Sully – O Herói do Rio Hudson

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14 de dezembro de 2016

O mais novo filme sob o comando de Clint Eastwood subverte um termo usual no meio cinematográfico — em “Sully – O Herói do Rio Hudson”, o tal “baseado em fatos reais” ganha nova roupagem devido ao feito extraordinário do protagonista. Parece mesmo que estamos diante de uma história real baseada em ficção. O conteúdo do longa é de conhecimento público. Com maior ou menor abrangência, o caso do voo 1549 da US Airways rodou o mundo em janeiro de 2009. A noticiabilidade do fato ficou por conta da habilidade de Chesley B. Sullenberger que, piloto de uma aeronave em pane após uma colisão com um bando de pássaros, consequiu aterrissar o Airbus A320 na água, mais precisamente no Rio Hudson, em Nova York, nos Estados Unidos. O pouso forçado teve um balanço mais que positivo: todas as 155 pessoas a bordo, entre passageiros e tripulantes, foram resgatadas sem ferimentos graves e, claro, com uma boa história para contar. Para a população, que acompanhou o desdobramento do inimaginável, Sully foi um herói. No entanto, nos bastidores da aviação americana a receptividade não foi a mesma, um caminho que Eastwood optou por seguir para reproduzir a façanha no cinema. A investigação desenrolada pelo National Transportation Safety Board (NTSB), destrinchada no filme, foi um episódio dramático e obscuro na trajetória de Sully.

Por mais que sejam diferentes na aparência, “Sully – O Herói do Rio Hudson” e “Sniper Americano” (2014), filme anterior do cineasta, unem-se em uma semelhança vital para a força do drama de ambos — a crise na elaboração da imagem heroica. Chris Kyle (Bradley Cooper) em “Sniper Americano” é a máquina de guerra, também retirada da vida real, que ganhou o status de herói como o sniper mais letal na história bélica americana. A complexidade moral de Chris Kyle é toda construída sobre a crise que se instaura no personagem, perdido entre a linha tênue que separa o assassino do honrado franco-atirador, por mais que ele insista no discurso de fidelidade ao seu país de origem. Já Sully (Tom Hanks) é o mocinho tradicional, tão benévolo que suas ações parecem criadas pela imaginação. Perito em aviação e consciente das vidas que salvou, a bravura de Sully é questionada quando ele é colocado contra a parede ao ter a sua conduta oficialmente investigada. Mais uma vez, assim como em “Sniper Americano”, Clint Eastwood aposta em perturbações mentais para ilustrar o atordoamento traumático do protagonista. Logo após escapar da morte, o comandante, molestado por visões de um desastre aéreo com o Airbus A320, é obrigado a lidar com a burocracia que acusa uma falha irresponsável na aterrissagem. De acordo com o órgão de controle, ele poderia voltar ao Aeroporto de LaGuardia, em Nova York, de onde decolou com destino a Charlotte, na Carolina do Norte, em completa segurança. Desta forma, ele evitaria colocar em risco a vida das dezenas de pessoas a bordo com a perigosa aterrissagem no Rio Hudson.

Para manter a tensão dos espectadores, a direção de Clint Eastwood oscila entre a investigação, com seus tensos desdobramentos, e a reprodução da quase tragédia, desde a decolagem ao bem sucedido resgate dos passageiros. Aqui, não importa o conhecimento prévio do desfecho do incidente já que o objetivo é lançar luz na batalha do protagonista em terra firme, desconhecida do grande público. Para provar sua inocência, sem jamais reivindicar pelo título de salvador, é interessante que Sully reforce sua humanidade para justificar o pouso na água, um ato quase sobre-humano. Se nas simulações da pane, todas com a frieza da tecnologia, o resultado foi mais seguro, na realidade de pânico de um avião em queda, repleto de seres humanos, o panorama não poderia ser o mesmo. Ainda assim, o comandante Chesley B. Sullenberger agarrou a chance do improvável e flutuou nas águas do Rio Hudson. Façanha muito bem moldada por Clint Eastwood, diretor dono de uma filmografia igualmente engenhosa.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4