Sinónimos

Co-produção entre França, Israel e Alemanha, do realizador israelita Nadav Lapid, vence o Urso de Ouro de Melhor Filme da Berlinale 2019

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02 de junho de 2019

Identidade. Pertencimento. Lugar de origem. Lugar por eleição. Estes, são alguns temas muito caros, próprios; e que sempre geram grandes conflitos em nossa sociedade contemporânea. Quem somos? De onde viemos? Onde é que nós queremos estar? Qual é o território que melhor se encaixa para cada um de nós nesta esfera terrestre, e não nesta terra plana, obviamente? Seja ele por escolha, falta de opção, ou simplesmente pela busca de sobrevivência. Algumas destas opções irão encontrar sempre um cidadão para preencher todos, ou alguns, dos seus requisitos. Assim é também a história de Yoav. Personagem central do filme vencedor do Urso de Ouro de Melhor filme da Berlinale 2019; e escolhido também como Melhor Filme pela Fipresci da crítica internacional: Sinónimos no original Synonymus, – terceiro filme do israelita Nadav Lapid.

No filme, o ator Tom Mercier, ainda como estudante de teatro, foi descoberto e fez a sua estreia profissional no filme de Lapid – já um grande mérito, e trunfo, para a concepção do filme, que ao invés de fazer a opção desastrosa de ficar buscando pessoas comuns para protagonizarem filmes, foi buscar um ator iniciante, porém com os princípios, e os fundamentos, das artes cênicas. Cru na sétima arte, mas não em interpretação. Ele já era versado na arte do ator! Desta maneira, para viver o papel de um israelita que decide abandonar o seu país, extirpá-lo como um câncer, e reconstruir a sua vida na França; e a carregar consigo uma vontade sólida e consistente, em não mais falar uma única palavra em hebraico, o fez repetir o mesmo caminho da fonte inspiradora do filme, uma autobiografia de Nadav Lapid – roteirizada por ele e por Haim Lapid -, e mudou-se para Paris. Estudou francês para se preparar, meses antes do início das filmagens. Em Sinónimos sua personagem resolve comprar um dicionário de hebraico-francês, e passa a decorar as palavras, os seus sentidos, e os seus sinônimos. Em sua trajetória em Paris, segue uma grande odisséia, ou poderíamos dizer talvez, uma grande batalha travada entre Israel x França, ou seria na verdade em sua mente, uma “guerra semelhante entre a da Grécia x Tróia”. Quem é Yoav? Será ele um judeu? “Um novo francês”?  Ou será ele o  próprio “presente grego”: um gigantesco Cavalo de Tróia, a andar pelas ruas de Paris. Não por acaso que uma das histórias que ele conta – diga-se de passagem, ele é um contador de muitas histórias sobre o seu caos interno, e sobre a guerra que o afugenta -, aos seus novos conhecidos, o duvidoso casal de amigos, é a recorrente história mitológica do grande guerreiro e Príncipe Heitor. Na Ilíada, Homero chama Heitor de “domador de cavalos”, porque, de modo geral, Tróia era conhecida por ser criadora de cavalos. Na narrativa da Ilíada, no entanto, Heitor nunca é visto com cavalos. Outro epíteto que lhe é característico é o do “elmo flamejante”. A sua força, coragem e eficiência na guerra foram enormes! Nos poemas épicos de Homero, Heitor é responsável pela morte de 28 heróis gregos; nem Aquiles, obtém um número tão grande (22 heróis troianos caíram a seus pés). Pela voz do Destino, os troianos estavam informados que as muralhas de Tróia nunca cairiam enquanto Heitor se mantivesse vivo. E após uma batalha épica entre Heitor e Aquiles, Heitor é morto, e como um grande herói, é arrastado em sua carroça, por suas mãos amarradas por cordas, e exibido como um imenso troféu. Imagem também reproduzida na guerra em Israel, e que ele também a mantêm viva em suas memórias. Teria ele o espírito do próprio Heitor, lutando bravamente contra todo o exército francês, com o seu “elmo flamenjante”?

O ator israelita Tom Mercier foi descoberto pelo diretor Nadav Lapid como um estudante de teatro, em uma escola de formação em Israel.

O ator israelita Tom Mercier foi descoberto pelo diretor Nadav Lapid como um estudante de teatro, em uma escola de formação em Israel.

 

Yoav (Tom Mercier) com os seus estranhos amigos franceses, vividos pelos atores Quentin Dolmaire, Louise Chevillotte.

Yoav (Tom Mercier) com os seus estranhos amigos franceses, vividos pelos atores Quentin Dolmaire e Louise Chevillotte.

A pessoa se distancia de seu lugar de origem mas traz toda a guerra dentro de si. Na busca por um território novo, mantém seus hábitos militares e agora de sobrevivente, a calcular, milimetricamente, os seus ínfimos gastos, em seu econômico e invariável prato de comida do dia a dia. Poções calculadas por cada cêntimo gasto e valorizado. Uma prática muito comum à refugiados, imigrantes e àqueles que iniciam uma nova vida com o seu orçamento estrangulado. Já em sua chegada um fato ocorre e ele acaba por receber um confortável “enxoval de sobrevivência”. Daqueles que certamente são os seus algozes e supostamente seus salvadores. Daí surge uma intrincada relação. Todos parecem se servir de todos. Os franceses de origem, parecem tão refugiados quanto ele. O cenário de tudo isto é uma Paris cinzenta, e a direção de Lapid busca explorar bem essa vocação do cinema francês de reflexão, questionamentos, filosofias e existencialismos; um cinema da Nouvelle Vague. Vemos em Sinónimos muitos dos confrontos que permeiam as questões dos imigrantes. A invisibilidade, a adequação e readequação dos direitos e dos deveres de um cidadão francês. Ainda que Yoav queria esquecer brutalmente as suas origens, ao comprar um dicionário de francês-hebraico, e se recusar a falar qualquer palavra de sua antiga origem; na teoria, a prática é bem outra. Falar francês não parece de fato ser a tarefa mais difícil. Difícil é viver na França, como vive um francês.

 

O filme de Lapid tem uma atmosfera de grande sofisticação, uma linha melódica, pontual, e de muito bom gosto. A obra é tratada como um recorte esgarçado do dia a dia, com tempos longos e naturais, de um cidadão que busca migrar a sua alma e o seu corpo para a nação francesa. Com dois efeitos de câmera, um desfocado, e outro tremido; cria também um plano antológico de Yoav em uma boate, em busca de alimento para o estômago, em uma pista de dança ao som bombástico de “Pump Up The Jam” do Grupo belga Technotronic; clássico das boates de todo o mundo, nos anos 90. Na tradução de todo este universo temos a potência juvenil de Tom Mercier como Yoav, e uma força interna vulcânica de um jovem ator que se desnuda física e moralmente, para mergulhar profundamente nesta busca abissal de tornar-se um cidadão francês, e lutando heroicamente, contra inimigos visíveis, invisíveis, e armas ainda desconhecidas, como um guerreiro de mitologia grega, em pleno contexto europeu do século 21.

Ficha técnica

Título Original
Synonyms

Data de Estreia
16 de Maio 2019

Duração
2h03

Género
Drama

Realização
Nadav Lapid

Argumento
Nadav Lapid, Haïm Lapid

Elenco
Tom Mercier, Quentin Dolmaire, Louise Chevillotte

País
França, Israel, Alemanha

Lingua
Frânces, Hebraico, Alemão

Ano
2018

Classificação Etária
M/14

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 4