The Surrogate

Um questionamento sem resposta correta

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13 de novembro de 2020

Exibido na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo que aconteceu online em virtude da pandemia de covid-19,o longa-metragem The Surrogate(em português Mãe de Aluguel)é uma produção norte-americana dirigida por Jeremy Hersh, cuja trama aparentemente simples propõe questões complexas. O filme conta a história da designer Jess, interpretada por JasmineBatchelor, que aceita ser barriga solidária para seu casal de amigos Josh e Aaron, vividos por Chris Perfetti e Sullivan Jones, respectivamente. Porém,logo no início da gestação com a ajuda de um exame é descoberto que a criança possui síndrome de down, o que resultará em um grande embate entre os envolvidos sobre a possibilidade de seguir ou não com a gravidez.

É necessário contextualizar que a história acontece nos Estados Unidos, onde o aborto é legalizado em diversos estados e tal decisão seria possível, diferente do Brasil. Em nosso país o mesmo é proibido por lei, exceto em casos quando “a gravidez é resultado de abuso sexual ou põe em risco a saúde da mulher”, de acordo com Decreto Lei nº 2.848 de 07 de Dezembro de 1940. A possibilidade de interrupção da gravidez após o resultado do exame colocará Jess e o casal em lados opostos. Enquanto a designer quer prosseguir com a gravidez, os pais desejam interromper a gestação diante das dificuldades e demandas que um filho especial traria para suas vidas.

Em meio à discussão proposta é importante frisar que todos os envolvidos são pessoas com oportunidades, boas condições financeiras e elevados níveis intelectuais (a mãe de Jess é reitora na Universidade de Yale, por exemplo). Logo no início sãoapresentados ao espectador todos os pontos que envolvem o acordo entre a mãe e o casal, até mesmo de que não há nenhum tipo de transação financeira entre eles. Outro ponto que chama atenção é o fato de assistirmos minoriasem tela – mulheres, negros e homossexuais – discutindo a respeito dos direitos de outra minoria, no caso os portadores de síndrome dedown.

Mas os pontos positivos se atêm apenas à temática proposta, sendo o seu desenvolvimento falho em diversos momentos. Hersh levanta assuntos polêmicos como, por exemplo, eugenia, mas não os desenvolve de forma satisfatória. Os argumentos ditos e/ou mostrados em cena são fracos e Batchelor entrega uma atuação assertiva em demasia, quase agressiva, o que dificulta o desenvolvimento de empatia pela personagem, fazendo com que na maioria das vezes sua posição pareça uma teimosia vazia e pouco embasada. A abordagem usada sobre o passado e as relações amorosas da personagem principal também é desastrosa e chega perto de um limite muito tênue de machismo por parte de Jeremy Hersh (que também assina o roteiro da obra).

Aideia inicial – discutir a possibilidade e ética de interrupção de uma gravidez quando há conhecimento de algo diferente do esperado com o feto –tem potencial, mas é mal desenvolvida. Além disso, o fechamento da trama é inconsistente e segue em uma direção completamente oposta aos argumentos que o diretor tenta construir ao longo de 93 minutos de exibição. Faltou estudo, embasamento, força nos diálogos, abordagem jurídica e sutileza nas atuações para que o espectador pudesse se deixar envolver e refletir sobre a obra e seus questionamentos. O filme chega ao fim e o que sobra é um “gosto amargo” a quem o assistiu.