The Square – A Arte da Discórdia

Novo filme de Ruben Östlund é uma comédia dramática visceral e necessária para a reflexão sobre a atualidade

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05 de janeiro de 2018

Em 2014, Ruben Östlund chamou a atenção do universo cinematográfico com o longa-metragem “Força Maior”, que foi ganhador do Prêmio do Júri da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes. Incômodo e perspicaz, o filme coloca em cheque a ética e o individualismo no âmbito familiar. Com a mesma pegada de enfiar o dedo na ferida sem piedade, Östlund retorna ao roteiro e direção com “The Square – A Arte da Discórdia” já vencendo a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017 e sendo indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro deste ano. Como a anterior, esta, definitivamente, não é uma obra para o grande público nem para qualquer um, pois não é tão fácil de compreender, apreciar e difícil de digerir, do mesmo modo que a arte moderna sobre a qual o filme se apoia, que pode ser interpretada de diversas maneiras.

Christian (Claes Bang) é um respeitado curador de arte que precisa promover com sucesso uma nova instalação do museu de arte moderna pelo qual acaba de ser contratado em Estocolmo. O roubo inesperado de seu celular o faz perder o controle e acaba gerando consequências desastrosas para a sua vida, a de todos a seu redor e para o museu, que contratou uma duvidosa empresa de relações públicas para colocar a instalação na mídia. O filme já começa situando o espectador sobre o que virá a seguir, com a cena da entrevista de Christian no museu, em que ele discute rapidamente o conceito e o papel da arte no mundo moderno com Anne (Elisabeth Moss, da fantástica série “The Handmaid’s Tale”).

“The Square” (no original) é uma comédia dramática satírica niilista que reflete os tempos atuais, em que tudo gira em torno do capitalismo. Östlund causa bastante desconforto e estranhamento com o objetivo assumido de chocar para dar luz a temas espinhosos à elite europeia, mas que se aplicam perfeitamente ao restante do mundo. A instalação do museu que dá título ao filme (“O Quadrado”, em tradução literal) é vendida como um espaço seguro (dentro de um quadrado, ) que convida os frequentadores a exercitar o altruísmo e refletir seu papel como bons seres humanos, o que não poderia ser mais irônico, já que o individualismo, o orgulho e o egocentrismo de Christian são a base de todos (ou quase todos) os problemas na trama. O que vemos é um círculo vicioso sem solução causado pelo quadrado da indiferença para com as pessoas “inferiores” à sua volta. Aquela música tola “Dança do Quadrado”, que fez sucesso em 2007 na voz da cantora Sharon Acioly, não poderia fazer mais sentido aqui: “cada um no seu quadrado”, diz a letra – o desejo de todas as pessoas favorecidas de alguma forma de se fechar em seu próprio quadrado de privilégios e ignorar as mazelas que estão fora dele e não as alcança. A degradação humana é engraçada e indiferente até que nos atinja, e Östlund mostra isso com maestria e uma boa dose de desconforto na cena do jantar de gala da inauguração da instalação, onde o ator Oleg (Terry Notary) encarna um primata e interage com os convidados de forma gradativamente violenta.

Os enquadramentos do longa, além de esteticamente agradáveis aos olhos, estão em perfeita sintonia com as cenas e complementam, e até traduzem, a mensagem que o diretor quer passar com cada cena, com destaque para as cenas de escada e para a incrível cena do lixo, em que Christian procura desesperadamente o último resquício de humanidade dentro de si, para depois descobrir que era tarde demais – uma bela cutucada no espectador. Em tempos de redes sociais e imediatismo, Östlund também questiona qual o limite da liberdade de expressão e faz o público refletir sobre as responsabilidades e consequências de atos – e postagens – mal (ou não) pensadas. Não fosse o excesso de informações e complexidades que às vezes se confundem em suas mais de duas horas de exibição e a inserção dos astros Dominic West como figurante de luxo e Elisabeth Moss, que atuou em poucas cenas importantes, provavelmente para atrair um público maior ao redor do mundo e incluir o idioma inglês, “The Square – A Arte da Discórdia” atingiria um patamar ainda maior, talvez de obra-prima. O filme, entretanto, não é nem de longe do tipo esquecível e já entrou para a história com um importante prêmio e a indicação a outros dois, em que é o candidato favorito. Ruben Östlund é, sem dúvida, um cineasta muito promissor.

The Square – A Arte da Discórdia (The Square)

Suécia / Alemanha / Dinamarca / França – 2017. 142 minutos.

Direção: Ruben Östlund

Com: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West e Terry Notary.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4