The Lodge

“As sete prisões da mente são: culpa, dívidas, procrastinação, inveja, rancor, isolamento e medo.”

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17 de dezembro de 2019

The Lodge é o novo filme da dupla austríaca Severin Fiala e Veronika Franz, famosos por seu trabalho anterior, Goodnight Mommy, de 2014. A produção – cuja estreia aconteceu no Festival de Sundance deste ano – conta a história de Grace (Riley Keough), uma jovem que aceita o convite para viajar durante as festas de fim de ano com o noivo, Richard, e seus dois filhos para a casa de veraneio da família, localizada em uma área extremamente isolada. Como o pai precisará trabalhar, os três – Grace, Aidan (Jaeden Martell de It) e Mia (Lia McHugh) ficarão sozinhos no local com a prerrogativa de se conhecerem melhor.

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Fica claro desde o início que as crianças culpam Grace pela morte traumática da mãe (Alicia Silverstone, em uma aparição relâmpago) e que o pai, Richard – vivido por Richard Armitage – não possui uma boa relação com os filhos, propondo a viagem apenas seis meses após o falecimento da ex-esposa. Insatisfeitos com o compromisso imposto pelo pai, Aidan e Mia buscam informações sobre a futura madrasta, descobrindo que no passado Grace foi a única sobrevivente de um suicídio em massa cometido por um grupo de fanáticos religiosos.

Desde o início do longa o enredo apresenta uma série de falhas; a primeira delas é a justificativa dada para o necessário isolamento das crianças e da madrasta, pois não é muito crível o fato de que um pai deixaria seus filhos, em luto pela perda recente da mãe, na companhia somente da noiva que eles pouco ou nada conhecem por dias. Outro ponto que chama atenção é o aprofundamento insuficiente das três personagens em tela, o que acaba por deixar as reviravoltas ao longo da trama superficiais e sem alcançar o efeito desejado.

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E diante destes desacertos claros aos olhos da audiência, fica difícil não comparar as duas obras de Fiala e Franz. Em Goodnight Mommy há lacunas que devem ser preenchidas pelo expectador, o que causa estranheza, mas não interfere no excelente resultado final. Já em The Lodge a preocupação em tentar responder as possíveis questões que pudessem ser feitas, impediu que pontos chaves como o passado de Grace, por exemplo, fossem desenvolvidos do modo como deveriam.

A inevitável comparação acontece quando percebemos o grande número de semelhanças entre as tramas. Ambas as histórias se passam em ambientes isolados, envolvem uma figura materna e duas crianças, traumas psicológicos, torturas, processos de luto, negação e dúvidas de identidade. Com esta dinâmica similar, fica nítido que os diretores propositalmente permaneceram em uma “zona de conforto” que já havia funcionado, mas não conseguiram manter a alta qualidade em ambos os filmes.

As diferenças ficam a cargo dos cenários escolhidos. Se em Goodnight Mommy os ambientes eram amplos, limpos e claros, em The Lodge a ambientação é escura e claustrofóbica, mesmo nas áreas externas onde os infinitos horizontes de neve proporcionam um efeito monocromático inquietante e sufocador. Vale ressaltar que a atmosfera de tensão proposta é sustentada durante toda a exibição, seja pelo cenário, trilha sonora ou atuações – mesmo que a duração seja mais extensa que o necessário.

No que diz respeito às atuações, Riley Keough acaba conduzindo o filme praticamente sozinha. O amadurecimento da personagem e a progressão da sua insanidade foram bem desenvolvidos, principalmente diante dos gatilhos manipulados e impostos a ela.

Concluindo, é importante enfatizar que The Lodge não é um filme de baixa qualidade, longe disso. Mas, ao fazerem uso de tantas similaridades com seu trabalho anterior, os diretores Severim Fiala e Veronika Franz acabaram criando uma armadilha, de maneira que se tornou impossível não fazer comparações, deixando perceptível a diferença de atributos entre as produções. Para o espectador, infelizmente, ficou a sensação de que faltou algo “a mais” desta vez – apesar da excelente sequência final.