Sofia (42° Mostra de SP)

Colisão de culturas e classes

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24 de outubro de 2018

“Sofia” da diretora Meryem Benm’Barek-Aloïsi ganhou o prêmio de roteiro na Mostra Um Certo Olhar em Cannes 2018 e está na programação da 42° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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Um filme meio a meio. Por um lado: Uma abertura promissora, uma tensão inicialmente bem construída, um contraste intrigante sobre o encontro de culturas estrangeiras: de um lado um conservadorismo ainda dogmático especialmemte em relação às mulheres em Casablanca no Marrocos e, do outro lado, a vanguarda com vestígios de neocolonização europeia proveninete da França. E este contraste existe tanto dentro da história do filme “Sofia” quanto no extracampo, na equipe da coprodução entre estes países e culturas diferentes.

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Acontece que a síndrome do estrangeiro salvador ou da influência ocidental moderna como rompimento da tradição enregelada vem sem muito senso de autocrítica, apesar de as personagens com esta síndrome às vezes fazerem tanto mal com sua boa intenção mal colocada quanto as outras personagens impregnadas em sistemas retrógrados. E a principal questão mesmo é que a partir da revelação da reviravolta até que interessante na intenção por trás de algumas decisões e escolhas do filme, a tensão outrora tão bem trabalhada é deixada de lado e a superficialidade com que algumas personagens são trabalhadas de forma rasa passam a enfim afetar o desenvolvimento da história, justamente quando os coadjuvantes são necessários após a revelação principal.

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Sobre a trama em si é melhor revelar o mínimo possível, até menos do que a sinopse oficial revela, bastando dizer que a personagem título Sofia interpretada por Maha Alemi (que demora a engatar, talvez presa pelo dispositivo da reviravolta, mas quando o faz até que alcança eficiência) carrega um segredo que vai botar a sua posição perante a família e o status social dos mesmos em risco…colapsando um sistema arcaico do qual dificilmente se tem escapatória, principalmente para as mulheres.

Ainda assim, é sempre um prazer ver a atriz de “Incêndios” Lubna Azabal, que é Lubna Azabal é uma atriz belga, nascida em Bruxelas, filha de pai marroquino e mãe espanhola, ou seja, encaixando-se como uma luva no espírito do projeto. Mas quem rouba a cena é Sarah Perles, personagem da filha de Lubna, prima da protagonista, cuja imponência de classe consegue ampliar o abismo com que certas coisas irão refletir especialmente nela a partir de determinado momento da trama. Pena que o desfecho acaba sendo tão simplório para, muito mais importante do que amarrar pontas soltas que continuam intencionalmente soltas, gerar uma catarse que permanecesse de fato após a sessão.