Terceiro Balanço da 41ª Mostra de SP

Destaque para The Square, que foi Palma de Ouro em Cannes 2017, e as indicações Pororoca e Custódia

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29 de outubro de 2017

Um dos melhores dias na 41ª Mostra Internacional de Cinema de SP.

Os filmes começaram cedo com a sessão especial para a imprensa do muito antecipado filme “The Square” de Ruben Östlund, ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017. O filme se desenvolve através de uma sucessão de experimentos humanos que vai trazer à vida real o sentido metafórico das obras do Museu de Arte Contemporânea na Suécia, ponto central da narrativa, além de desconstruir seu curador esnobe e cheio de diletantismo. Todos os personagens orbitantes desta trama irão passar por esquetes que saem da abstração da arte e tentam explorar a fronteira da moral e da ética, colocando a elite europeia (e mundial, por identificação) em xeque-mate. À conta disso, pode se traçar um obrigatório paralelo com o filme imediatamente anterior do mesmo diretor, o cult “Força Maior”, que já colocava um casal de férias um contra o outro por dilemas existenciais numa estação de esqui, quando o marido foge de uma avalanche sem proteger os próprios filhos ou a esposa… Apesar de não ter sido o primeiro longa-metragem do diretor sueco, foi com ele que mais surpreendeu há algumas edições atrás da Mostra de SP e passou a ser um nome a se observar, além de ter ganhado o Prêmio do Júri na Mostra Un Certain Regard em Cannes 2014. A tudo isso ainda se acrescentou uma boa carreira internacional, tendo sido concorrente ao Globo de Ouro de filme estrangeiro e pré-selecionado ao Oscar daquele ano, premiações que está se tornando agora favorito para tentar levar em 2018 com seu novo “The Square”. Um filme cuja intenção é alcançar o lugar de desconforto e desconcertar o espectador a cada instante, sendo que na maioria das vezes consegue provocar uma reflexão real, especialmente quando não tenta ser mais inteligente do que o próprio público. Nas outras vezes em que não funciona ou é por se superestimar ou por tentar abarcar coisa demais com personagens secundários demais. Alguns dos temas abarcados perpassam a decadência do capitalismo e do Velho Mundo, a relativização dos valores, a distopia midiática e das redes sociais, as minorias, a diferença de classes e oportunidades, o dirigismo cultural e etc… Talvez focasse um pouco mais e teríamos uma obra-prima, mas indubitavelmente será uma obra difícil de esquecer.

The Square_foto 1

Agora, por falar em obra-prima, a Mostra revelou o surpreendente longa-metragem “Pororoca” do romeno Constantin Popescu, cujo único filme anterior a ter chegado no circuito comercial brasileiro foi “Contos da Era Dourada”, no qual o cineasta dirige um dos contos. Antes de adentrarmos o filme, vale menção para que o espectador não se atenha estritamente ao significado em português da palavra ‘pororoca’, que dá título ao filme, apesar de que possamos até interpretar neste sentido, pois o que aqui entendemos como um fenômeno natural produzido pelo encontro das correntes fluviais com as águas oceânicas pode ser interpretado na história como um deságue de emoções. Isto porque o filme retrata uma família perfeita que vai se desestabilizar devido ao desaparecimento da filha mais nova do casal. Como cinema romeno, é surpreendente como se consegue construir uma narrativa com extremo naturalismo e linguagem direta, com vários planos-sequência munidos de câmera tremida na mão, e ainda assim mostrar uma variedade de movimentos de personagens e figurantes que ganham vida em todos os cantos do quadro, ampliando as interpretações e tensões das cenas. O filme ganhou o prêmio de melhor ator para Bogdan Dumitrache no Festival de San Sebastián, possivelmente a melhor atuação masculina do ano. Para quem não se recordar, o ator já havia brilhado nos cults romenos “Instinto Materno” e “Sieranevada”, agora alçando o trabalho no longa “Pororoca” como provável melhor artista romeno da atualidade, além de impulsionar a filmografia do diretor Constantin ao status de grandeza dos conterrâneos Cristi Puiu e Cristian Mungiu.