Tinta Bruta

Erotismo queer liricamente pintado por música e toques de neon contra o caretismo do sistema atual

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05 de dezembro de 2018

*Filme primeiramente conferido na sua estreia em Berlim por este correspondente almanaquista que vos escreve, realmente “Tinta Bruta” significou uma evolução gigantesca para seus diretores até então, desde seu primeiro longa-metragem “Beira Mar”, imediatamente anterior a este! Um belíssimo filme. Esteticamente e em termos de conteúdo. Ousado e sensual como muitos outros brasileiros não tiveram coragem nos últimos tempos. Acho q vai se tornar filme-fetiche de muita gente, e digo isso no melhor dos sentidos.

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A história versa sobre um personagem perdido neste momento de sua vida (vivido intensamente por uma atuação à la nouvelle vague por Shico Menegat), onde enfrenta um processo judicial por ter praticado um ato de violência em legítima defesa contra a violência homofóbica com que convive no dia a dia, de modo a sobreviver financeiramente de pequenas performances eróticas na internet. Até que um rival aparece para disputar o mercado virtual, mas ao mesmo tempo criar um espelhamento de identificação e autocrítica através de seu semelhante (interpretado com carisma arrebatador e quase dançante por Bruno Fernandes, uma grande revelação que, inclusive, rouba algumas das melhores cenas)…. Uma pintura destemida da vanguarda queer e de estética eroticamente poética contra o caretismo do sistema atual, é muito interessante acompanhar como a música contemporânea e eletrônica reescreve a narrativa sonora de modo a inebriar a rotina perante o estampido do despertar da realidade. Da mesma forma que a fotografia corporal ancora de volta os personagens afora do mundo virtual que eles convivem dentro da internet de encontros e desencontros sensuais, especialmente no que lida com a economia de luz e efeito neon no contorno do corpo para sombrear nossas percepções do que é real e do que não é.

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Um de nossos filmes brasileiros que mais brilhou no Festival de Berlim, onde acabou abocanhando vários prêmios que este crítico que vos escreve, inclusive, previu: como prêmio Teddy de melhor filme de ficção da Competição na Mostra em que concorreu e o mesmo prêmio de fomento para ajudar na distribuição europeia que “Que Horas Ela Volta?” ganhou 2 anos antes. O filme também está na Competição principal da Première Brasil no Festival do Rio deste ano.

Um filme que este crítico que vos escreve pôde acompanhar a recepção desde sua estreia mundial no Festival de Berlim, em que o público alemão, geralmente um pouco frio como a condição climática que os cerca por boa parte do ano, recebeu super calorosamente através de sua narrativa queer anáquica e esteticamente inspirada pelo erotismo de vanguarda. E ganhou mais de um prêmio em Berlim talvez em parte justamente por esse impacto queer na linguagem e na multiplicidade de filmes LGBTQI+ que andamos realizando no Brasil frente a falta ainda de diversidade e representatividade de outros países na produção da sétima arte.

*Crítica composta por vídeo realizado durante o Festival de Berlim em fevereiro de 2018, ampliado durante o Festival do Rio 2018 em novembro, e agora atualizado perante o lançamento do filme no circuito comercial de salas de cinema no Brasil.

Crítica em vídeo em Berlim:

https://www.youtube.com/watch?v=wqcOxmbfOkU&t=7s

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