Star Wars – O Despertar da Força

Uma nova esperança para a saga espacial

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21 de dezembro de 2015

Se a principal intenção de J.J. Abrams era ser muito respeitoso com a trilogia original de ‘Star Wars’, ele pode dormir sossegado – o cineasta fez um belo trabalho em ‘O Despertar da Força’. Afinal, quase todos os elementos que caracterizam os primeiros três filmes da saga concebida por George Lucas estão lá: as etapas da Jornada do Herói codificadas por Joseph Campbell – mundo comum, chamado à aventura, recusa ao chamado, aproximação da caverna, retorno com o elixir, encontro com o mentor e por aí vai…-, a utilização de efeitos práticos em detrimento dos digitais, a fagulha da trama principal despertada por um dróide – o novo queridinho cibernético, BB8.

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A receita foi preparada com os ingredientes de outrora e o resultado é positivo: pela primeira vez desde ‘O Retorno de Jedi’, de 1983, o público sai da sala de exibição com a sensação de ter acabado de assistir, de fato, um filme que possui relevância dentro desse universo – alívio bem-vindo para o gosto amargo deixado pela segunda e  mais recente trilogia. Acredite: isso não é pouca coisa.

Uma parte considerável desse mérito pode ser concedida à nova dupla de protagonistas – Daisy Ridley e John Boyega. Enquanto ela mostra desenvoltura para encarnar a personagem principal, aliando doses de mau humor planejado, uma certa rudeza e senso de propósito, além de disposição para as sequências de ação, ele consegue equilibrar as funções de herói involuntário e alívio cômico. A química bem estabelecida entre os dois é evidente.

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Ainda há duas peças muito importantes nessa engrenagem: o piloto Poe Dameron, interpretado por Oscar Isaac, e o vilão Kylo Ren – personagem vivido por Adam Driver  que, pelo que se pôde perceber neste longa, ainda se encontra em estágio de construção. Com notável descontrole emocional, seu desenvolvimento é promissor e deve ser parte importante da espinha dorsal do que será visto daqui para frente.

Junte esses elementos ao prazer que a memória afetiva experimenta quando vê rostos já bem conhecidos retornando à tela: Han Solo (Harrison Ford), Princesa – ok, General – Leia (Carrie Fisher), Luke Skywalker (Mark Hamill), C3PO (Anthony Daniels), Chewbacca (Peter Mayhew) e R2D2 (Kenny Baker). Todos presentes e prontos para passar aos novos protagonistas a incumbência de levar a série à frente pelos próximos anos.

No entanto, à luz da razão necessária a qualquer exercício crítico, convém mencionar algumas ressalvas na nova produção. Uma delas, talvez a mais evidente, seja motivada pelo mesmo fator mencionado no primeiro parágrafo: Abrams se preocupou tanto em criar uma obra referencial aos filmes originais – sobretudo ao ‘Episódio IV – Uma Nova Esperança’ – que deixou de implementar uma marca própria, uma assinatura, um diferencial. Na verdade, ele já havia demonstrado essa vocação camaleônica, mimetizando características de outro diretor, no caso Steven Spielberg, em ‘Super 8’. Aqui, ele a leva essa postura a outro patamar. Um pouco mais de ousadia seria saudável.

Elementos importantes da trama – como a criação de uma nova e gigantesca arma utilizada pela Primeira Ordem, bem como o malefício causado por sua utilização – são apresentados de forma corrida e superficial, sem o necessário aprofundamento dramático. O mesmo ocorre com a concretização da amizade e confiança que surgem entre os personagens de Isaac e Boyega – rápido demais. Além disso, a líder dos Stormtroopers, capitã Phasma (Gwendoline Christie), não ultrapassou a função de elemento figurativo.

Vale mencionar, ainda, que a própria existência e extensão da Primeira Ordem, organização galáctica que aqui ocupa o lugar do falecido Império, é mal explicada – situação que, talvez, seja resolvida nos próximos episódios. Por ora, sabe-se de seu tamanho apenas por conta de uma cena de reunião de tropas – momento que tem nítida inspiração em ‘Triunfo da Vontade’, o libelo cinemático nazista dirigido por Leni Riefenstahl em 1935.

Apesar disso, é impossível negar que ‘O Despertar da Força’ é o melhor produto da saga Star Wars em mais de três décadas. Alegria garantida para fãs e coerente com a gênese de todo esse universo. Uma nova esperança – com trocadilho, por favor –  para os próximos episódios de uma das séries mais importantes da história do cinema.