O Soldadinho de Chumbo

Grande oportunidade em conhecer o TIL, uma das maiores cias de teatro infantil de Lisboa, e ao seu onírico espetáculo

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01 de março de 2018

A minha primeira incursão ao teatro para a infância e juventude português, causou-me grande contentamento e alegria. Fui assistir ao espetáculo musical O Soldadinho de Chumbo produzido pelo TIL – Teatro Infantil de Lisboa -, com direção artística do encenador Fernando Gomes, no ótimo equipamento teatral Teatro Armando Cortez/Casa do Artista. O projeto é uma adaptação do conto do escritor e poeta dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875). No original de Andersen um menino, recebe de presente uma caixa com 25 soldadinhos de chumbo, e o último deles tinha apenas uma perna. Próximo a ele, havia uma bailarina de papel que se equilibrava somente em uma perna. O soldadinho termina assim por acreditar que a bailarina também tinha uma única perna, e se apaixona por ela. A meia-noite, quando todos foram se deitar, um gênio do mal, um dos brinquedos do quarto – aquele que serve para assustar – advertiu o soldadinho para que ele não olhasse para a bailarina. No dia seguinte, o soldado caiu da janela, por um feitiço do gênio e ficou na calçada. Dois meninos encontraram o soldado, e o colocaram num barquinho de papel e o lançaram pela sarjeta. O barquinho caiu no esgoto, onde encontrou uma ratazana que lhe pediu um passaporte para prosseguir -, e continuou a navegar até cair em um rio, onde foi engolido por um peixe. Quando este peixe foi pescado e cortado, o soldado estava na mesma casa de antes, e colocado de volta próximo à bailarina. Sem querer ele cai no fogo e um vento sopra e derruba também a bailarina no mesmo fogo; ela é consumida instantaneamente, somente restando o coração de pedra azul. O soldado derrete numa poça em forma de coração e se prende no coração da bailarina. Entretanto na montagem portuguesa do TIL o texto – assinado por Fernando Gomes -, mantêm a espinha dorsal da obra original, e busca retratar, de uma forma mais direta e romantizada, a história da atração dos contrastes, e com ênfase nas diferenças. Onde um soldado “perneta”, conforme é chamado por todos que o veem -, se une apaixonadamente a uma bailarina, que ele julgava ser a sua metade. Uma história de amor que encontra nesta montagem um final feliz e ajustado a este mundo de seres únicos e diferentes. Onde podemos encontrar um par em algum lugar do universo, seja ele no mundo real ou no mundo da fantasia entre um soldadinho de chumbo e uma bailarina de papel.

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“O Soldadinho de Chumbo” apresenta muito cuidado em todas as suas áreas técnicas, como cenografia, luz, figurinos e atuação.

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O casal protagonista, Maria Curado Ribeiro como a Bailarina e Tiago de Almeida como o Soldadinho, desempenha um bonito papel em cena.

A encenação também de Fernando Gomes constrói um muito competente musical com pitadas de assombração, muita comicidade, números coreografados e canto ao vivo. Chama-nos bastante a atenção a qualidade e o bom gosto dos elementos cênicos; além da muito boa condução do elenco. A cenografia de Kim Cachopo é absolutamente bela e bem executada. Nos remete verdadeiramente à um mundo de nossas reminiscências infantis, à um universo onírico, com direto a pierrot, colombina, clown, robot, urso e boneca de pano, que falam e tomam vida. Nos lindos brinquedos de nosso quarto, guardados para sempre em nosso imaginário da infância. Um mundo inverso dos hoje vídeo games, tablets, computadores, iphones, ipads, ipods e joguinhos virtuais na internet. Brinquedos, estes sim, que eram feitos de ferro, de madeira, onde havia um exército de soldadinhos de chumbo, caixinhas de músicas com bailarinas, lápis de cores para desenhar e pintar, e caixa de boneco de monstro a nos assustar. Ou seja, essa magia é arrebatadora e nos emociona a todo instante na encenação, devido a qualidade do projeto. Os figurinos de Rafaela Mapril também são encantadores, muito bonitos e bem confeccionados, seja na escolha da paleta de cores, como também no volume e corte. A música e a direção musical de Quim Tó é muito bonita e conduz muito bem os atores-cantores em cena. Todos cantam bem, harmonicamente, e destaco a bonita voz e afinação do ator Tiago de Almeida, que interpreta a personagem do Soldadinho de Chumbo. A coreografia de Victor Linhares é correta e tem o papel de organizar os movimentos corporais cênicos sem grande elaboração nas coreografias de coletivo. O desenho de luz de João Cachulo resulta muito bom na criação da ambientação mágica, onde se mescla bem os tempos realistas e os tempos fantásticos. O uso de fumaça na caixa do monstro e no esgoto das ratazanas colaboram na construção de linhas bem definidas, e no volume de luz no palco.

