‘Soundtrack’

Longa é uma das estreias desta quinta-feira, dia 06.

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03 de julho de 2017

Duas experiências  autorais radicalmente distintas, mas unidas por uma verve ecológica, vêm à tona durante a imersão no óvni de lastro brasileiro “Soundtrack”: de sua fatia mais doída, aparece “Deserto Vermelho” (1965), de Michelangelo Antonioni, e de sua fatia pop brotam ecos de “Imensidão Azul”, de Luc Besson. São seus parentes e, de certa forma, seus faróis… para um pouso na pista de decolagem do cinema delicatessen feito em nosso país. Com estreia nesta quinta, 6 de julho, o filme do coletivo 300 ML não se adequa ao código dos filmes de varejo não apenas pela aposta que faz num universo fruído com moderação – o ambiente das artes plásticas -, mas pela fina estrutura de roteiro a partir da qual caça sua presa: a percepção metafísica da solidão. Mas essa inadequação a uma linhagem fast food não torna indigesto o périplo de Selton Mello por uma trama de autodescoberta, espelhada por uma reflexão sobre sentido (ou melhor, propósito) dos atos, das palavras e das coisas encarnada na figura de um cientista. O papel coube ao inglês Ralph Ineson (de A Bruxa), que nos deslumbra com um ritual gutural de autoanálise. Um ritual aberto – à fruição afetiva pelo choro e pelo riso… à identificação. Afinal, ser um filme fora dos eixos nacionais de representar e narrar não diminui o potencial de prazer que o filme gera.

Seu Jorge e Selton Mello em cena (Foto: Divulgação).

Seu Jorge e Selton Mello em cena (Foto: Divulgação).

Numa certa medida, esse prazer vem de um gesto de afirmação autoral do 300 ML, que, há onze anos, fez um processo similar, só que em curta metragem, chamado “Tarantino’s Mind”. Ali também havia uma contemplação de fazer artístico, igualmente mediado pelo esforço de se enxergar sentido na expressão criativa de um homem das artes – no caso, Quentin Jerome Tarantino. E os atores eram os mesmos: Selton e Seu Jorge.

Produzido (com um capricho plástico digno de aplausos) por Julio Uchôa, da Ananã (empresa que contabilizou 3,5 milhões de ingressos vendidos pela franquia “SOS – Mulheres ao Mar”), “Soundtrack” custou cerca de R$ 8 milhões em um empenho para reproduzir uma estação de pesquisa do Ártico no Rio de Janeiro. Apesar de usar imagens de neve captadas na Islândia, o longa – um envolvente drama sobre aceitações, amizades e selfies – ancorou seus takes no Polo do Audiovisual, em Jacarepaguá. É a fotografia (de uma sábia economia de meios) de Felipe Reinheimer que nos leva pruma instância de frio glacial… ou mais… prum “não-lugar”, neutro das paixões e pulsões do mundo. Não é a neve geográfica… é uma neve simbólica. Lá, em meio a cientistas como o britânico Mark (Ineson, soberbo) e o brasileiro Cao (Seu Jorge, num show de carisma), um fotógrafo made in Brasil, Cris (Selton), vai erigir um experimento de cliques e sons.

Esculpido por Selton como um herói de Antonioni, como um Richard Harris barroco, Cris é a incomunicabilidade em pessoa, apesar do sorriso generoso. Perdeu conexão consigo mesmo, em seu empenho de produzir autorretratos em paisagens inusitadas. É a mesma doença dos atletas do mar de Besson em “Imensidão Azul”. Aliás… o gelo aqui torna tudo imenso e uno, pelo branco, pela alvura do vazio. Poucos homens tingem aquele mundo com a beleza da imprecisão e da angústia. Num dado ponto, numa cena deslocada, Cris comemora com um amigo (Gustavo Falcão) sua ida ao Ártico. É tudo o que vemos de seu passado, fora um desabafo ligado a seu modo de olhar. Parece pouco, mas não é. Lá pelas tantas, “Soundtrack” é menos sobre Cris e mais sobre os laços que ele despertou em intelectos cartesianos. É menos sobre o fotógrafo e mais sobre a arte de fotografar, ou seja, a arte de expor e de emoldurar o tempo. É um filme barthesiano, com a doçura afetada de Roland Barthes no tambor de sua câmara clara: como o fragmento de um discurso amoroso – o discurso autoral do 300 ML – ele capta a transcendência… e o quanto nos afastamos dela.


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