The Stopover

Thriller militar a partir da ótica dos mulheres no exército

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26 de outubro de 2016

“The Stopover” das irmãs Muriel e Delphine Coulin, ganhador de melhor roteiro na Mostra Um Certo Olhar em Cannes, é acima de tudo um ótimo thriller militar. Claramente inspiradas pelo baluearte das mulheres na direção, Claire Denis, especialmente em sua tensa obra “Belo Trabalho”, as irmãs Coulin tecem uma crônica de gênero nos conflitos armados mundiais, desmembrando a velha expressão “irmãos de guerra”, ou “brothers in arms” em inglês, para se falar sobre presença de mulheres no exército.

Depois de uma emboscada que encerra precocemente a carreira de um batalhão francês, com baixas e feridos, os soldados são obrigados a passar por um período de adaptação, ou ‘descompressão’ como chamam no filme, numa espécie de resort em Chipre, antes de voltarem para casa. Só que eles não estão lá para curtir o paraíso de férias, e sim passar por pesadas sessões de terapia usando um simulador virtual que recria as cenas de batalha onde tudo deu errado. Logicamente isto irá intensificar a panela de pressão, levando os membros à loucura. Sem falar que há um jogo de sedução, principalmente de domínio dos rapazes tentando submeter as mulheres que, por causa dos traumas coletivos, elas parecem mais interessadas em sair com os nativos gregos de Chipre do que com seus irmãos de guerra, o que levará a caldeira a explodir. A fotografia do filme, para tal, pega todos os ângulos mais superficiais de se estar em um resort com praia e barcos de mergulho apenas para tentar os personagens com aquilo que eles estão sendo privados e aumentar o desconforto. Além disso, as movimentações diante da câmera respeitam posições de atores como se eles literalmente estivessem em um pelotão, sempre em filas hierárquicas de poder psicológico. E o primeiro take do filme, um incrível close na íris do olho da protagonista, volta melhor no final para retomar a história pela perspectiva da personagem feminina que a começou, sem perder o foco.

A protagonista bem defendida por Ariane Labed (do ótimo “A Odisseia de Alice”) centraliza corretamente a força e vulnerabilidade da memória da cicatriz física e mental que ostenta, mas é a personagem da melhor amiga de infância, interpretada pela cantora francesa Soko que verdadeiramente rouba a cena, com sua atitude rebelde e incandescente. Infelizmente, após segurar as pontas da finíssima tensão até o final, inclusive não resolvendo as questões tão facilmente assim, pois de todos os desfechos, as diretoras não escolhem os mais fáceis, é só o epílogo que enfraquece um pouco sua eficiência. A última quinta parte do filme tenta reforçar o fraquíssimo título original em francês, “Voir Du Pays” (‘Ver os Países’), ao invés do ótimo “The Stopover” (“A Parada’) em inglês, romanceando desnecessariamente a visão de mundo da protagonista.

Mostra de São Paulo 2016

The Stopover (Voir Du Pays)

França / Grécia. 2016, 102 min

De Delphine e Muriel Coulin

Com Ariane Labed, Soko, Ginger Roman

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4