Sorrisos de lágrimas amargas de Petra Von Kant

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04 de dezembro de 2020

Era um sorriso salgado aquele… Não era amargo, nem azedo. Era salgado. E nunca antes tinha ouvido falar de sorrisos salgados… Não porque este fosse o sabor daqueles lábios. Tampouco pela proximidade do mar nos arredores das coisas que mais lhe faziam sonhar… mesmo que o vento de fato trouxesse a maresia contra sua face, especialmente à noite, quando o sol já havia se deitado por trás do horizonte.

Não era como se este sorriso fosse igual a todos os outros. Era diferente. Mais raro. E era muito custoso para ser esboçado. Não necessariamente voluntário. Às vezes até contra a vontade do freguês. E sorrisos em geral são tão recompensadores… Tão calorosos… São abraços labiais à distância.

Mas tudo o que recompensa geralmente cobra em retorno. Precisa ser parido, como uma nova existência. Existem dores inerentes a se ultrapassar neste parto. Um parto pela boca. Boca que fala. Fala que enuncia. Enunciado que despenca palavras. Palavras que também podem machucar. Machucado que nem sempre permite sorrir. Sorriso que nem sempre chega lá.

Sorrisos às vezes amargos pelo contrapeso na balança do que foi perdido. Sorrisos igualmente amarelos quando a vergonha ou culpa sobrevêm à recompensa… Mas salgado? Salgadas costumam ser as lágrimas… aquelas que diluem o sal da ferida. Aquelas que rolam desmedidas. Aquelas que jorram na perda e na despedida. Aquelas que podem ser amargas, como as lágrimas amargas de Petra Von Kant.

E quando choramos, como sorrir? Como esboçar um abraço labial quando nos sentimos irremediavelmente desamparados e vazios? Como ter simpatia por si? Como rasgar a realidade pra expor os mesmos dentes que querem morder contritos de gana e arrependimento? Ainda mais algo tão vulnerabilizante e abnegado quanto um sorriso? Precisaria entrar num estado de negação? De loucura? De doação inteira e incondicional de si mesmo?

Quanto vale um sorriso? Ele é pra si ou pra outrem? Haveria tanto altruísmo assim dentro de um sorriso? Ou conteria segundas intenções? Ele conseguiria se esboçar após tanto chorar? Haveria vontade? Haveria necessidade? E quanto mais lágrimas despecassem, escorrendo pelos lábios outrora fechados em contrição, eis que o fluido umedeceria e lubrificaria, preparando a represa pra afluir de volta pra dentro…? De onde saiu e pra onde voltará, de um canal para o outro, curando a seca que outrora clamava a alma? Sufocante. Molhado. Afogado?

Nem sempre se quer sorrir. Nem sempre requer sorrir. Às vezes somos obrigados. Às vezes a vontade alheia impera sobre a nossa. Às vezes o sal das lágrimas se derrama pela face e não tem outro lugar pra desaguar. Às vezes mal dá pra respirar… pelos olhos, pelas narinas, pela boca, tudo encharcado. Entupido, soluçante e engasgado. Não dá pra respirar a não ser que abra todos os canais pra água escoar. Não dá pra respirar a não ser que você abra as vias orais pra passagem do ar. E quando abrir seus lábios esmorecidos não deixe de se lembrar de sorrir. Um sorriso molhado pelas ondas salgadas. Um sorriso pra resistir. Um sorriso pra mim e ti. Um sorriso pra si. Vai um sorriso aí?