Sobre Ratos e Homens

Kiko Marques encena um dos mais impactantes e contundentes espetáculos de nossa temporada carioca

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06 de maio de 2017

Esteve em temporada no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, entre março e abril, “Sobre Ratos e Homens”, um dos mais impactantes espetáculos deste início do ano na cidade do Rio de Janeiro. O clássico americano de John Steinbeck (ganhador dos prêmios Nobel e Pulitzer), é dirigida pelo carioca, radicado em São Paulo Kiko Marques. Nascido em uma família de classe média, ainda que não pobre, o autor John Steinbeck, presenciava a luta dos trabalhadores da cidade de Salinas – onde nasceu em 1902 -,  e do fértil Vale de Salinas, centros agrícolas a cerca de 20 quilômetros do oceano Pacífico. No início de sua carreira, trabalhou em uma série de bicos, como zelador de uma propriedade no lago Tahoe, técnico de laboratório, pedreiro na construção de Madison Square Garden e repórter diário de um periódico nova-iorquino. Durante a estada em Nova York, escreveu seu primeiro romance, Cup of gold (publ­i­cado no Brasil como Tempos passados), em 1929.  As histórias bem-humo­radas sobre a vida de paisanos (descendentes de espanhóis misturados, muitas vezes, com mexicanos, índios e caucasianos) que viviam na chamada Planície Tortilla de Monterey, próximo à fronteira mexicana, mostraram-se um alento para os americanos oprimidos pela crise. Durante a depressão, litera­tura e cinema serviam de escape para muitos. Experimentador incansável, Steinbeck mudou os rumos da sua literatura várias vezes. Entretanto, já nessas suas primeiras obras via-se o fio condutor que permearia toda a sua literatura: observação social, de cunho realista, das camadas de trabalhadores de classe baixa, às vezes miseráveis, mantidos no limbo do sistema econômico. Mas, se a preocupação literária de Steinbeck voltava-se especificamente para grupos de trabalhadores de algumas regiões norte-americanas, faz-se necessário dizer que seus personagens recebiam tratamento tal que, mais do que as agruras de um tipo de homem localizado especificamente no tempo e no espaço, Steinbeck fazia tais personagens exemplares dos mais universais sentimentos humanos: a luta pela dignidade humana, a dificuldade das relações de afeto frente à crueldade do mundo e da vida, e a solidão, na sua acepção mais ampla e passível de ser compartilhada por todos os homens. No início da década de 50, Steinbeck apresentou ao público o romance East of Eden (1952) – traduzido no Brasil como Vidas amargas-, uma saga sobre uma família do Vale de Salinas com toques autobiográficos. Ele recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1962. A preocupação social de Steinbeck ia além da es­co­lha dos assuntos de suas ficções: ele registrou literariamente, nos diálogos dos seus personagens, também a peculiariedade da linguagem dos diversos grupos de trabalhadores por ele retratados. Faleceu no dia 20 de dezembro de 1968 em Nova York.

_Sobre Ratos e Homens - Ricardo e Ando - foto de Luciano Alves (1)
_Sobre Ratos e Homens 2 - Ricardo e Ando - foto de Luciano Alves (2)

Os amigos George e Lenine – Ricardo Monastero e Ando Camargo -, em cena de “Sobre Ratos e Homens”. Foto 1 e 2 de Luciano Alves.

