The woman who ran

Filme premiado por sua direção na Berlinale 2020 e como melhor filme pelo Prêmio FIPRESCI no Festival Internacional de Cinema de Estocolmo

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20 de novembro de 2020

O filme acaba de ser premiado com o Prêmio FIPRESCI no Festival de Estocolmo, eleito pelo Júri da crítica no qual este que vos escreve se insere, composto por Ola Salwa, Moira Sullivan e Filippo Pitanga.

*Confiram coletiva de imprensa com diretor e elenco na Berlinale 2020 transcrita clicando aqui.

Imaginem a seguinte catarse coletiva: 2 mil pessoas rindo em conjunto no prestigioso Friedrichstadst-Palast, um verdadeiro palácio de cinema. E tal feito se repetindo em toda sessão. A causa das risadas? “The Woman who ran”, o novo filme do mestre Hong Sang-Soo com sua atriz-assinatura, Kim Min-Hee. No entanto, para se entender de fato essa experiência, alguns fatores devem ser levados em consideração.

Primeiramente, o tipo de humor dos filmes do cineasta costuma ser de uma fina ironia, através dos usos e costumes, e na repetição do olhar sobre fatos do cotidiano mais mundano, até que a mera reiteração das manias e minúcias comportamentais eclodam numa catarse de hilário constrangimento. Não apenas para o espectador, como para as personagens também, que em geral possuem a habilidade de rirem de si mesmas.

Em segundo lugar, aquela catarse coletiva no Friedrichstadt-Palast teve outro fator crucial: a representatividade crucial para o cinema contemporâneo, e o fato de Sang-Soo estar concorrendo ao Urso de Ouro no aniversário de 70 anos do Festival de Berlim. Mais de um terço do público que foi prestigiar a sessão era de origem oriental, especialmente coreanos, por um forte orgulho de se sentirem repredentados na tela.

Ou seja, se o fino humor de Sang-Soo talvez não faça todo tipo de público rir, já que não gera o tipo de gargalhada rasgada, decerto as circunstâncias daquela sessão convergiram de modo perfeito para o melhor aproveitamento do filme numa reação em cadeia.

Agora, pelo terceiro fator que faltou comentar, já adentrando a escrita e direção do mestre coreano, “The Woman Who Ran” agrega um novo frescor para sua mise-en-scène: uma história voltada exclusivamente para as personagens femininas. E isto não é negligenciar que seus filmes já tivessem forte protagonismo feminino e múltiplas personagens escritas de modo bastante tridimensionalizado. A questão não é esta. Sang-Soo fez um filme desta vez praticamente sem homens e, quando aparecem, só poderão ser vistos de costas ou de soslaio à meia luz. A trama se concentra no universo feminino com extrema sensibilidade e agenciamento de suas personagens, todas interpretadas por grandes atrizes com quem ele costuma trabalhar reiteradamente em seus projetos. E talvez, justamente pelo costume da habitualidade, tais atrizes tenham extrema intuição criativa para cocriar com ele em cena, levando o espectador mais atento a levantar a interessante questão de o quanto da cena é construída com o potencial autoral compartilhado das artistas em cena, numa sintonia azeitada com seu realizador.

Essas relações focadas em diálogos sobre a vida, sobre amizade genuína, sobre superação das rivalidades e solidariedade no compartilhamento de experiências que superem a irresponsabilidade masculina em suas vidas, quando há, é facilitada ainda por todas elas estarem desplugadas de tecnologias o filme inteiro. Estas personagens se reconectam com o que há de essencial nas relações humanas, sem pegar em celulares ou assistir a qualquer televisão… — Quer dizer, na verdade, um único aparelho eletrônico é aproveitada na dramaturgia, que é o vídeo das câmeras de segurança dos prédios onde essas personagens vivem, pois demonstram que são vizinhas solidárias com uma rede de segurança, e sempre estão lá para apoiar umas às outras.

Esse dispositivo tão simples desdobra várias outras posibilidades narrativas que permitem com que estas personagens compartilhem novas experiências. É bastante interessante esta bolha que cria um universo tão poderoso para as suas personagens, e onde piamente acreditamos que possam resolver qualquer problema do mundo. Algo bastante intrigante no desenvolvimento de quadros dentro dos quadros do filme, narrativas dentro de narrativas imagéticas, numa preocupação estilística bastante apurada no olhar do diretor, para além da ênfase normalmente já reconhecida em suas obras relativa ao roteiro, já que Sang-Soo costuma ser mais lembrado pela excelência textual e da palavra e menos por arroubos visuais… Eis que neste exemplar ele consegue equilibrar perfeitamente a força dos diálogos e da linguagem literária com a expressão plástica de quadros inventivos que recriam seu texto, e geram mais janelas de apreciação: vide o inusitado uso de artifícios pouco frequentes em sua filmografia, como o zoom e o push-in, ambos usados apenas quando querem exprimir algo realmente muito necessário, e aqui reinventados pelo cineasta.

É aí que entra o pulo do gato, literalmente, já que a relação destas mulheres com os animais será mais um diferencial, com destaque para os gatos, numa das melhores cenas do filme e da carreira do diretor (que causa comoção no cinema em toda sessão exibida). Não há de se falar mais sobre a trama para não cometer spoilers, até porque o arcabouço é super simples: mulher que vivia focada no novo casamento há uns cinco anos finalmente viaja separada do marido e vai visitar várias amigas que não via há muito tempo. Isto libera aa porteiras para falar como alguns relacionamentos apagam as individualidades, e outros chegam ao nível de serem abusivos, inclusive. Tudo isto na base da sutileza e inserido nas metáforas do próprio desenvolvimento da ação nos arcos narrativos: e o perfeito exemplo é como a relação de vizinhança com os animais de estimação, como os gatos, por exemplo, podem descortinar uma falsa cordialidade que na verdade é uma etiqueta bastante agressiva entre vizinhos. E a forma de tratar o próximo diz muito sobre como as pessoas são em casa.

O filme pode até parecer simples, porém jamais simplório, o que lhe funciona como vantagem. Cheio de camadas, a estrutura geral não se pretende maior do que o que apresenta, cabendo a cada espectador ampliar a experiência pessoal com a respectiva bagagem trazida a dialogar com os signos e códigos do macro que Sang-Soo colocou no micro, numa lente de aumento intimista e facilmente acessível, até para o espectador masculino. Com tudo isso, e a desde já famosa cena do close no gato, que consegue dizer mais sobre as relações humanas do que quaisquer diálogos conseguiriam, o cineasta comprova mais uma vez a habilidade de se reinventar e ser mais um dos grandes representantes do reconhecimento ao cinema coreano atual.

* Confiram coletiva de imprensa com diretor e elenco na Berlinale 2020 transcrita clicando: http://almanaquevirtual.com.br/berlinale-coletiva-de-the-woman-who-ran-de-hong-sang-soo/

**O filme acaba de ganhar o prêmio do Urso de Prata de melhor direção no 70° Festival de Berlim

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