‘Simonal’: O deboche da bossa – Tchau, Querido!

Dirigido por Leonardo Domingues, longa é uma das estreias desta quinta-feira, dia 08.

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09 de agosto de 2019

Zeca Seabra – 08/08/2019.

Wilson Simonal de Castro era detentor de uma qualidade vocal impecável, tinha talento nato para a pilantragem e era repleto de bossa e suingue fatores que alavancaram seu sucesso nas décadas de 60/70, auge da regime militar, época onde os representantes negros da MPB eram relegados ao samba. Considerado o quarto melhor cantor brasileiro de todos os tempos pela revista Rolling Stone Brasil, sua trajetória é contada nesta cinebio, dirigida com brilhantismo por Leonardo Domingues, montador do excelente documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei (2008), imprescindível como elemento complementar e base argumental do roteiro escrito por Victor Atherino.

“Simonal” segue a trilha tradicional das biografias musicais, mas com um amplo diferencial. Há nesta história um forte apelo narrativo que serve de base para especulações e conclusões que ultrapassam uma simples trajetória artística alcançando discussões bem atuais. Após um imblóglio envolvendo o temido Departamento de Ordem Política e Social (o famoso DOPS) e a tortura de seu contador, Simonal foi excluído do cenário musical brasileiro, vivendo no completo ostracismo e tentando desesperadamente provar sua inocência até sua morte prematura em 2000 aos 62 anos.

Leonardo Domingues, debutando em longas de ficção, mostra que aprendeu muito bem a lição primordial da gramática cinematográfica preenchendo a narrativa com interessantes imagens coloridas de arquivo, uma impecável reconstituição de época e incríveis planos sequências. Dividido em duas partes distintas, ascensão e queda, este é um filme feito e pensado para a tela grande com enquadramentos, na maioria, em planos fechados, noção fundamental para entender a personalidade arrogante e o despreparo de Simonal, um artista cujo umbigo era o centro das atenções.

Como em toda cinebio, há uma preocupação em contextualizar os acontecimentos com informações sobre o período em que a história se passa e glorificar o personagem colocando-o como vítima, mas é interessante notar que aqui o regime militar nada teve a ver com o caráter dúbio do artista. Se valendo da condição racial e social (negro, pobre e perseguido), Simonal acendeu um fósforo num barril com litros de gasolina promovendo, deste jeito, um incêndio de proporções catastróficas. Foi como colocar a cabeça na boca de um tubarão apenas para testar sua insolência e se assustar porque foi mordido.

O mais incrível é analisar como o contexto deste filme é absolutamente pertinente com o quadro atual brasileiro onde a esquerda se faz de vítima para esconder seu fracasso ideológico adotando uma postura de perseguição política com atitudes ambíguas e argumentos até hoje sem explicações.
Simonal foi um artista extremamente popular que comandava massas com seu suingue sedutor, mas não soube conduzir a administração do seu patrimônio, gastando excessivamente sem nenhuma fiscalização. Abusado e insolente, ele acusou parceiros e colegas de corrupção e desvio de verba, promoveu fake news sem fundamentos para se livrar de um grave delito, foi preso e sofreu um impeachment artístico decretado pelas mesmas pessoas que o idolatravam.

É só ligar os pontos e constatar que a irresponsabilidade e o mau-caratismo são vícios de pilantras que não estão preparados para governar uma carreira seja em qualquer área. Apesar do talento, Simonal fez besteira sim e é de extrema importância que exista filmes como este que justifiquem o perigo de adotar posturas de prepotência e atrevimento sem assumir os erros de uma administração trágica. Simonal era o deboche em forma de bossa. Tchau, querido.

‘Simonal’
Brasil, 2018. 105 min.
Direção: Leonardo Domingues
Com: Fabrício Boliveira, Ísis Valverde. Caco Ciocler, Mariana Lima, Leandro Hassun

Avaliação Zeca Seabra

Nota 4