O texto “Sobre Ratos e Homens” de Steinbeck é de grande realidade crua, com uma construção de diálogos repletos de aridez e aspereza para contar-nos a história de George e Lennie, – em um mundo americano pós-depressão de 1929 e em plena recessão, e profunda crise -: o primeiro de raciocínio ágil e o segundo, tão forte quanto ingênuo, unidos pelo sonho de trabalhar, juntar dinheiro e comprar um pedaço de terra onde possam finalmente viver. Forçados a lidar com a realidade, só a verdadeira amizade permitirá que continuem sonhando. George e Lennie são dois amigos bem diferentes. George tem os olhos inquietos, é astuto e determinado; já Lennie é dotado de enorme força física, mas com algum atraso intelectual e tremenda ingenuidade. Forçados a lidar com a realidade, só a verdadeira amizade permitirá que continuem sonhando. No enredo repleto de tensão masculina, a única mulher em cena é Mae, a esposa de Curley, o filho do patrão. Ela joga com seu charme e persuasão para desestabilizar a ordem dos funcionários da fazenda. É sobre ela que se estabelece o conflito clímax da trama. Potencializando a relação de dois amigos comuns, oriundos de uma classe baixa, Steinbeck aproxima a plateia da classe dos oprimidos, dos explorados, dos trabalhadores, dos desempregados, do povo que luta para sobreviver. Dando foco central a personagens não heróis, fantasiosos ou nobres, em riqueza e alma; mas sim a homens comuns, a anti-heróis. Heróis da resistência, heróis da sobrevivência. Podemos ver no texto muito bem construído as mesquinharias dos seres humanos, os sentimentos mais sórdidos, brutais, quase animalesco e selvagem. Um mundo de cão, sem ordem; onde a sobrevivência é a única opção possível. Seja a que preço for, a que valor for. Steinbeck nos apresenta um mundo repleto de humanidades e de gente torpe, um mundo onde as dores e sofrimentos mascaram e endurecem os sentimentos. Um mundo onde todos são opressores e oprimidos, onde todos passam pelo círculo do poder, que se alterna em cada uma das relações entre bem-sucedidos e maus-sucedidos, entre maus-sucedidos e mais maus-sucedidos ainda. Todos se confrontam com todos, todos estão em sua grande selva particular, e em uma grande selva que os engole. E ainda assim existe um filete de amor, seja no amor que une os dois amigos, como no amor que também une um idoso ao seu animal já bastante debilitado. Podemos enxergar nobreza e fidelidade, no meio desta grande crise, até o fim, diante ao descarte ao animal velho,  ao inútil, ao sem serventia. Que ora é o animal, ora é o próprio homem velho, deficiente, o negro escravo aleijado, a mulher como serpente sedutora, como um ser mais inferior do que qualquer um dos seres masculinos inferiores. Onde em um efeito dominó, todos massacram todos, julgam todos, condenam todos e também executam “as próprias penas”. Tudo isso sendo visto e apresentado através da saga de dois amigos inseparáveis, em uma relação misturada entre ódio e amor, com grandes doses de perigos iminentes, e um clima trágico a pairar no ar. Como se todas as possibilidades só levassem a este mesmo fim, o fim de um mundo de sonhos partidos, interrompidos. Com um material desta grandeza, o excelente diretor Kiko Marques realizou uma encenação absolutamente sufocante, densa, erma e visceral; seja pela escolha de uma cenografia de Marcio Vinicius, toda talhada na paleta de cores no tom de terra, e na escolha de madeiras rústicas na construção de uma espécie de senzala, com palhas, troncos de madeira, bacia de ferro; nos tecidos envelhecidos, crus, e que nos traz um peso de ancestralidade e de antiguidade ao ambiente selvagem e realista, de Fabio Namatame. Como em uma fotografia em tom de sépia. Tudo no espetáculo é de uma coesão absurda. Tudo funciona harmonicamente entre as áreas técnicas. Todos falam a mesma linguagem em voltagem altamente teatralizada: a luz discreta, sombreada, branca, âmbar e azul de Guilherme Bonfanti.

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Alguns dos oprimidos e opressores, de camadas e raças diferentes, em cena de “Sobre Ratos e Homens”. Foto de Luciano Alves.

No campo da atuação Kiko conseguiu construir a encenação como em um tabuleiro de xadrez, onde todos as peças – corte e os peões -, andam casa a casa, até chegar ao xeque-mate anunciado. Todos os atores tem uma participação muito precisa e efetiva para o jogo cênico. Um alimentando um ao outro, e desenhando com perfeição cena a cena, todas as tramas desta saga quixotesca. Ricardo Monastero e Ando Camargo constroem uma relação muito sólida, verdadeira e orgânica. Na medida exata do fantasioso e o patético, até chegar ao final surpreendentemente fiel até a última ação, que nos deixa profundamente amargurados e com um grande nó na garganta.  Natallia Rodrigues, Tom Nunes, Cássio Inácio Bignardi, Roberto Borenstein, Pedro Paulo Eva e Thiago Freitas, compõem o elenco com muita propriedade, e cumprem muito bem todos os seus papéis neste jogo de quebra-cabeças.

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A luta de classes explícita, e implícita, em “Sobre Ratos e Homens”. Foto de Luciano Alves.

Kiko Marques é um dos grandes artistas que temos neste país, e que tem construído ano após ano, uma das mais bonitas histórias em nosso teatro paulista e brasileiro. Sua assinatura é sempre sinônimo de uma obra de grande seriedade, teatralidade e de muitas inteligências cênicas. “Sobre Ratos e Homens” já se inscreve entre as peças mais importantes de nossa teatrologia.

 

Serviço

Temporada finalizada em 30 de abril no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro – Teatro 1.

 

Ficha técnica 

Direção Artística: Kiko Marques.

Elenco: Ricardo Monastero, Ando Camargo, Natallia Rodrigues, Tom Nunes, Cássio Inácio Bignardi, Roberto Borenstein, Pedro Paulo Eva e Thiago Freitas.

Cenografia: Marcio Vinicius.

Figurinos: Fabio Namatame.

Trilha Sonora: Martin Eikmeier.

Iluminação: Guilherme Bonfanti.

Visagismo: Raphael Cardoso.

Maquiadora: Chloé Gaya.

Contra Regra: Sidney Felippe.

Técnica de Som: Carol Andrade.

Técnica de Luz: Kuka Batista.

Comunicação Visual: Cristiano Canguçu.

Fotos: Luciano Alves.

Gestão de projeto e Sustentabilidade: Celso Monastero.

Coordenadora Administrativa: Sonia Odila.

Assessoria Jurídica: Francez e Alonso Advogados Associados.

Direção de Produção: Antonio Ranieri.

Patrocínio: Banco do Brasil.

Realização: Centro Cultural Banco do Brasil.

Produção: Dendileão Produções Artísticas.

 

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 5