Projeto Flórida

Dissabores que os sonhos de infância ocultam

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01 de março de 2018

Preciso compartilhar e conversar sobre algo muito mágico e catártico que aconteceu comigo. Muito mais do que uma crítica, é uma conversa, então, por favor, dialoguem. Pois esta é a razão basilar de eu amar cinema na raiz de meu ser. O cinema é uma destas raras materializações de expressão coletiva em mão dupla, tanto na direção da equipe de realização endereçada aos espectadores, quanto na via inversa dos espectadores em reação ao que foi criado, em mutação constante (e daí advém a responsabilidade do cinema para com a sociedade com que se conecta), que pode gerar uma necessidade de transformação íntima e pessoal, bem como solidária e grupal.

O filme que gerou esta reflexão é “Projeto Flórida” (“The Florida Project” no original) de Sean Baker, nome já cravado nos recordes da história do cinema por ter sido a primeira pessoa a filmar um longa-metragem lançado em circuito comercial inteiramente em celular, o incrível “Tangerine”.

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É incrível como e quando às vezes a magia do cinema acontece. Até a metade do filme parecia que “The Florida Project” era uma divertidíssima comédia de brincadeiras de criança, com montagem espetacular, feita com esmero para parecer uma narrativa coerente… Estava me rasgando de rir com o imensurável carisma da atriz-mirim protagonista interpretada por Brooklynn Prince, aliás, uma revelação dentre todas as crianças, com uma química assombrosa junto aos adultos, que tentam viver com dignidade num conjunto hoteleiro periférico de beira de estrada. — Numa curiosa coincidência, por sinal, quase cruel em a localização deste hotel popular ser quase colada com o parque de diversões da Disney e seu Magic Kingdom. — Vale ressaltar, contudo, que o destaque para a incrível revelação Brooklynn Prince no papel da protagonista, indicada a todos os prêmios desta temporada, foi no entanto esnobado pelo Oscar, no que, inclusive, iria quebrar o recorde de menoridade indicada na categoria, 7 anos à época do filme, que pertence ainda à Quvenzhané Wallis por “Indomável Sonhadora” com 8 para 9 anos.

As regras do lugar são claras: hospedagens apenas passageiras. Não é permitido fixar residência ali. Um lugar meramente transitório, assim como a “fase” das pessoas que ali se hospedam…(ainda que para algumas não seja bem uma “fase”). Aliás, os próprios nomes dos hotéis nos letreiros luminosos, como “Future Land” (terra do futuro) já demonstram a metáfora de inversão de valores sociais e para quem eles se aplicam, ou não, como na gargalhante cena com o casal brasileiro obcecado de forma escapista pela Disney. Um deserto de asfalto cheio de cartazes de publicidade enganosa, vendendo coisas ao redor que ninguém pode ter acesso apropriado (os anúncios de fertilidade e gravidez, então, são ainda mais perversos ante o mote do filme).

Mas tudo isso só até chegar a amargura do abandono, negligência e abuso da segunda metade do filme, e fazer com que venhamos a nos sentir culpados de rir de forma tão cúmplice e conivente com aquelas incríveis crianças… Crianças que talvez tenhamos demorado a perceber, nós mesmos negligentes por talvez conhecermos de perto algumas assim, com o quanto suas brincadeiras inocentes e irresponsáveis poderiam colocar muito mais os adultos numa lente de aumento por osmose, do que apenas os próprios infantes. Todas aquelas pessoas são fruto de um abandono institucional que começa com o Estado e a desigualdade de oportunidades sociais. Os adultos estão soberbos, como a mãe da menina principal, fascinante e magnética como uma flor venenosa ou uma planta carnívora de cabelos azuis, que te atrai até você perceber que já foi envenenado pela toxicidade dela. Ou o surpreendente personagem de Willem Dafoe que, após se estigmatizar com tantos papéis de vilões e psicopatas no cinema, escava de suas intensas rugas expressivas um enorme grau de gentileza e caridade, mas igualmente negligente, tentando compensar a ausência como pai na própria família, sendo um substituto paterno como gerente daquele hotel. A cena com o pedófilo ou com a polícia demonstram claramente isso.

Só a magia do cinema consegue essas catarses. Uma das maiores catarses já sentidas no cinema, com o giro copérnico da cena da selfie com o incêndio da casa velha, que dá um estalo e ressignifica o filme inteirinho. É de se derramar lágrimas nos olhos pelo uso da proximidade com o Magic Kingdom, à margem de toda a sociedade real existente cheia de complexidade e injustiças ao seu redor. A Disney nunca foi tão dolorosamente cruel para a memória coletiva. Redefine o significado de ‘agridoce’ para sempre…ainda mais em sua cena final que redimensiona o nosso imaginário de toda uma infância com aperto no coração.

Mas infelizmente o formato indie e transgressor com que, inclusive, foi filmado, quase na base documental e sem algumas das autorizações legais necessárias para certas filmagens, com certeza devem ter influenciado no baixo índice de indicações que acabou recebendo do Oscar. Uma grande injustiça.

*A presente resenha foi originalmente publicada durante o Festival do Rio 2017, e agora está sendo republicada e atualizada perante a estreia do filme nesta quinta-feira dia 01 de março de 2018, às portas do Oscar 2018 que ocorrerá neste domingo dia 04.