Todos os caminhos de Marrakech levam a ‘ROMA’

Ganhador do Leão de Ouro, favorito a vários Oscars, drama do mexicano Alfonso Cuarón é uma das atrações mais esperadas do festival marroquino em 2018

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01 de dezembro de 2018

ROMA no Festival de Marrakech

Rodrigo Fonseca
Enquanto o mundo cinéfilo rói as unhas à espera de “ROMA”, que deu à Netflix tribuna de honra no panteão dos grandes filmes da História, o povo do Marrocos e os jornalistas de várias pátrias trazidos pra cá pelo Festival de Marrakech vão se deleitar com a obra-prima de Alfonso Cuarón nesta segunda-feira. Há muito filme bom por aqui, incluindo a coprodução MG-Lisboa “Chuva é cantoria na aldeia das almas”. Mas geral quer Cuarón. Viva México!

Múltiplas virtudes levaram “ROMA” a receber o Leão de Ouro no fecho do 75º Festival de Veneza, em setembro, na Itália, entre elas sua refinada fotografia em preto & branco ou a delicadeza de seus diálogos ao recriar a classe média mexicana do anos 1970. Porém o que mais importa à indústria do audiovisual na sua consagração é o fato de que o serviço de streaming mais popular do mundo na atualidade ter, enfim, conquistado na Meca do cinema autoral um prêmio que é sinônimo de prestígio. Há um ano e meio, o Festival de Cannes virou as costas pra Netflix, questionando sua opção de favorecer telinhas (do computador, do celular ou de TVs) como sua vitrine final, ignorando as salas de exibição. Só alguns de seus produtos originais de longa metragem vão a cartaz, como “ROMA” irá. Mas Veneza – que flerta com a Netflix desde 2015, quando abriu vaga em sua competição para “Beasts of no nation”, um dos primeiros sucessos do streaming – agora resolveu assumir, com pompas, seu casamento com as novas narrativas que as mídias digitais podem gerar. O Leão é a aliança desse matrimônio entre a tradição e… o futuro. E Marrakech quer celebrar essa mudança.

“Não podemos viver sem opções acerca de como vamos poder ver um filme, se no cinema ou em outro suporte. Mas, eu pergunto, quando foi que vocês viram um filme de um mestre como Robert Bresson ou Yasujiro Ozu na tela grande? A maioria de nós, que viemos depois da morte deles, vimos seus filmes na TV ou em DVD ou em outro suporte. Tudo se adapta”, disse Cuarón na projeção de seu filme em Veneza.

Embora andem grafando seu título por aí em minúsculo, o uso de letras maiúsculas em “ROMA” é uma brincadeira com a palavra “amor”. Em seu novo e confessionalíssimo trabalho, o oscarizado realizador de “Gravidade” (2013) e do cult “E sua mãe também” (2001) revive a crise familiar de uma química, Sofia (Marina de Tavira), cuja paz vai entrar em xeque em meio a viradas em sua vida afetiva e em seu país. Tudo é narrado sob a ótica de sua empregada, uma jovem ameríndia, Cleo (Yalitzia Aparicio).

“Eu tive uma babá ameríndia que marcou a minha infância e este filme é uma recordação do que vivi com ela”, disse Cuarón, que tem em “ROMA” seu “Amarcord”, algo tão memorialístico quanto o de Fellini.

Lee Chang-dong investiga a relação cheia de som e de fúria entre raiva e desejo no thriller "Em Chamas"

Lee Chang-dong investiga a relação cheia de som e de fúria entre raiva e desejo no thriller “Em Chamas”

