Terminal Praia Grande

Emancipação onírica no cinema de gênero maranhense

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02 de novembro de 2020

“Terminal Praia Grande”, uma produção maranhense dirigida por Mavi Simão, é um ensaio de horror psicológico, montado sobriamente com uma economia de enquadramentos muito bem fotografados (por Roman Lechapelier), para acompanhar a inércia da realidade de uma protagonista que apenas se liberta pelo delírio. Acompanhamos Catarina (Áurea Maranhão) numa trama alinear que gira em círculos através de 3 situações principais: a casa da personagem em torno de uma grande festa; o encontro com alguém do seu passado amoroso que estaria “sumido”; e uma insólita viagem que justifica o título do filme “Terminal Praia Grande”. Essas três situações poderiam ser vistas apenas como meras reproduções de uma realidade fugaz, mas na verdade são metáforas interligadas por uma mesmo anseio que ultrapassa o mundo material…

Não por acaso, é através da música que temos os momentos mais assumidamente delirantes, aqueles que borram ou transbordam a fronteira da realidade, e que misturam quem é sujeito e quem é objeto da alienação. São as cenas assumidamente musicadas que movimentam a câmera de modo mais fluido, acompanhando as personagens e ampliando a sensação inebriante de vertigem (como a excelente abertura com a dança da protagonista acompanhada por alguém incógnito que a filma, e cuja filmagem retorna em outro momentos para indagarmos a relação com o autor do vídeo).

Bem como, inversamente proporcional, e ainda mais intrigante do que os movimentos vertiginosos, os quadros estáticos intrigam sobre quais significações estariam ocultas em torno dos códigos e signos da direção de arte que preencheu esses enquadramentos. Da cena da piscina cheia de símbolos a serem interpretados e que se repete mais de uma vez, como num ciclo psicanalítico em busca da verdade… Ao interlúdio das cenas no ônibus que assumem de vez os elementos fantásticos, com passageiros autômatos que mais parecem zumbis, numa performance quase dançada em uníssono.

O filme é reflexivo e, de certa forma, introspectivo, pois não pretende dar respostas concretas, sendo no mundo abstrato que se encontrarão os elementos dos 3 cenários: o onírico, o desejo e a morte.

Aproveito e compartilho entrevista da diretora Mavi Simão para a Escotilha com Rodolfo Stancki:

“Bancado por meio de um edital de fomento local, a produção estreou formalmente na mostra Novos Rumos, do Festival do Rio, em dezembro do ano passado. Mavi, que desde 2007 comanda um festival chamado Maranhão na Tela, conversou com a Escotilha sobre sua primeira investida na direção. No papo, que você pode conferir abaixo, ela comenta os bastidores de Terminal Praia Grande e ainda conta um pouco sobre seus próximos projetos no cinema.”:

http://www.aescotilha.com.br/cinema-tv/espanto/mavi-simao-filme-de-horror-terminal-praia-grande-cinefantasy/