Terra Selvagem

Homens quebrados, moldados pelas porradas que a vida lhes deu e ambientes áridos nos quais vivem

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08 de outubro de 2017

Os personagens criados por Taylor Sheridan são homens quebrados, moldados pelas porradas que a vida lhes deu e pelos ambientes áridos nos quais vivem – e que acabam por refletir suas personalidades. Os dois irmãos ladrões de bancos que, em A Qualquer Custo (2016), tentam reconstruir sua família destruída pela crise econômica, o matador buscando vingança de Sicario (2015) e, agora, Cory Lambert (Jeremy Renner), protagonista de Terra Selvagem, um caçador branco que vive próximo a uma reserva indígena no Wyoming e que, tendo perdido brutalmente a filha adolescente há alguns anos, se empenha na investigação do assassinato da melhor amiga dela, meio pelo qual, também, restabelece contato com o passado traumático.

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Terra Selvagem é o primeiro filme que Sheridan escreve e também dirige. Não há, nele, o arrojo da condução de Denis Villeneuve em Sicario, nem a sofisticação dramatúrgica e a força emocional de A Qualquer Custo (dirigido por David Mackenzie). Sheridan opta aqui por texto e direção mais simples, depurados, diretos. Um bom exemplo disso é o momento da resolução do mistério que move a trama: por meio de um uso preciso da montagem, o diretor insere um flashback breve, mas impactante, que explica, sem qualquer enrolação, o que levou ao assassinato da jovem Natalie (Kelsey Asbille), entregando ao espectador tudo que ele precisa saber para que a narrativa possa, então, seguir para o epílogo.

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Ainda assim, Terra Selvagem se mantém bastante próximo dos trabalhos anteriores de Sheridan como roteirista, não só pela referida característica de seus protagonistas, mas também pelo esforço por inserir na história uma crítica social que revele um lado sombrio da América. Em Sicario, a violência da fronteira com o México e o intervencionismo de militares americanos no país vizinho, para pôr em prática uma política antidrogas absolutamente ineficaz; em A Qualquer Custo, a falência da classe trabalhadora redneck (base do trumpismo, aliás) no contexto da última crise do capitalismo; em Terra Selvagem, o tratamento dispensado, no passado e na contemporaneidade, aos indígenas nos Estados Unidos e as consequências do isolamento em reservas desses povos, cujos antepassados dominaram vastos territórios. Nesse sentido, a forte cena final do filme, protagonizada por Gil Birmingham (ator também presente em A Qualquer Custo), é fundamental para trazer à tona o comentário social presente, em boa medida subterraneamente, no restante da narrativa.

É de se admirar, portanto, como Sheridan vai, roteiro a roteiro, construindo uma obra sólida, coesa – o que serve, inclusive, para tornar um pouco mais complexa a associação, geralmente automática, entre direção e autoria no cinema. É como se ele estivesse escrevendo uma espécie de coletânea de contos, todos bastante duros, doídos, mas profundamente humanos, sobre a vida nessa deep America, que acaba por revelar muito mais sobre as contradições do país que as tantas histórias ambientadas em suas costas leste e oeste.

Avaliação Wallace Andrioli

Nota 4