Silêncio

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08 de março de 2017

Discorrer sobre a eficiência cinematográfica de Martin Scorsese, cineasta responsável pela condução de filmes sempre listados entre os melhores de todos os tempos, é apostar em um discurso repetitivo. Para dar início a uma análise do novo longa de Scorsese, o épico religioso “Silêncio”, é mais adequado apontar a vocação cristã do homem por trás dele. O cineasta norte-americano, que chegou perto de traçar o caminho do sacerdócio, nunca fez questão de esconder a fé em Jesus Cristo como um de seus alicerces. Ainda menino, durante a formação de sua conduta cinéfila, a igreja e o cinema exerciam sobre ele o mesmo efeito — fascínio e paz de espírito. No tempo atual, onde o apego à fé parece um sentimento cada vez mais deslocado no individualismo cotidiano, Scorsese dirige um filme que tem como essência a defesa da crença, acima de qualquer dor e sofrimento, em um Deus vigilante e protetor. No entanto, como em toda cabeça pensante há dúvida e questionamento, não poderiam faltar tais elementos no cerne, e na crise, de “Silêncio”.

A motivação inicial do filme já é a descrença — dois padres portugueses, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver), enviados em uma missão de catequização no Japão do século XVII, não acreditam que o seu mentor, Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), tornou-se um apóstata após ceder às torturas extremas das autoridades japonesas, adeptas do budismo. Confrontados por essa dúvida, Rodrigues e Garupe decidem partir para o Japão, mais interessados no paradeiro de Ferreira do que na pregação católica. O silêncio que intitula o filme assume diferentes formas no decorrer de uma projeção longa (mas nem por isso cansativa), com suas quase três horas de duração. Na missão por territórios nipônicos, uma das características que mais impressiona os padres é a fé muda dos proscritos “kirishitans”, japoneses cristãos que exercem calados a sua religiosidade a fim de evitar as letais torturas dos tiranos. Em contínuo contato, o silêncio dos “kirishitans” acaba se tornando o mesmo dos missionários que devem respeitar o isolamento, em uma precária cabana no meio do nada, se quiserem continuar vivos. Não é só a quietude humana que deixa sua marca. O silêncio fundamental, fomentador da dúvida que molesta Sebastião, em dado momento separado de Francisco, é o que mais importa — a mudez absoluta de Deus diante de tanta penitência humana. As imagens são fortes: homens crucificados, abandonados para a chegada de uma morte lenta, em nome da própria fé. O silêncio de Deus, o mesmo que alimentou o cineasta sueco Ingmar Bergman em uma carreira de suma importância, retorna aqui e agora para despertar um questionamento — há mesmo uma voz que acalenta ou a fé ilude seus adeptos? Se duvidar da existência de Deus é pecar, Sebastião deverá preparar sua confissão.

Católico assumido, Martin Scorsese conta essa história, escrita pelo japonês Shusaku Endo, sob a perspectiva da sua religiosidade, mas consegue afastar “Silêncio” do maniqueísmo. Na intolerância religiosa retratada no filme destacam-se pessoas, semelhantes pelo simples fato de serem seres humanos, guerreando para provar qual é a religião capaz de levar à transcendência. Nesse contexto de incomunicabilidade, não há espaço para o posicionamento de mocinhos e vilões — se o oriental mata com truculência, o homem ocidental limita-se a observar, mesmo angustiado. Cabe dizer que, por menos tendenciosa que seja a abordagem, um crucifixo, menor que a palma de uma mão, é essencial para compreender a grandiosidade da crença cristã de Scorsese. Quem ver o filme logo entenderá. Por último, mas não menos importante, é a atuação de Andrew Garfield. Com um desempenho moldado pelo esforço do corpo e a sensibilidade da alma, o ator não se perde nos planos precisos comandados pelo tarimbado cineasta. Existe ali uma interação capaz de botar inveja em gente como Leonardo DiCaprio e Robert De Niro, primordiais intérpretes na carreira de Scorsese.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5