um operador de telemarketing isolado do mundo por angústias particulares e comprimidos de um coquetel para driblar o HIV. O rapaz refuta a gandeia até o limite da fadiga e, ao abrir uma brecha para uma cervejinha – e, depois, uma tequila e, depois, uma almôndega entre meninas e meninos -, cede aos instintos, até seus fantasmas internos assombrarem seus desejos carnais mais imediatos. O rapaz senta, olha para o nada (no caso, a nossa direção, nós, plateia) e encara o vazio que existe nele mesmo. Isso aí – isso tudo aí – se chama “A voz do silêncio”, que dá a Arlindo Lopes (da seminal montagem nacional de “Ensina-me a viver”) um voo solo rumo à (merecida) consagração, criando como pode, inventando e se reinventando, num modo de interpretar com as vísceras saindo pelos poros, saindo pela boca.

Neste ano lotado de filmes de gênero, tendo “Domingo” como o ápice formal de sua disputa de ficções e o já citado “Cano Serrado” como o achado dos títulos hors-concours, a Première Brasil encontra em “A voz do silêncio” um espaço de depuração para o drama urbano, em uma oxigenação do formato “filme coral”, onde vários núcleos narrativos distintos colidem, pelos moldes que “Short Cuts – Cenas da vida” (1993) nos ensinou. É preciso disciplina e poesia para domar uma estrutura tão capilarizada. André Ristum (“Meu país”) tem as duas coisas, com o acréscimo de ter uma obsessão autoral pela ausência de um abraço que sirva de abrigo a seus personagens. O de Arlindo, por exemplo, sente falta da mãe, uma gárgula com ferida na perna e cerveja nas ideias vivida por um bicho raivoso que  Marieta Severo arrancou de sua alma, dando ao Festival do Rio uma atuação devastadora. Vai hoje lá no Reserva Cultural, às 21h, onde o longa-metragem passa mais uma vez, pra conferir esse animal feroz ao vivo. Vale.

E olha que ele é só um eixo de uma radiografia de exclusões afetivas, uma súmula da derrota emotiva dos que se refugiaram na solidão ou no egoísmo da onipotência como faz o oficial vivido pelo titã Marat Descartes ao levar notificações de despejo por aí. O derrotismo e o refúgio na autocomiseração são cicatrizes na face do real protagonismo de “A voz do silêncio”: uma metrópole contemporânea. É São Paulo, fala-se de Sampa, tem Rua Augusta, mas podia ser qualquer grande cidade da Terra. É esse o saldo positivo do universalismo que Ristum traz para seus projetos, sendo que este está alinhado a uma das tendências temáticas da Première deste ano: há uma estética de crônica de costumes por todo lado. Esta deu a Ristum o KIkito de melhor direção em Gramado, de onde o montador Gustavo Giani saiu com o troféu de melhor edição. O reconhecimento foi merecidíssimo: a trança entre os polos é perfeita.

Boas atuações de Marat Descartes e Nicola Siri

Boas atuações de Marat Descartes e Nicola Siri: onipotência versus escassez de afeto

O curioso é que o filme chega ao Festival do Rio já bombado do exterior. É comum o Brasil suspirar pelo bom cinema argentino, e até sentir uma pontinha de inveja deles, diante de filmes como “O cidadão ilustre” (2016), “Relatos selvagens” (2014) ou “O segredo dos seus olhos” (2009), porém, lá, entre nossos hermanos, no início deste ano, ocorreu uma situação inversa: o longa Ristum arrebatou elogios deles. Definido pelo jornal “La Nación” como “um retrato pleno de emoções e poesia das relações humanas”, “A voz do silêncio” lotou salas de exibição na capital da Argentina. Chegou até lá após uma aclamada passagem pelo Festival de Málaga, na Espanha, e vem conquistando atenções dos críticos e do público pela afinação de seu elenco em uma trama coroada por um eclipse lunar. Ele estreou por lá primeiro por ter sido gestado em regime de coprodução com nossos vizinhos de América do Sul.

Arlindo Lopes: atuação pra ficar

Arlindo Lopes: atuação pra ficar nas telas

Nascido em Londres, em 1971 , e radicado em São Paulo desde 1996, logo após ter sido um dos assistentes de direção do mito italiano Bernado Bertolucci em “Beleza roubada”, Ristum alcança agora, lá fora, um prestígio que muito realizador brasileiro veterano sua a camisa para vislumbrar. Inspirado em experiências reais de vida do diretor, “A voz do silêncio” executa uma cartografia de abandonos em território paulista, a partir de pessoas anônimas, que vivem suas vidas em tensão, na luta pela sobrevivência, resignados com o próprio destino. Um eclipse pontua as mudanças nas rotinas dessas pessoas, que compõem um mosaico do Brasil urbano. Marieta vive Maria Claudia, uma mulher amargurada por escolhas pessoais infelizes. O elenco traz ainda Stephanie de Jongh,, Marina Glezer e Nicola Siri, o ator mais recorrente na obra de Ristum, numa preciosa atuação como um dono de sushi bar rendido à crise econômica e ao sazonal consumo de cocaína.

A fotografia de Hélcio Alemão Nagamine faz uma triagem das sombras e das clareiras de seus personagens, lambuzando-se de uma gangorra quase barroca. Arlindo Lopes esbanja alvura em sua pele, imiscuindo-se em uma atmosfera amarelada de desamparo travestido de loucura e excesso. Ao contrário disso, o compulsivo trabalhador vivido por um iluminado Claudio Jaborandy, em um modo de atuar quase brechtiano, distanciado, frequenta um espaço arejado e iluminado ao se ver as voltas com a conclusão de sua universidade. Trabalha como garçom para o personagem de Siri e é porteiro. Em ambas as profissões é hostilizado. No ambiente universitário, ele é quase extorquido para conseguir uma segunda chamada de prova. Mas, lá, pelo menos, resta uma chance de ele prosperar em seus sonhos. E poucos neste filme tão delicado, mas tão doído, têm chance de sonhar.

O resultado dessa escassez de sonhos é uma narrativa de farpas, que atesta a maturidade de Ristum como realizador. Lembra a Lina Wertmüller ressaqueada de “Em noite de lua cheia” (1989), com um sopro de humor (sádico) só quando Augusto Madeira (sempre ele… sempre genial) invade cenas como um pastor evangélico nos moldes de “Fala que eu te escuto”. Com ele, Ristum se abre ao riso com uma desenvoltura singular para um filme tão árido. Coisa de adulto. Coisa que dói… mas fica.

Tem uma sessão a mais no domingo, 14h, no Kinoplex São Luiz.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 4