Sorry to Bother You

Inovação de dispositivos criativos nas formas de se contar uma história

por

15 de janeiro de 2019

Título Original : Sorry to Bother You
Direção: Boots Riley
Gênero: Fantasia/Ficção Científica/Comédia
Duração: 1h 51m
País: EUA
Ano: 2018

“Sorry to bother you”, escrito e dirigido por Boots Riley, definitivamente é uma das obras mais originais e arriscadas dos tempos recentes. Talvez às vezes arrisque demais, até mesmo na suspensão da realidade, que vai dando saltos ‘cavalares’ esperando que o espectador acompanhe…, literalmente. Mas é bom que trabalhos na sétima arte tão segura e intocável em seu viés mais comercial arrisquem mesmo e ousem mais, ainda por cima com artistas já consagrados ou pop embarcando na brincadeira, como Danny Glover (da franquia “Máquina Mortífera”), Armie Hammer (do recente cult “Me Chame Pelo Seu Nome”), Steven Yeun (ex integrante da série “The Walking Dead” e atual nome quente do cinema internacional com sucessos como “Em Chamas”) e Tessa Thompson (atual darling dos filmes indie americanos e principal destaque de “Thor 3: Ragnarok”).

Mas é o ainda menos lembrado do grande público Lakeith Stanfield (coadjuvante em “Corra!” da famosa cena do flash da máquina fotográfica) quem assume bem o manto de protagonista e rouba a cena como o atendente de telemarketing Cassius Green. O personagem alcança o sucesso através de um truque na vida que lhe dá a chave para o reconhecimento e também para todas as agruras que vem junto com esta responsabilidade. O mais curioso de tudo isso é que o “truque” do qual o filme se utiliza realmente é um excelente dispositivo inovador, o de que o protagonista negro “descobre” uma voz de homem branco que nunca teve de enfrentar um racismo na vida ou concorrência desleal e consegue vender mais produtos no telemarketing do que todos os outros funcionários, os quais estão entrando em greve por aumento salarial mais digno… Numa sacada com efeitos sonoros tão esquisita que dá certo, tangenciando uma questão racial delicada e que termina por fazer uma boa crítica à branquitude corporativista, o filme poderia ficar só nisso e já se dar por satisfeito.

Mas a inventividade segue adiante e oferece um bom número de dispositivos bastante criativos, tanto na direção quanto no roteiro, como a mudança de cenários onde o personagem passeia de um quadro pra outro de acordo com a ligação para clientes diferentes, ou mesmo o figurino da coprotagonista Tessa Thompson que conta toda uma história por si próprio a cada nova cena. Mas é mais para perto do fim que chegará a balança com que o espectador irá escolher embarcar de vez ou não no delírio oferecido pelo filme, quando abraça um surrealismo léguas de distância do que havia assumido até então. Cabe ao espectador avaliar seu grau de identificação.