The Handmaid’s Tale – 2ª Temporada

Protagonista Elizabeth Moss se empenha para ser favorita a prêmios de melhor atriz da temporada

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04 de julho de 2018

Se alguém tiver dúvida do que garante o prêmio de atuação para um artista, assistam “The Handmaid’s Tale” em sua 2° temporada, especialmente nos fatores que culminam para se chegar ao 11° episódio. Este episódio é a definição do que significa dar um prêmio de MELHOR ATRIZ sob todos os aspectos harmônicos: atuação da atriz-monstro Elizabeth Moss, respectivo roteiro para embasar esta representação, e direção para enquadrar, conduzir e captar os melhores recortes que potencializem esta atriz. Sinceramente, um primor. Se havia alguma dúvida de para onde esta temporada poderia estar levando, este é daqueles episódios que somam um clímax de tudo.

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Apesar de reconhecer que algumas pessoas venham sentindo certo incômodo com o aumento do grau de sadismo nesta temporada, e que alguns episódios de fato exageram além da cota às vezes, porém, é válido reiterar uma questão importante sobre isso: Tem seus pontos de hesitação pelo dobro de sadismo em alguns episódios? Sim, tem sim…, mas apesar de tudo, faz ainda mais sentido catártico como denúncia apuradíssima principalmente em plenos tempos atuais, em especial com ainda mais sentido para o espectador brasileiro, por causa do retrocesso político e misógino maior do que nunca. Várias de nossas obras estão refletindo o momento atual de denúncia contra crescentes conservadorismos fascistas, especialmente contra as mulheres e outras questões afirmativas de minorias de direitos (‘de direitos’!, pois em termos populacionais são maioria). O “Auto de Resistência” de Natasha Neri e Lula Carvalho e “Dedo na Ferida” são perfeitos exemplos sofridos de arte dura e torturante sobre o que a realidade está nos dando. E, ao menos neste sentido, acredito que The Handmaid’s Tale tenha inclusive evoluído em termos narrativos sob o ângulo da catarse social. Senão, filmografias inteiras como de Haneke, Von Trier e Gaspar Noé (estes 2 últimos nem são os melhores exemplos rsrs) se constroem e dependem predominantemente da tortura, sadismo e humilhação…mas ainda assim são (ao menos os 2 primeiros) reverenciados como mestres, ou mesmo darlings cativos de grandes Festivais (o terceiro incluso) — não que com isso se queira dizer que uma coisa justifique a outra… Longe disso. Estamos apenas constatando fatos colocados como o são diante de nossa análise.

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Só um adendo, de fato este episódio 11 da segunda temporada  talvez seja um verdadeiro laboratório de atuação! De expressões, de gestual, de corporal, de interiorização e interação com os ambientes. E, inclusive, é de se louvar a autoironia do episódio em admitir logo de cara e ainda pedir desculpas exatamente pela reclamação de todos que apresentam o necessário olhar opositivo: a própria personagem como narradora onisciente e numa possível projeção futura de sua personagem, quase personificando a autora, pede desculpas pelo sadismo e tortura e humilhação do enredo. Mas lembremos que esta é uma das únicas autoras já abraçadas em adaptações bem-sucedidas pelas mídias hegemônicas a botar o dedo na ferida com acusações pesadas ao totalitarismo do patriarcado, e agora até tentando abarcar mais a interseccionalidade antes não necessariamente em voga no livro, na consciência dela quando o escreveu, e agora cada vez mais autoconsciente pelo menos na TV. E acusações pesadas estas da parte da autora ao patriarcado, ao totalitarismo, ao racismo e LGBTQfobia representam pouquíssimas vozes a levantar nas mídias hegemônicas estas mesmas questões com tal grau de aceitação.

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E não se quer dizer aqui que “The Handmaid’s Tale” vale tudo isso apenas pela ‘importância’ da temática, não, de forma alguma… Seus atributos vão bem além da única grande atriz (Elizabeth Moss) citada até o momento. O elenco é incrível, tendo crescido exponencialmente nesta segunda temporada, com muito mais ênfase nos personagens coadjuvantes, especialmente as outras aias e uma complexificação maior das vilãs femininas e os tipos de abusos a que elas também são submetidas neste microcosmos de poder usurpador. Com destaque para as novas relações desdobradas de Tia Lydia (Anne Dowd, também de “The Leftovers”) e Serena (Yvonne Strzechowski, também de “Chuck”) com June (Elizabeth Moss, também de “Mad Men” e “Top of The Lake”). Além disso, a série contém uma das direções de arte e cenografia mais criativa de todos os últimos anos, criando imagem pura de lirismo — mesmo quando violento — a partir de um livro. Além de ângulos e enquadramentos de tirar o fôlego inovadores para uma produção televisiva, dando caráter épico para um drama de “interiores”, de maior parte de cenas internas e de “noir doméstico”, bem diferente das possibilidades estéticas que um “Game of Thrones” pode oferecer por suas características inerentes. Muito pelo contrário, quem lê o livro “The Handmaid’s Tale/O Conto de Aia” poderia jamais ter a impressão épica do coletivo e de externas que a série alcançou para uma história extremamente intimista e particular ancorada na teoria numa única personagem.

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A única ressalva talvez seria de que muita coisa boa na TV deveria ser minissérie e não série. Como “Big Little Lies” que, mesmo vindo a fazer talvez uma ótima 2ª temporada (quem sabe….pode nos surpreender), deveria ter parado na 1ª. Assim como “13 razões” da #Netflix, que explodiu com a 1ª e não deveria ter tido mais nada além disso. Aliás, temo dizer que até “Stranger Things” estava de bom tamanho com a resolução da 1ª temporada… Ou mesmo pode-se lembrar também o caso clássico da série “Game of Thrones”, que se alongou demais durante as temporadas anteriores e agora está se vendo obrigada a correr demais no desfecho das subtramas em suas últimas temporadas. Todavia, ao menos por enquanto, defende-se aqui, com louvor, que a série “The Handmaid’s Tale” ainda está fazendo jus ao alongamento criativo que se expandiu as situações vistas no livro perante as quais a primeira temporada havia permanecido vinculada até então.