Um dos melhores filmes em cartaz hoje no Brasil, o thriller “Burning” (“Em chamas”), do sul-coreano Lee Chang-dong, chega ao Marrocos hoje, endossado pelo Prêmio da Crítica dado à sua excelência narrativa em Cannes, pela Fipresci (Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica). Ele passa por Marrakech em projeção fora de concurso. No páreo por uma vaga na disputa ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2019, a produção que marca a volta do realizador de “Poetry” (2010) às telas é baseada no conto “Barn Burning”, de Haruki Murakami. Sua trama de mistério mistura literatura, piromania, pecados paternos e uma sequência de nudez rodada com uma delicadeza que esbanja lirismo.
Desejo, inveja e rejeição agitam o coração do jovem estudante de Escrita Criativa Lee Jong-soo (Yoo Ah-In) a partir de um triângulo amoroso no qual ele se envolve meio sem querer após reencontrar uma antiga vizinha por quem tinha interesses amorosos. Ela arrasta consigo um colega (ou crush) sedutor, um homem rico e misterioso que acaba de chegar da África (Steven Yeun, de “The Walking Dead”). Mas a estranheza do rapaz mexe com os brios de Jong-soo, cujo pai está em julgamento, sob a acusação de agressão. Há um epicentro geográfico nessa trama que dialoga com a memória política da Coreia do Sul, a região rural de Paju. É um rico estudo de personagem, e também uma riquíssima investigação sobre moléstias morais.

Poster Las Niñas Bien

Ainda no bonde marroquino deste sábado, vai ter papo com o júri comandado pelo cineasta americano James Gray (de “Fuga para Odessa”), vai conversar com a imprensa sobre suas noções estéticas. Gray lidera um time formado por atrizes poulares (Dakota Johnson, Ileana D’Cruz), pela artista visual Joana Hadjithomas, pelos cineastas Lynne Ramsay, Laurent Cantet, Tala Hadid e Michel Franco e pelo ator alemão Daniel Brühl. O trabalho deles começa pela produção mexicana “Las niñas bien”, de Alejandra Márquez Abella, centrada no impacto das crises econômicas da década de 1980 sobre a saúde financeira da alta classe média daquele país. É o México de Cuarón quem vai inaugurar a seleção competitiva de longas-metragens. Há 14 títulos no páreo pela Estrela de Ouro, incluindo a coprodução Argentina x Brasil “Vermelho Sol”. Ainda no sábado será exibido, “Joy”, drama austríaco sobre prostituição de africanas em solo europeu, dirigido pela cineasta Sudabeh Mortezai. A produção conquistou o prêmio principal de longas de ficção no BFI – London Film Festival, em outubro.

DE Niro + Scorsese Touro O astro americano reencontra seu diretor de estimação para a projeção de O Touro indomável em Marrakech

E tem homenagens à vista por aqui. Ocupados neste momento com a finalização do thriller sobre a máfia “The Irishman”, para a Netflix, Martin Scorsese e Robert De Niro vão passar um fim de semana de nostalgia no Marrocos ao acompanharem uma projeção de gala da versão restaurada do cultuado “Toiro indomável”. A dolorosa saga de vitórias e derrotas do pugilista Jake La Motta vai ser exibida nesta segunda no 17º Festival de Marrakech, que acolhe De Niro esta noite para uma homenagem especial pelo conjunto de sua carreira como ator. No domingo, é a vez de Scorsese ministrar uma palestra na cidade para falar sobre suas escolhas artistas e sobre sua parceria com o astro, de quem é amigo desde os anos 1970. O evento marroquino foi inaugurado na sexta, 30 de novembro, com a projeção de gala de “No portal da Eternidade”, ensaio cinebiográfico sobre Van Gogh, com Willem Dafoe no papel do pintor.

Scorsese e De Niro conferem ainda esta noite, no luxuoso cinema Le Colisée, uma projeção de gala de “Os bons companheiros” (1990), um dos filmes mais aclamados da trajetória de ambos nas telas. Em Marrakech, diante da presença deles, comenta-se que o inédito “The Irishman” possa ser o filme de abertura do Festival de Berlim, no dia 7 de fevereiro, mas não houve confirmações oficiais dos alemães até agora.

Até seu encerramento, no dia 8, o Festival de Marrakech vai receber outros potenciais concorrentes ao Oscar como o badalado “Green room – O guia”, que vem devorando prêmios nos EUA.