Spotlight – Segredos revelados

Filme de Tom McCarthy narra a investigação dos casos de pedofilia nas igrejas de Boston

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06 de janeiro de 2016

Uma rápida passada de olhos pelos principais veículos de imprensa do país é o que basta para constatar que o jornalismo (pelo menos o brasileiro) vive uma crise grave, que abrange não apenas o aspecto qualitativo das matérias veiculadas, mas também, e mais grave, questões éticas e princípios da profissão. Em um mundo no qual os fatos ganham publicidade quase que imediata, a necessidade de saltar na frente da concorrência vem fazendo com que jornais e revistas ponham de lado as célebres perguntas básicas de todo jornalista (quem, o que, onde, como, quando e por quê) pela simples publicação da notícia, ainda que carente de fontes sólidas que a embasem. Em alguns casos, trata-se de simples imperícia. Em outros, de manipular a opinião pública a serviço de interesses escusos. Em ambos os casos a sociedade é prejudicada.

Spotlight - Segredos Revelados

Spotlight – Segredos Revelados

Em “Spotlight – Segredos revelados”, o diretor Tom McCarthy, mais conhecido por aqui pela comédia “Trocando os pés” (2014), estrelada por Adam Sandler, reaproxima o público de um outro tipo de jornalismo, aquele feito com comprometimento e seriedade por profissionais dedicados ao mais do que relevante ofício de informar. O longa apresenta a investigação realizada pelo jornal Boston Globe no início dos anos 2000 e que culminou com uma série de reportagens reveladoras dos abusos cometidos por padres da igreja católica, com o conhecimento da Diocese, contra crianças e adolescentes que frequentavam as paróquias de Boston.

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Spotlight – Segredos Revelados

A comparação com “Todos os homens do presidente” (1976) é imediata, inevitável e, felizmente, justa. Assim como no filme de Alan J. Pakula, que retratou o trabalho de repórteres do Washington Post na investigação do escândalo Watergate, a obra de McCarthy volta seus olhos para os esforços da equipe Spotlight na busca por informações que esclareçam um escândalo de proporções inimagináveis, especialmente em uma cidade em que a presença da igreja é tão marcante. Toda a narrativa se dedica ao trabalho árduo de Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams), Matt Carroll (Brian d’Arcy James) e Walter Robinson (Michael Keaton) sob a supervisão dos editores Marty Baron (Liev Schreiber) e John Slattery (Bem Bradlee Jr.), exatamente como Pakula fez há quase 4 décadas com Dustin Hoffman, Robert Redford, Martin Balsam e Jason Robards. A busca incansável pela apuração dos fatos e os conflitos que essa busca gera são a matéria-prima de um filme tenso e hipnotizante.

Por outro lado, “Spotlight” (no original) difere de “Todos os homens do presidente” em um aspecto primordial: a questão religiosa, por envolver a fé e outras emoções humanas, é mais sensível que a questão política do caso Watergate, e aqui é agravada por uma série de fatores pessoais, trabalhados com delicadeza pelo diretor em um raro equilíbrio entre sensibilidade e crueza. McCarthy apresenta os fatos investigados com crueza e sem qualquer preocupação em reduzir a gravidade de suas consequências, mas ao mesmo tempo mostra estar atento aos efeitos devastadores que eles causam aos envolvidos. Dois personagens evidenciam esse cuidado: Sacha, que frequenta a igreja com a avó e se preocupa com a sua reação quando tudo vier à tona, e Carroll, pai de família que teme pela integridade dos filhos e de outras crianças da comunidade enquanto vive o dilema de guardar sigilo das informações apuradas.

Outro ponto relevante dessa preocupação é a importância que o diretor dá à demarcação geográfica da trama, ressaltando constantemente o fato de que toda a ação ocorre em Boston através de passagens absolutamente regionais, a mais evidente delas em uma partida do Boston Red Sox, famoso time de baseball da cidade. A partir de uma visão microcósmica, que serve também para ressaltar a importância institucional da Igreja naquele espaço, o diretor demonstra o equívoco que existe na abordagem de um problema local como algo menos importante em um contexto mais amplo e mostra que ele pode ocultar questões de ordem nacional, e mesmo global, além de chamar atenção mais uma vez para a seriedade com que o jornalismo responsável deve ser exercido.

Spotlight - Segredos Revelados

Spotlight – Segredos Revelados

Em última análise, “Spotlight – Segredos revelados” funciona como uma contundente provocação para a reflexão sobre o papel da imprensa e a função do jornalista no mundo em que vivemos e no contexto em que ele se encontra inserido.


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