Thelma

Joachim Trier e Eskil Vogt são uma das duplas mais promissoras do cinema atual

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13 de outubro de 2017

O filme “Thelma” de Joachim Trier (“Mais Forte Que Bombas” e “Oslo, 31 de Agosto”) e com o corroteirista habitual, o também cineasta Eskil Vogt (“Blind”), talvez seja um daqueles filmes com que vamos cheios de expectativa, até pelos nomes envolvidos, e isso pode prejudicar um pouco o rendimento. Definitivamente é um que merece ser visto mais de uma vez, especialmente fora da correria de um Festival. É um ótimo filme, porém deixa a impressão de já termos visto essa construção arquetípica antes. Por exemplo, com o filme do Festival do ano passado “Raw” de Julia Ducournau, que mesmo possuindo os mesmíssimos arquétipos, consegue ser inegavelmente uma obra-prima ímpar, diferente de tudo o que já se viu.

A história gira em torno de uma jovem com passado misterioso para o qual de início apenas somos remetidos através de um flashback em que o pai dela tenta matar a própria filha quando ainda criança, mas desiste. Você ainda não sabe os porquês de ato tão atroz, ou por qual razão ele teria desistido. Mas há decerto um mistério e estranhos poderes que a menina começa a manifestar. Se ela é uma bruxa, ou se está possuída…nada disso é revelado, nem precisa ser. Tudo é uma metáfora de um filme “coming of age”, com conflitos geracionais sobre rigidez familiar na criação e fanatismo religioso, tanto que os poderes da menina que na teoria não se manifestavam desde sua infância só retornam quando ela se muda para o campus da faculdade, pela primeira vez sozinha na vida, e se vê diante de novas escolhas. Ela experimenta a bebida alcoólica pela primeira vez e se apaixona por uma amiga, questões que lhe eram proibidas familiarmente e pela religião. Ela se culpa e se martiriza psicologicamente, e desta culpa advém a manifestação de seus poderes, por estar em negação.

A princípio sua família parece tê-la contido para protegê-la, mas ao mesmo tempo foi essa proteção que não a preparou para usar todo o seu potencial ao invés de simplesmente castrá-la como preferiram fazer. Aos poucos você vai descobrindo que a castrou, e como castrou outros membros da família também. Talvez a questão que poderia ser melhor trabalhada é justamente na indefinição de por qual ou quais caminhos trilhar na linguagem do filme, que, apesar de belíssimo visualmente como todos os outros trabalhos da dupla, não se define totalmente como filme de gênero: às vezes parece um simples drama, às vezes com pitadas de terror ou de ficção científica, como usar de dimensões paralelas criadas pela mente humana; ou mesmo um belo romance na estrutura narrativa dedicada às duas personagens amigas que se apaixonam, ambas elaborando ótimos papéis: a protagonista Eili Harboe e a coadjuvante Kaya Wilkins. Sem falar em uma ligeira dose de erotismo esteticamente impecável e mais nas sutilezas, no que é apenas sugerido, triunfando em não objetificar as personagens. Outro ponto a se atentar é a fidelidade de seus realizadores ao elenco de seus filmes, trazendo de volta dois artistas importantes para a filmografia de ambos os diretores/roteiristas, como a incrível Ellen Dorrit Petersen e Henrik Rafaelsen (ambos do maravilhoso e subestimado “Blind”).

Não que seja um demérito o filme flertar com vários gêneros, pois geralmente este crítico acredita nisto como uma vantagem. Mas é que o calibre de seus dois corroteiristas cria caminhos a se perseguir no filme com tanto potencial que é uma pena talvez não ver cada um deles ser trilhado com dedicação específica, ao invés da soma de suas partes. Ainda assim, não deixa de ser um grande filme com visual majestoso e um final bastante inspirado para resolver algumas pontas soltas que o roteiro quase deixa intencionalmente sem necessidade.

O filme ganhou o prêmio da Crítica no Festival Internacional da Noruega, e foi indicado nos Festivais de Chicago e Adelaide.