Tempestade de Areia

Saindo do macro para o microcosmos familiar, para criticar de forma mais pungente o universo social através de uma interessante visita etnográfica

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21 de outubro de 2016

O laureado como filme estrangeiro em Sundance 2016, “Tempestade de Areia” da diretora Elite Zexer é um interessante mosaico etnográfico sobre culturas rígidas no sul de uma Israel beduína menos cosmopolita ou menos evoluída do que a imagem que se tem para o resto do mundo. Com autorização ainda do casamento poligâmico nas tribos beduínas sulistas, vemos um pai de quatro filhas mulheres casar de novo, e sua primeira mulher ainda ter de ajudar nos preparativos usando bigode, como se representassem os homens na sociedade, enquanto os próprios estão se divertindo num tipo de despedida de solteiro longe da cerimônia.

Mas quando a filha mais velha, xodó do pai, que tem a cabeça super para frente além de ser autorizada a estudar e dirigir, decide casar, as tradições vão ser colocadas à prova. E toda a rigidez inicial da mãe e solidariedade do pai vão ruir frente o que realmente escondem os usos e costumes que condicionam a região, saindo da esfera coletiva para ingressar na pessoal. Isto ocasiona um interessante giro copérnico entre os personagens, principalmente no que diz uma sororidade entre as mulheres, que, por mais duras que possam ser, são apenas frutos do meio e tentam ajudar umas às outras a sobreviver a condições muito piores do que as conquistadas até então.

As imagens do filme justificam o título “Tempestade de Areia” não apenas como metáfora para a puberdade e a rebeldia dos jovens contra as gerações anteriores em um típico rito de passagem, mas também significa que o imenso deserto bege e opressor, cuja areia cobre tudo e todos, e entra em todas as frestas, são a mesma coisa que o fardo cultural imposto ali. As mulheres usando lindos hijabs multicoloridos que vão sendo cobertos de areia ou sujos no deserto, são lavados, vão para o varal para secar e voltam a ser cobertos de areia, como se não conseguissem se livrar das tradições que nunca levam em conta a sua voz. A fotografia, porém, evita grandes planos, uma pena para o tipo de cenário em mãos, mas concentra em cada personagem como foco no meio do grupo, para manter o aspecto psicológico, como na bela cena onde as personagens se escondem por trás dos lençóis no varal. A melhor parte é não enjoar o espectador com explicações da cultura israelense, e sim apenas exemplificá-la na tela, de modo mais dinâmico. Com boas atuações, é o primeiro filme da diretora Elite Zexer, provando potencial para lidar com questões familiares que ultrapassam o micro para o macrocosmos.


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