The Woman Who Ran (Domangchin yeoja) na Berlinale 2020

Dramaturgia das mulheres

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02 de março de 2020

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Imaginem a seguinte catarse coletiva: 2 mil pessoas rindo em conjunto no prestigioso Friedrichstadst-Palast, um verdadeiro palácio de cinema. A causa das risadas? “The Woman who ran”, o novo filme do mestre Hong Sang-Soo com sua atriz-assinatura, Kim Min-Hee. No entanto, para se entender de fato essa experiência, alguns fatores devem ser levados em consideração.

Primeiramente, o tipo de humor dos filmes do cineasta costuma ser de uma fina ironia, através dos usos e costumes, e na repetição do olhar sobre fatos do cotidiano mais mundano, até que a mera reiteração das manias e minúcias comportamentais eclodam numa catarse de hilário constrangimento. Não apenas para o espectador, como para as personagens também, que em geral possuem a habilidade de rirem de si mesmas.

Em segundo lugar, aquela catarse coletiva no Friedrichstadt-Palast teve outro fator crucial: a representatividade crucial para o cinema contemporâneo, e o fato de Sang-Soo estar concorrendo ao Urso de Ouro no aniversário de 70 anos do Festival de Berlim. Mais de um terço do público que foi prestigiar a sessão era de origem oriental, especialmente coreanos, por um forte orgulho de se sentirem repredentados na tela.

Ou seja, se o fino humor de Sang-Soo talvez não faça todo tipo de público rir, já que não gera o tipo de gargalhada rasgada, decerto as circunstâncias daquela sessão convergiram de modo perfeito para o melhor aproveitamento do filme numa reação em cadeia.

Agora, pelo terceiro fator que faltou comentar, já adentrando a escrita e direção do mestre coreano, “The Woman Who Ran” agrega um novo frescor para sua mise-en-scène: uma história voltada exclusivamente para as personagens femininas. E isto não é negligenciar que seus filmes já tivessem forte protagonismo feminino e múltiplas personagens escritas de modo bastante tridimensionalizado. A questão não é esta. Sang-Soo fez um filme desta vez praticamente sem homens e, quando aparecem, só poderão ser vistos de costas ou de soslaio à meia luz. A trama se concentra no univerdo feminino com extrema sensibilidade e agenciamento de suas personagens, todas interpretadas por grandes atrizes com quem ele costuma trabalhar reiteradamente em seus projetos.

Essas relações focadas em diálogos sobre a vida, sobre amizade genuína, sobre superaçãondas rivalidades e solidariedade no compartilhamento de experiências que superem a irresponsabilidade masculina em suas vidas, quando há, é facilitada ainda por todas elas estarem desplugadas de tecnologias o filme inteiro. Estas personagens se reconectam com o que há de essencial nas relações humanas, sem pegar em celulares ou assistir a qualquer televisão… — Quer dizer, na verdade, um único aparelho eletrônico é aproveitada na dramaturgia, que é o vídeo das câmeras de segurança dos prédios onde essas personagens vivem, pois demonstram que são vizinhas solidárias com uma rede de segurança, e sempre estão lá para apoiar umas às outras.

Esse dispositivo tão simples desdobra várias outras posibilidades narrativas que permitem com que estas personagens compartilhem novas experiências. É bastante interessante esta bolha que cria um universo tão poderoso para as suas personagens, e onde piamente acreditamos que possam resolver qualquer problema do mundo.

É aí que entra o pulo do gato, literalmente, já que a relação destas mulheres com os animais será mais um diferencial, com destaque para os gatos, numa das melhores cenas do filme e da carreira do diretor (que causa comoção no cinema em toda sessão exibida). Não há de se falar mais sobre a trama para não cometer spoilers, até porque o arcabouço é super simples: mulher que vivia focada no novo casamento há uns cinco anos finalmente viaja separada do marido e vai visitar várias amigas que não via há muito tempo. Isto libera aa porteiras para falar como alguns relacionamentos apagam as individualidades, e outros chegam ao nível de serem abusivos, inclusive. Tudo isto na base da sutileza e inserido nas metáforas do próprio desenvolvimento da ação nos arcos narrativos: e o perfeito exemplo é como a relação de vizinhança com os animais de estimação, como os gatos, por exemplo, podem descortinar uma falsa cordialidade que na verdade é uma etiqueta bastante agressiva entre vizinhos. E a forma de tratar o próximo diz muito sobre como as pessoas são em casa.

O filme pode até parecer simples, porém jamais simplório, o que lhe funciona como vantagem. Cheio de camadas, a estrutura geral não se pretende maior do que o que apresenta, cabendo a cada espectador ampliar a experiência pessoal com a respectiva bagagem trazida a dialogar com os signos e códigos do macro que Sang-Soo colocou no micro, numa lente de aumento intimista e facilmente acessível, até para o espectador masculino. Com tudo isso, e a desde já famosa cena do close no gato, que consegue dizer mais sobre as relações humanas do que quaisquer diálogos conseguiriam, o cineasta comprova mais uma vez a habilidade de se reinventar e ser mais um dos grandes representantes do reconhecimento ao cinema coreano atual.

*O filme acaba de ganhar o prêmio do Urso de Prata de melhor direção no 70° Festival de Berlim

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