Siberia

Obra-prima da física quântica cinematográfica

por

18 de outubro de 2020

Siberia de Abel Ferrara (Berlinale 2020)*

Vanguarda Versus Conservadorismo

por Filippo Pitanga originalmente publicado em 27 de fevereiro de 2020, ora revisado e ampliado perante a 44ª Mostra de SP:

Meu favorito ainda na competição pelo Urso de Ouro no 70° Festival de Berlim, “Siberia” de Abel Ferrara é um verdadeiro experimento de cinema. Sim, cineastas podem ser alquimistas que brincam com o espaço e para quem o passar do tempo pode significar mil vidas ou um piscar de olhos. Ainda mais se o seu intérprete principal é ninguém menos do que o avatar ideal para os mais profundos recônditos da mente: o ator fractal por excelência, Willem Dafoe.

Esta merecida coroação para Dafoe chega após toda uma carreira onde este incrível artista pôde interpretar personagens à beira da insanidade ou do delírio, como lhe é de praxe quando não está emprestando credibilidade a vilões do cinemão comercial, como o Duende Verde em “Homem-Aranha”. Ele já foi Van Gogh em “Portal do Paraíso”, já foi algo entre um faroleiro numa ilha e um Poseidon enfurecido no novo cult “O Farol”. Porém, agora, ele é só um homem. E, como todo homem, um poço infinito de contradições e tormentas das quais o cinema ama se alimentar. Ele, pai e filho, ao mesmo tempo, mas não há de se falar em espírito santo, pois não estamos lidando com a Santíssima Trindade aqui. Este filme não é sobre o sacro, e sim o profano.

O próprio cineasta Abel Ferrara também não é estranho a explorar o que o subconsciente humano esconde…, inclusive com múltiplos trabalhos prévios com Willem Dafoe, como “Pasolini” e “Tommaso”. Desta vez, ambos mergulham numa viagem insólita entre a razão e a loucura, Freud e Jung, neuroses familiares urbanas e simbolismos na solitude da natureza. O isolamento auxilia a criatividade na linguagem do cinema, uma vez que a cena despida dos excessos propicia concentração na essência do quadro. Por exemplo, o que há de mais indispensável na relação entre o ser e seu trabalho? Entre a materialidade e a espiritualidade?

Até agora esse texto falou muito poeticamente e pouco sobre o filme em si, só que estamos diante daquele tipo de trabalho que prescinde de explicação. Nem adiantaria tentar. Este homem lidando com questões de seu pai na infância (também interpretado por ele), e tentando lidar com sua própria concepção de família no mundo, é uma história sobre apenas isso. Ponto. Um sujeito isolado em casebre na neve que pode ou não ser a “Sibéria” do título, e cujos melhores amigos são huskys siberianos (segunda vez que Dafoe atua com cães dessa raça, como em “Togo” do Disney Plus). A questão é que não importa onde de fato se passe a história.

O manancial diferenciado de imagens alegóricas em episódios de perambulância pelos espaços da memória, que podem ser transitados a bel prazer, é que surpreende aqui. Da neve ao deserto, das verdes florestas às profundas cavernas montanhosas…Uma insolitude que pode ser lembrada de exemplares como o chileno “Rei” de Niles Atallah e o canadense “O Quarto Proibido” de Guy Maddin e Evan Johnson, contudo aqui mais acessível e menos hermética do que nos cotados. Ainda mais porque Abel narra essa jornada com memórias incômodas que tensionam o espectador propositalmente, com corpos e identidades provocadoras, inclusive em linguagem decolonialista, encontrando com personagens indígenas, africanos e orientais, ou mesmo portadores de necessidades especiais, de modo a colocar o lugar de fala deste personagem em xeque-mate.

Se puder citar exemplos, quando um personagem aleatório no caminho de Dafoe, um ermitão ou talvez uma das facetas do mentor na jornada fragmentada do anti-herói ordinário, chega e pergunta se ele já experimentou as magias sombrias? Depois, questiona o protagonista se ele anda balançando o esqueleto ou se remexeu os quadris recentemente? A associação da dança como algo proibido ou autocensurado em nossos dias, ou mesmo ligado à magia obscura, decerto confirma que nos tolhemos socialmente de muitas coisas e já consideramos profano qualquer tentativa de autoconhecimento que nos individualize ou nos deixe desconfortáveis socialmente. E é neste ponto que surge uma incrível cena musicada, que talvez seja uma das melhores no Festival, quiçá a melhor. Ao som de Del Shannon (o qual Dafoe diz na coletiva de imprensa que foi seu primeiro disco LP na vida), a cena altera a linguagem da realidade e do cinema, nos levando de cavernas ou porões escondidos para uma ciranda primaveril com Dafoe a dançar com crianças floridas… Talvez uma estética também não associada costumeiramente à magia obscura, e aqui ironicamente perscrutando o que os infantes podem nos libertar de interditos proibitórios morais quando adultos (que talvez não nos tolhêssemos quando pequenos).

Esta fronteira além do moralismo faz com que Abel possa parecer pretensioso, todavia, é a auto-ironia que o liberta da pretensão… O tempo inteiro ele brinca com o próprio conceito, abrindo a bolha hermética para fora. Noutro exemplo, em cenas bastante sensuais, com leves doses de erotismo (até módicos, perante a experiência de Dafoe com “O Anticristo” de Lars Von Trier), vários corpos femininos formam um mosaico… Algo que na era de hoje poderia ser problematizado se elas fossem objetificadas sem subjetividades. Só que não apenas a beleza do mosaico possui uma assinatura artística muito autoral, como uma narrativa impressa em performance corporal, como a linguagem é o tempo inteiro irônica com isso. Esses corpos significam várias coisas para o protagonista, independente da beleza visual do quebra-cabeças, e que vai desde a sensualidade de uma gestante significando renovação (raro no cinema, vide um dos poucos exemplos no filme brasileiro “Boi Neon”), como o corpo mais velho de uma representação materna que se funde àquela excêntrica expressão coletiva…

Portanto, Abel se mostra mais faceiro e farsesco do que nunca, e solidifica sua parceria com Dafoe a mostrar que dois profissionais experientes que já viram e fizeram de tudo no cinema, inclusive juntos, ainda podem se reinventar como aqui em “Siberia”.

*originalmente publicado no Almanaque Virtual durante a Berlinale 2020:
almanaquevirtual.com.br/siberia-de-abel-ferrara-berlinale-2020/

coletiva com diretor e atores:
almanaquevirtual.com.br/berlinale-coletiva-de-siberia-de-abel-ferrara-com-willem-dafoe/