Sobre remake de Mulan, Rei Leão e Live Actions da Disney

Até onde vai a originalidade nestes retornos de clássicos da animação em filmes de carne e osso e o quanto estamos ou não atualizando debates de temas como questões de gênero, raça e sexualidade nos personagens da Disney para as novas gerações?

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10 de julho de 2019

Já que não dá pra evitar a existência destes live actions da Disney, eles bem podiam aproveitar e atualizar o texto um pouquinho, não é verdade…? Vamos começar falando um pouco sobre as mais recentes polêmicas desde os anúncios sobre o novo remake da Disney em live action: “Mulan”.

Havíamos postado recentemente aqui no Almanaque Virtual um texto sobre as escolhas de elenco do live action vindouro de “A Pequena Sereia”, inclusive debatendo sobre a possibilidade da escalação de uma atriz Drag Queen para a personagem da vilã Úrsula, já que originalmente na animação clássica a personagem foi desenhada com inspiração em personagens drag queens da vida real… (leia sobre isso aqui). Mas questões de gênero e sexualidade não param em “A Pequena Sereia”, e continuam na verdade em outras obras como o recente anúncio de “Mulan”. Na trama, para quem se recorda do original, a premissa básica é sobre uma personagem feminina que precisa se travestir de homem para substituir o pai na Guerra e defender a honra da família (já que mulheres eram proibidas e seu pai estava bastante enfermo). Uma vez no campo de batalha, seu comandante, Li Shang, aparentemente hétero, fica surpreso por se apaixonar por Mulan… Afinal, a heroína estava sendo apresentada dentro de um arquétipo da reprodução de gênero masculino. Li Shang não se apaixona por ela como mulher, e sim como homem.

Mas já paramos para imaginar as possíveis repercussões disso no mundo real? Como seria se as evoluções contemporâneas de gênero e sexualidade pudessem imergir nos filmes da Disney — ainda mais para uma juventude que anda vindo super ansiosa por debater mais e mais estes temas LGBTQIA+ de forma mais naturalizada e menos exotificada nas tramas. Como seria interessante se Shang entendesse dentro de toda a rigidez sisuda herdada militarmente de seu pai que ele na verdade se sente atraído por homens, e que Mulan no final podia se tornar sua melhor amiga, pela qual ele seria eternamente grato por ter trazido luz à esta questão. Eles até convidariam um ao outro pro casamento do melhor amigo, ou nem precisam casar, afinal, Mulan já terá o amor de toda uma Nação, pra quê mais?!?!

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E gente, não estou com isso dizendo que também não apreciaria a opção dramatúrgica de ele ser bissexual…

Só que bi nesse caso talvez passasse despercebido. A Disney jamais iria assumi-lo desta forma e simplesmente recairia no velho caso de que “ele se apaixonou pela essência dela” e ficaria com ela de qualquer forma com que ela se apresentasse, o que reforça o estereótipo do “amor romântico resolve todas as paradas” — ou apenas fariam como tiradas subversivas igual ao final de “Quanto Mais Quente Melhor” ou “As Branquelas”…. — Já a opção de ele ser gay seria de fato assumirem um posicionamento.

Mas é realmente um absurdo escritores não aproveitarem esses desenvolvimentos dramatúrgicos riquíssimos pros personagens apenas por puro preconceito ou por ordem da máquina produtora….

E sim, também li sobre a ausência do Dragão Mushu…. Mas acho que por trás das reclamações, muito mais até do que os fundamentos super bem embasados como este do Mushu (de que o personagem da animação original caricaturizava e deturpava um símbolo divino de enorme respeito na cultura deles apenas para ser alívio cômico), isso mostra, na verdade, as verdadeiras garrinhas conservadoras e retrógradas com que muita gente se prende ao passado como único codificador conhecido….

Até mesmo o personagem Li Shang não vai se chamar Shang, pois foi o nome que deu origem à escravidão na China, e isto é uma atualização positiva que respeita a história da cultura retratada. Mas o personagem já foi confirmado e irá sim permanecer como par romântico de Mulan (só não terá o nome Shang, e o novo nome ainda não foi anunciado).

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O que seria mais curioso sobre tudo isso é que a cada mudança anunciada pela qual as pessoas se desesperam por modificar as animações originais, como a ausência do Dragão Mushu em “Mulan”, ou a atriz Halle Bailey interpretando Ariel em “A Pequena Sereia”, deveríamos na verdade é estar comemorando, pois não precisamos de mais cópias descaradas dos desenhos. Quanto mais diferenças, mas chances de ser uma nova obra original!

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A mesma coisa está se dando com o remake de “O Rei Leão”, porém por outras razões: por questões de racialidade e africanidade. O filme nos EUA está tentando investir em demonstrar representação mais plural (que algumas matérias estão creditando como o elenco mais negro na história da Disney, mesmo apenas doando suas vozes para o filme), com artistas bastante conscientes e engajados, como Beyoncé, Donald Glover (Childish Gambino), Chiwetel Ejiofor etc… — E já há textos interessantíssimos que também irei linkar abaixo debatendo esta mudança, inclusive textos brasileiros com fundamentação diversificada (link logo abaixo). — uma herança não do filme de 1994, mas do musical da Broadway, que foi o primeiro a realmente resgatar o que a animação original havia invisibilizado, como um elenco predominantemente negro e as influências não de Shakespeare/Hamlet, e sim Mandela, do fim do Apartheid e da região de Lebo (tudo em links abaixo) — o que foi anunciado que o novo filme iria absorver mais do que a animação de 1994…

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Da mesma forma que o Brasil tentou reproduzir isso nos dubladores, como Iza e Ícaro Silva como Nala e Simba, além de contar no elenco ainda com João Acaiabe, Graça Cunha, Carol Crespo, Robson Nunes, Carol Roberto etc… Também um elenco de peso e engajado, e já prestando entrevistas sobre a necessidade de mudanças nas dublagens para reconhecer mais este ponto cego do racismo estrutural na dublagem igualmente.

Infelizmente as cabeças de equipe na direção e roteiro são ainda formados por maioria de homens e mulheres brancas, mesmo que exemplos como de Brenda Chapman, enfim recebendo o devido crédito, sejam paralelamente lutas bem longas em Hollywood com seu respectivo valor, desde que Brenda foi invisibilizada e não creditada como a principal diretora de “Valente”.

Mas talvez esta seja uma possibilidade de reapropriar e ocupar o imaginário contemporâneo em blockbusters com esta brecha, pois ainda não sabemos nem temos como dizer, mas é bem possível que as novas gerações sejam embebidas de maiores possibilidades através desta cultura de massas para ajudar a revolucionar o sistema.

Seguem links abaixo:

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