Sob as Sombras

O cinema iraniano volta a investir com competência nos filmes de gênero

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16 de outubro de 2016

Conhecida pela temática local, a filmografia iraniana vem se destacando mais recentemente também pelas suas incursões no cinema de gênero, especificamente o terror. Depois de “Garota sombria caminha pela noite” (2014), de Ana Lily Amirpour, ter sido sensação em Sundance e arrebatado prêmios ao redor do mundo com sua metáfora sobre o feminismo, o país nos apresenta, agora, “Sob as sombras” (2016), produção que flerta abertamente com o cinema norte-americano.

Sob as Sombras

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Em seu longa-metragem de estreia, o diretor Babak Anvari apresenta a história de Shideh. Expulsa do curso de medicina depois de se envolver com um grupo militante de esquerda, ela se vê obrigada a cuidar sozinha da filha, Dorsa, quando seu marido é convocado para atuar em uma zona de conflito durante a guerra Irã-Iraque. Após o prédio onde reside com outras famílias ser atingido por um míssil defeituoso, eventos estranhos passam a dominar o ambiente e o comportamento de Dorsa, a despertar a preocupação da mãe.

Sob as Sombras

Sob as Sombras

A narrativa se desenvolve no final dos anos de 1980, e o trabalho de reconstituição de época valioso. Shideh mantém a forma se exercitando com as fitas VHS de Jane Fonda e ter um aparelho de videocassete em casa é um símbolo de status tão expressivo que Dorsa é proibida de contar a estranhos sobre isso. O grande mérito da obra, porém, é a forma como trabalha com os clichês do gênero, adaptando-os para uma perspectiva asiática sem que isso confunda a audiência. Assombrada por Djinns, entidades sobrenaturais mencionadas no próprio Corão, a protagonista se vê entre fenômenos inexplicáveis pela razão humana e a própria descrença, inerente ao conhecimento científico que ela possui, em um conflito que gradativamente impulsiona a narrativa.

Sob as Sombras

Sob as Sombras

O bom uso do som cria a atmosfera de tensão necessária e funciona como pista dos acontecimentos seguintes para o público. Apesar disso, essa antecipação dos fatos não causa prejuízos ao filme, que se estrutura sobre um roteiro consistente e sem arestas aparentes, recheado de referências aos filmes que lhe serviram de inspiração.

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Sob as Sombras

Em um tempo de produções hollywoodianas tão rasteiras, é um alento saber que outros países consigam absorver a inegável influência norte-americana e produzirem obras de tanta qualidade.

Festival do Rio 2016 – Midnight Movies

Sob as Sombras (Under the Shadow)

Irã/Jordânia/Qatar/Reino Unido, 2016, 84 minutos

Direção: Babak Anvari

Com: Narges Rashidi, Avin Manshadi, Bobby Naderi, Ray Haratian, Arash Marandi

Avaliação Celso Rodrigues Ferreira Junior

Nota 4