This is Us: terceira temporada

Faltando apenas um episódio para acabar a temporada atual, confira um apanhado antes do fim

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01 de abril de 2019

É impressionante o nível de escrita do real que “This Is Is” está alcançando.

O episódio 15 da nova temporada (3°) já havia sido dirigido à excelência, com diálogos afiados, sardônicos, ambíguos… (superando até mesmo a lavação de roupa suja do episódio no Rehab de Kevin da 2° temporada.

Mas o episódio 17…que dor surpreendentemente real. Que análise marital forte e corajosa. Não é fácil ser um casal. Não é fácil aceitar todos os clichês românticos que nos impõem sobre o amor, como amar a outra pessoa mais até do que a si mesmo, de modo a quase se perder no outro, quando se perder significa deixar de ser você. Uma coisa é abrir concessões para se viver a dois, outra é se perder ou se diluir até que você tenha dias metades, dois partidos, e não dois inteiros. A ideia de cara metade é falha e abusiva até. É pressupor que uma pessoa só possa estar completa quando com outra, ao invés do pensamento muito mais acertadode que dois inteiros tenham mais a agregar um ao outro do que dois partidos que jamais se complementarão — já que a plenitude tem de vir de dentro.

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E é difícil ver essas lições em personagens que você ama. É difícil ver o reflexo disso em nós mesmos em toda a criação estrutural a que todos nos sujeitamos e estamos passíveis de incorrer. Isso não quer dizer que amor verdadeiro não exista, mas sim que jamais o alcançaremos se partirmos da noção básica de que precisamos estar inteiros para começo de conversa. O que “This is Us” alcança, mesmo sendo um novelão muito bem feito, mas que não deixa de ser um novelão, é a chave do possível dentro do real. A cada lágrima derramada, por personagens ou por espectadores, eles encontram uma identificação quase psicanalítica e autêntica de anseios reais por trás do melodrama. O tempo se contrai, se distorce e volta a se expandir para dobrar sobre si mesmo, como numa metafísica deleuziana. Todos os tempos coexistem numa mesma catarse. Uma sessão no divã do terapeuta que se repete até que o paciente aprenda a romper o ciclo.

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Que coisa mais linda. E atuações muito superiores à expectativa que a própria série dita como padrão. Que entrega de seus artistas. E não há artista em Hollywood que melhor saiba chorar em tela com força cênica ímpar a cada experiência do que as lágrimas mais bem pagas de Sterling K. Brown, a melhor revelação que “This is Us” poderia ter nos presenteado. — acompanhado de perto pelo rendimentode sua contraparte em cena Susan Kelechi Watson, que finalmente está recebendo material à altura de seu potencial. Que dupla! Sem falar no roteiro muito bem aplicado na experiência conjunta de envelhecer juntos, desde dois adolescentes que se conhecem e se apaixonam ao desabrochar de uma família com seus risos e dissabores, com bebês e concessões profissionais, e sogras e cunhades, e um misto de diluição do casal original até a possibilidade de choque ou colisão para abrir novos reencontros — sejam consigo mesmos ou não…