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As ratazanas do esgoto para onde o Soldadinho é levado em sua primeira viagem no barquinho de papel.

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Os miúdos da escola, papéis desempenhados em formato de coringa de personagens, pelos atores Maria Curado Ribeiro e Miguel Vasques.

Os atores – que coringam vários papéis-, desempenham boas personagens em cena. Sendo importante destacar o desempenho do casal protagonista: Maria Curado Ribeiro como a Bailarina e Tiago de Almeida como o Soldadinho. Maria apresenta um trabalho de grande precisão corporal, destreza, elegância, delicadeza e muita disciplina com o balé – méritos também do trabalho do coreógrafo. O mesmo ocorrendo com a atuação de Tiago. Ele apresenta um trabalho contido, firme e com um grande desempenho vocal e uma linda voz. Todas as outras personagens estão também bem desenhadas e realizadas com competência pelos atores Anaísa Raquel como Colombina, Governanta e Ratazana Mãe; Miguel Vasques como Pierrot, Feiticeiro, Miúdo da Escola, e Ratazana Coxa; Henrique Macedo como Urso e Ratazana Filho; Kim Cachopo como Clown e Ratazana avô e Paulo Neto como Robot, Cozinheiro e Ratazana Pai.

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Um mundo de nossas reminiscências infantis nos é revelado, com direto a pierrot, colombina, clown, robot, urso e boneca de pano.

Todo o projeto é bem estruturado, realizado, e apresenta muitas qualidades; que vão desde o espetáculo até toda a organização do mesmo; tudo isso graças a seriedade e o bom conceito de ocupação do incrível espaço da Casa do Artista, um belíssimo projeto que apoia e dignifica quem trabalha ou trabalhou na arte do espetáculo. Os serviços do teatro, as suas instalações, o excelente palco, a divisão da peça em dois atos -com intervalo-, algo inédito no teatro brasileiro. É a primeira vez que vejo um espetáculo infantil, em todo o mundo, com intervalo e dois atos. E é impressionante como a atenção e a educação do público atende a todas estas expectativas. Vale muito a pena ir ao Teatro Armando Cortez e assistir a um espetáculo completo. Eu recomendo com atenção diferenciada ao trabalho do TIL.

Ficha Artística

Fernando Gomes| Texto e encenação

Quim Tó| Música e direção musical

Victor Linhares| Coreografia

Kim Cachopo| Cenografia

Rafaela Mapril| Figurinos

João Cachulo| Desenho de luz

Interpretação: Anaísa Raquel; Diogo Bach; Henrique Macedo; Kim Cachopo; Maria Curado Ribeiro; Paulo Neto; Tiago de Almeida

Calendarização

Teatro Armando Cortez
Estreia: 1 de Novembro 2017 (até Maio/17)
Sessões Família: Sábados e Domingos às 15h
Sessões Escolares: Durante a semana às 11h e às 14h30

Bilhetes

Público em Geral Adulto
Criança e Sénior

Grupos
Grupos + 10 pax Grupos + 50 pax Grupos escolares

Preço Normal 11,00€
9,00€

Preço c/ desconto 8,50 €
8,00 €
6,50 €

Dias da Semana Sab. e dom. 15h Sab. e dom. 15h

Dias da Semana Sab. e dom. 15h Sab. e dom. 15h De terça a sexta

Site oficial do TIL – Teatro Infantil de Lisboa: www.til-tl.com

Contactos & Informações

TIL – TEATRO INFANTIL DE LISBOA. Teatro Armando Cortez – Casa do Artista Estrada da Pontinha, 7- 1600-584 Lisboa Telefone geral: 218 860 503

Direção de produção: Maria João Vieira E-mail: m.joaovieira@til-tl.com Facebook | Youtube | Instagram | Twitter

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 4